A vez dos empréstimos peer-to-peer P2P

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As profundas mudanças pelas quais o mercado financeiro no Brasil e no mundo está passando não se resumem aos meios de pagamentos — tema dos meus dois últimos textos por aqui. Em praticamente todos os setores, a tecnologia combinada a novas ideias tem alterado a maneira como todos os players do sistema financeiro se comportam e atuam. Hoje, falarei do fenômeno do empréstimo P2P.

A sigla que, em inglês, significa peer-to-peer (par a par, na tradução) talvez já seja conhecida de alguns. O P2P está na base, por exemplo, dos serviços de download de filmes e música que se popularizaram no início dos anos 2000. Em resumo, a ideia do sistema era que cada pessoa que possuísse o arquivo compartilhasse pequenas frações dele para os demais usuários, acelerando os downloads e eliminando a necessidade de um banco de dados onde uma infinidade de arquivos fosse armazenada.

É mais ou menos assim que funciona o moderno P2P lending. Criado em 2005 no Reino Unido, esse modelo de empréstimos tem como maior diferencial retirar a necessidade de intermediação de uma instituição financeira para a tomada de dinheiro. Nesse cenário, uma plataforma de P2P lending atua apenas para conectar potenciais investidores e pessoas (físicas ou jurídicas) precisando de crédito.

Com isso, a promessa dessas fintechs é uma situação de ganha-ganha. Da parte dos investidores, retornos financeiros mais elevados. Do lado dos tomadores de crédito, taxas menores e maior facilidade para obtenção de crédito do que em instituições financeiras tradicionais, principalmente para pequenas e médias empresas, que normalmente têm seu caminho dificultado nos grandes bancos aqui e lá fora também.

E o resultado da operação das primeiras operadoras de empréstimo P2P no Brasil é de fato bastante animador. Apesar de o mercado de crédito no país estar estagnado na casa dos R$ 2,9 trilhões por ano desde 2015 e o volume para empresas ter retornado no ano passado a patamares de 2013, as startups do setor vem crescendo em ritmo acelerado.

Em 2015, elas emprestaram somente R$ 2,1 milhões. Dois anos depois, esse montante chegou a R$ 67,8 milhões e, em 2018, superou os R$ 125 milhões, com cerca de 20% desse valor destinado ao crédito imobiliário e o restante a pessoas físicas e empresas. Além disso, os rendimentos de investidores têm superado o CDI, apesar de ser importante ressaltar que os riscos envolvidos são maiores do que em fundos de investimento convencionais.

Outra boa notícia é a regulação do setor, o que tende a estimular a formação de novas fintechs. Uma resolução do Banco Central do ano passado, por exemplo, criou a figura da Sociedade de Empréstimo entre Pessoas, permitindo que fintechs P2P atuem sem necessidade de parceira com um banco. Já um decreto da Presidência, também de 2018, liberou que esse tipo de startup possua 100% de participação estrangeira em seu capital social, elevando a competitividade.

Assim, podemos dizer que o cenário do P2P lending no Brasil é promissor e a presença de regulação sobre ele traz segurança jurídica tanto para investidores quanto tomadores, garantindo um ambiente de negócios de menor risco. Tal situação, aliás, é fundamental, conforme veremos na semana que vem, quando pretendo abordar a experiência do empréstimo P2P no exterior.