Como a regulamentação ajuda o mercado de P2P — A lição chinesa

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Na última semana, comentei por aqui sobre o fenômeno do empréstimo P2P, que tem ganhado força no Brasil nos últimos dois anos e promete ser mais um dos múltiplos pontos a revolucionar a oferta de crédito no país no futuro próximo. Encerrei o artigo da terça passada falando sobre como é importante o avanço da regulamentação do setor, com delimitação de direitos e deveres claros das partes envolvidas nesse processo por parte do Banco Central e outros agentes governamentais.

Tal situação ganha especial relevo, como adiantei no último texto, se voltarmos nosso olhar para a situação do P2P lending na China. Como em quase todos os movimentos que vem ocorrendo por lá — não apenas no setor financeiro, mas em toda a cadeia produtiva de modo geral –, as fintechs apresentaram um crescimento assombroso no mercado de crédito chinês nos últimos anos.

Além do grande impulso econômico experimentado pelo país nas últimas décadas, o cenário de altos juros nas instituições financeiras internacionais e as grandes dificuldades de obtenção de crédito encontradas principalmente por pequenas e médias empresas (em situação muito semelhante à observada aqui no Brasil até hoje) favorecia a migração de parcela considerável das pessoas físicas e jurídicas para o empréstimo P2P. E foi exatamente isso que ocorreu.

De acordo com o relatório da Fisher, citado em meu artigo anterior, entre o início de 2014 e primeiro semestre de 2017, o volume de crédito mensal via P2P na China saiu de praticamente zero para US$ 40 bilhões e alcançou algo como 10% dos financiamentos de carro em todo o país. Ao todo, o saldo de operações ultrapassou os US$ 200 bilhões enquanto, em período similar, a movimentação no Brasil foi de apenas US$ 50 milhões (ou algo como 0,02% do total chinês).

Porém, diferentemente do que costuma acontecer no país, onde o governo central controla com mão de ferro a economia, esse mercado de crédito floresceu com pouquíssima regulação e uma sucessão de fraudes e casos de insolvência das companhias passou a ocorrer, afetando tanto investidores quanto tomadores de empréstimo. Isso reduziu a confiança nessas fintechs de modo geral, o que fez despencar o volume de operações. No primeiro semestre de 2018, último com dados consolidados, foram movimentados US$ 10 bilhões, queda de 75% em comparação ao ano anterior.

Os pedidos de falência, por outro lado, dispararam. Depois de quatro mil fintechs P2P terem aberto processo de falência ou apresentado problemas de solvência em 2016, outras 11 mil startups tiveram que fechar as portas nos últimos dois anos. Nesse quadro, o número de investidores envolvidos com P2P lending, depois de anos em franca aceleração, estagnou em 2018 em 2,1 milhão de credores.

O caso chinês é uma lição que deve ser avaliada e aprendida pelo mercado e as autoridades brasileiras. O empréstimo P2P, além de outras modalidades de crédito, tem espaço para crescer e muito em nosso país, mas ele precisa de segurança jurídica para avançar, minimizando os riscos para os investidores e garantindo solidez para maior confiabilidade das startups envolvidas no setor. As primeiras sementes estão plantadas, devemos continuar nesse mesmo caminho.