Transformação Digital — o que é, o que não é e o que deveria ser

Photo by Cody Davis on Unsplash

Esse artigo é um daqueles que se escreve em partes e durante anos. Isso mesmo, anos! Durante esse tempo venho juntando uma peça na outra, conversando com muita gente sobre Transformação Digital (TD) e validando a necessidade de escrever algo que lance um pouco de luz sobre o tema. Talvez eu possa te ajudar a entender melhor esse assunto com os “dois centavos de experiência” do que vivi até agora. Como referência de motivação, eu finalmente sentei e escrevi esse texto depois de ler o artigo do João Batista. Recomendo a todos a leitura! E, claro, o objetivo aqui não é competir e sim colaborar com o conhecimento.

Como todo profissional de TI com background em gerenciamento de projetos, vou começar sobre com o que está no escopo e o que está fora dele.

O que é: o nome sempre me causou desconforto. Muitas vezes ouvi: “a TI está passando por uma transformação digital”. Espera um pouco. TI por definição não é digital? O que quero dizer é: não deixamos isso no passado quando saímos da máquina de cartão perfurado? Em algum momento recente a tecnologia foi analógica? Isso mostra o quanto o termo virou um item de prateleira nos discursos sem ao menos questionarmos se isso faz sentido. Indo direto ao ponto, TD é um processo — e um processo é uma série de ações que são realizadas em uma ordem para atingir um resultado em particular, segundo o dicionário Collins.

E o sujeito a “sofrer” essa transformação não deveria ser toda a empresa? Se a transformação digital da empresa é focada somente em TI, pode parar.

Isso nunca vai dar certo!

Justamente porque um dos pontos dessa transformação é colocar TI na mesa de discussões sobre o futuro da empresa. Se uma analogia ajudar, em um restaurante, TI sairia da cozinha e discute o pedido junto com o cliente. Mesmo que depois ela volte à cozinha para preparar o pedido. Essa mudança é muito significativa na prática, pois o setor passa a ser envolvido, ao invés de somente comunicado sobre a estratégia e o que será feito.

Isso vem ao encontro de uma constatação que o mercado já está fazendo: as empresas que estão ganhando o jogo são aquelas que entenderam que o core-business delas é ser uma empresa de tecnologia acima de qualquer coisa. O AirBnB é uma empresa de tecnologia que vende turismo. A Amazon é uma empresa de tecnologia que vende varejo. E esses são só os exemplos mais atuais e cristalinos. Só estamos talvez deslocados no tempo e fazendo essa constatação no começo de uma onda de mudanças/transformações organizacionais. Hoje esses segmentos/industrias que não estão sofrendo a transformação ficam para trás enquanto há empresas se destacando usando dados (tomando decisões data-driven) e processos oriundos de tecnologia.

Apesar de essa ser a principal característica da transformação, não é a única. Ela anda em conjunto com outras mudanças. Como a mudança na maneira como nos relacionamos com orçamentos. Qual a porcentagem de acerto dos gestores em relação ao que pediram no orçamento inicial (B zero, OPEX e CAPEX?) e o quanto gastaram? Será que esse processo não é caro, ineficiente e gera atitudes do tipo “precisamos gastar tudo, senão ano que vem pode vir menos”? Ou seja, temos um mindset institucionalizado que premia aquele que acerta o número, ao invés de quem faz mais com menos e economiza para a empresa.

A mudança de como nos relacionamos com projetos, que inclui, mas não se limita, a mudança da maneira como gerenciarmos escopo através de produtos e não mais projetos. Isso abre uma oportunidade gigantesca para a empresa rever o seu portfólio, avaliar o que é mais forte e definir o que faz sentido manter e focar e o que pode ser abandonado.

A mudança na gestão de pessoas e conhecimento, com as empresas entendendo que o grande capital que elas possuem e não é facilmente mensurável são seus funcionários. Gente altamente capaz que se motiva e acredita no propósito da empresa. Empresas que entendem que processos precisam ser mudados e revistos constantemente, mas que eles são seguidos por pessoas e nunca deveriam estar acima dos funcionários e clientes. Do mesmo modo, elas devem compreender que, sem pedir passagem, foi invertida a equação que a empresa é que única e exclusivamente seleciona o funcionário. Hoje as pessoas capacitadas têm muitas opções disponíveis e muitas vezes topam ganhar um pouco menos e trabalhar com gente bacana em um ambiente legal. Sim, isso existe e tem se tornado cada vez mais frequente.

TD também é a mudança na gestão do medo. Vivemos tempos com menos certezas, menos vaidade e mudanças que acontecem com mais frequência, incluindo a mudança na maneira como os gestores de pessoas trabalham. Eles devem gastar tempo se relacionando com o seu time, entendendo a motivação das pessoas e fazendo do ambiente de trabalho um lugar melhor, e fazendo relatórios e se relacionando com outros gestores para fazer política. E com certeza não agindo como “vigiar e punir” na liderança do time.

Por fim, há a mudança ou atualização de tecnologias que a empresa usa. Tecnologia é só uma parte das mudanças em transformação digital. Em resumo, há um conjunto de mudanças que precisa ser orquestrado. E essa orquestração da TD é o grande desafio. Por exemplo, mudar de projetos para produtos, mas não endereçar previamente como será o orçamento, indica uma mudança rasa e que perde bastante do seu potencial caso todas as mudanças estivessem sendo postas em prática.

O que não é TD: Agile coaches, treinamento da área de negócios em Scrum ou Kaban, paredes coloridas, liberar bermuda e camiseta, abraçar árvore, discursos motivacionais reforçando que as coisas vão mudar e há espaço para todos que querem mudar junto com a empresa, continuar tratando as empresas envolvidas como “cliente e fornecedor”, Trelo e JIRA para acompanhar as atividades, mindset que estabelece que a empresa é a última bolacha do pacote, sala de video game, Slack, deploy contínuo, devops e horário flexível até a página 2. Importante ressaltar que todas essas iniciativas têm o seu valor, mas que elas não são suficientes (sozinhas) para serem chamadas de uma transformação digital.

Como o tema é grande e nosso tempo e foco restrito, vou quebrar esse tema em mais artigos para discutir as partes desse conjunto de transformações.

Nota
Já passei por três tentativas de transformação digital em grandes empresas (mais de 10 mil funcionários) nos últimos 10 anos. É sempre bom explicitar: essas são as minhas experiências e minhas definições práticas sobre o tema. Não tenho a intenção (nem pretensão) de esgotar a discussão sobre esse assunto. Ao contrário, acredito que com a discussão e a troca de ideias será possível expandir essas definições.


Originalmente publicado no Linkedin em 23 de janeiro de 2019