O bolo da Maria

TATIANA MATTOS
Jul 20, 2017 · 2 min read

A janela está meio aberta. A persiana também. O vento é frio e a claridade já dá as caras. Não vai ter jeito. “Vou ter que levantar”. Pronto. Janela e persiana fechadas. O sono se foi, com o vento e a claridade. O cobertor off white (bom e velho gelo) é um convite. Melhor tentar dormir de novo. O toque aveludado não é suficiente. Letícia cansa de “fritar”. Barriga pra cima e o pensamento voa. A caixa de e-mails do trabalho somava 87 mensagens não lidas. Até ontem à noite. A pia está com uma panela queimada tentando ressuscitar. Sua mãe tinha pedido que não se esquecesse de ligar para o avô, que está com saudades. Hoje é dia de dentista. Um pavor e uma limpeza. Sem anestesia. Um absurdo que esteja há quase um dia sem sinal de internet em casa. Tem que ligar pra reclamar mais uma vez. Melhor mudar de operadora. Nossa! Que fome! Mas só tem fruta e água na geladeira. A vontade é de comer um bolo de fubá. Quentinho, com manteiga derretendo. O bolo de fubá mais gostoso do mundo é o da Maria. Sua melhor amiga. Estudaram juntas desde que ela se lembra na escola. Não se vêem há meses. Se falam quase diariamente. Que saudade de dar um abraço nela! Maria sempre gostou de cozinhar. Dos bolos de terra no quintal, passou pra faculdade de gastronomia. Sempre com mãos de fada e de açúcar. Foi madrinha de casamento de Letícia. De presente, fez o bolo mais lindo e inesquecivelmente delicioso. Tomaram um porre naquele dia. Um de tantos que já tinham vivido. Fora os que ainda virão. Quando o pai de Letícia morreu, Maria foi a primeira a aparecer na sua porta. Não falaram nada. O choro das duas se perdeu em um abraço de 15 minutos. Foi uma eternidade. Um laço atado na compaixão. Naquele dia, vararam a madrugada juntas, em silêncio. Letícia é madrinha de Alice, filha única da Maria. Ela nunca quis casar. Sempre quis ter filhos. Casou (porque morar junto é casar) com Leandro e teve Alice um ano depois, que hoje tem 6. O tempo voa! Já é hora de levantar. Estende o braço e pega o celular na cabeceira. Vai ligar pra Maria. Ela vai ficar furiosa. Odeia acordar cedo. São 07h, praticamente madrugada pra ela. No visor, uma notificação. De Maria! Mensagem de duas da madrugada. “To com saudade, vamos nos encontrar?”.

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Histórias dos encontros e desencontros da vida.

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