Bota fé

Vai ter putaria sim. E se reclamar vai baixar ainda mais o nível. Sempre dá pra ir mais fundo. Mas não pode ser só isso. O menino não gosta. E se ele não fosse assim, quem não gostava era eu. A gente sempre soube que ia trocar mais que saliva. Quando bate o santo desse jeito tem que fazer com devoção. Transformar trepada em ritual de batismo. Porque dali, ninguém vai sair o mesmo. Molho teu cabelo em suor e tá tudo certo, conforme manda a tradição. Há de se respeitar essas coisas. Mas o mundo tem suas regras, e pra algo novo nascer, não tem jeito, por equilíbrio, um outro deixa de ser.

Faz assim, tapa minha respiração com a mão, enfiando o olhar lá dentro do meu, como quem tenta me convencer que existem coisas mais importantes que ar pra pôr no peito. Eu vou acreditar. E vou te deixar decidir quando é a hora de parar enquanto gemo orações entre os teus dedos. Le petit mort. E então eu já sou outra. Menos eu e mais nós dois.

Vamos juntar os demônios todos. Os meus não mordem, prometo. No máximo vão lamber com línguas afiadas cada camada da carapaça que você criou pra se proteger de sofrer. E vão chegar lá onde a vontade do outro dói. Onde é de verdade. Bom demais. Possuídos, transformamos qualquer banheiro sujo num altar. Me ajoelho quantas vezes você pedir. Se souber como dedilhar meus terços, ainda te faço um trabalho dos bons. Trocamos oferendas: te dou uma pinga boa, você me dá um mato pra pitar e a gente se purifica. Se incorpora. Se exorciza.