Sobre instalações de arte, cineastas e sacanagens

Vou te falar: eu tava bem de boa. Mesmo. Sem expectativas. Mas a noite já tinha se borrifado com maldade até por baixo da saia e eu farejo essas coisas de longe. Por algum tempo até sustentei pela frente uma serenidade, mas logo veio a putaria mais sacana e deliciosa desse mundo e me puxou os cabelos com força por trás.

Tinham comentado sobre esse cara. Ele apareceu. Sabe quando não precisa papo, pose, esforço nenhum? Eu bati o olho e engoli com gosto a palavra que pulsou na minha mente: fodeu! Não tinha volta. A gente ia se acabar. Beber junto, beber o outro, até secar a vontade, a boca, as porras todas. E deus do céu, o vidro do mundo embaçou de um jeito que, a partir daí, não me pergunte. Eu não saberia dizer. Não conseguiria contar quando, como. Só o porquê: a gente era foda junto. Fazia sentido estar perto. Mesmo sem entender nada do que ele falava, mesmo sem enxergar no meio daquele fumacê noir que invadiu minha percepção da realidade.

O que me sobrou pra contar foram lapsos de memória que insistem em segurar minhas vontades pelas bochechas e dar aquela cuspida de malandro na boca como quem diz, agora aguenta. Aqui é tortura, caralho.

Ele, caso psiquiátrico, murmurando e gesticulando sozinho. Me puxando pro meio do peito pra perguntar se a gente tava junto, mezzo carinhoso, mezzo alucinando. Rasgando a garganta num rock de doidão enquanto eu lambia viralatamente cada palavra. Contando minhas costelas. Transformando os lençois brancos e assépticos num resort do amor marginal. Sujando a porra toda. Limpando a alma.

A sensação que ficou é de ter uma flecha apontada pro peito, à la Marina Abramović. Faz o coração disparar nervoso? Faz. Bom pra cacete. Mas uma hora pode jorrar sangue pra todo lado. Tarantino style.

To dentro. Se não for pra desgraçar a vida nem saio de casa.