Interacionismo simbólico — um neologismo barbaresco

Indivíduos empenhados em viver

Por Letícia Giacomelli e Melina Leite

A aula do dia 05 de abril foi dedicada à recuperação do contexto histórico que envolve a pesquisa norte-americana, através de um bom resumo de teorias e autores feito por Carlos Alberto Araújo; das teorias da comunicação de massa, a partir das revisões feitas pela família Mattelart (Armand e Michèle); e ao debate sobre o interacionismo simbólico, termo cunhado por Herbert Blumer em 1937. E é sobre este tema que iremos abordar a partir de agora. Conforme observa Alex Primo no artigo Perspectivas interacionistas de comunicação: alguns antecedentes, os estudos da comunicação centraram-se nas visões transmissionistas e funcionalistas durante muito tempo. O interacionismo seria uma oposição dessa análise que fragmenta o processo em partes (emissor, canal, mensagem e receptor), pois investiga como ocorrem as interações entre os indivíduos.

A expressão interacionismo simbólico, segundo Blumer, era para provisória e acabou pegando. Segundo explica, “constituiu um neologismo algo barbaresco”, mas nos permite elocubar sobre o cenário comunicacional da época, já que o escrito original data de 1969, e ponderar sobre os avanços, ou estagnações, dos conceitos que envolvem a comunicação desde as reflexões deste sociólogo com doutorado em psicologia social, que dedicou-se a observar a interação humana. Ele coloca a interação social como definidor do comportamento humano para além das questões culturais e psicológicas, algo inerente à própria condição humana de criaturas que agem e reagem em sintonia, mantendo a conectividade de atitudes em fluxo constante.

Nas palavras de Blumer, “os seres humanos relacionam-se com o mundo de acordo com os significados que este lhes traz”, questão, segundo ele, relegada — na época — pelos pensamentos e pesquisas das ciências sociais e psicologia (curiosamente suas áreas de formação), reduzindo a análise do comportamento a fatores que presumivelmente o influenciam. A colocação do autor se concentra no fato de que esse pensamento desconsidera o significado dos elementos em relação aos quais o homem age. E aqui reside uma aproximação entre o pensamento de Blumer e a semiologia, que ainda viria a ser melhor trabalhada, mas que não é foco principal neste trabalho.

Para o autor “ignorar o significado dos elementos com que os seres humanos se relacionam é falsificar o comportamento que se analisa. Contornar o significado em favor de fatores supostamente causadores do comportamento constitui uma grave desconsideração para com o papel do significado na formação do comportamento”, avaliação que nos explica sua defesa de que o interacionismo simbólico entende que “os significados proporcionados pelos elementos ao homem são intrinsicamente fundamentais”. Blumer escreve que o “interacionismo simbólico considera os significados produtos sociais, criações elaboradas em e através das atividades humanas determinantes em seu processo interativo”. Ou seja, o que move as pessoas e define suas ações vai muito além de um ambiente no qual elas estejam inseridas. Transcende suas condições psicológicas, formação e leitura de significados. Perpassada por essas condições, entretanto transborda esses fatores em si e é esse processo de interpretação que define a ação e permite a interação. Desta forma, poderíamos conjecturar que a interação depende de um processo interpessoal, mas também de uma relação intrapessoal. Talvez, portanto, pudéssemos afirmar que as opiniões humanas mudam a partir da observação do mundo, do outro e dos significados. O que, de certa forma, traria à interação uma importância crucial para o desenvolvimento das sociedades, lembrando ainda Blumer quando diz que os grupos e sociedades humanas existem em ação e devem ser consideradas relativamente à ação:

“As sistematizações conceituais que retratam essa sociedade de alguma outra maneira serão apenas derivações da complexa e contínua atividade que constitui a vida em grupo. Isto se verifica nas suas concepções mais importantes da sociedade na sociologia contemporânea — a de cultura e a de estrutura social.” (p.123)

Blumer ainda pondera que o significado dos objetos para cada indivíduo é gerado pela maneira na qual é definido por outras pessoas, que surgem a partir de indicações recíprocas, podendo o mesmo objeto ter significados variados para diferentes grupos. “Consequentemente, a fim de se compreender os atos humanos, é preciso identificar seu universo de objetos”. (p. 128) O que nos deixa uma pergunta: não residiria aí, então, na diferença de significados individuais, os ruídos e lacunas de comunicação? Já que o próprio Blumer, lembrando outro autor — George Herbert Mead (de quem seria um ‘seguidor’) -, preconiza que a interação/comunicação precisa que um compreenda a intenção do outro para se efetivar. Ele diz que “quando possui o mesmo significado para ambos, as duas partes entendem-se mutuamente”. Ainda, o autor não deixa de ponderar que “os universos acessíveis aos seres humanos e seus grupos compõem-se de objetos, e que estes são o produto da interação simbólica”. (p. 127) Ele explica que o objeto é tudo que for passível de ser indicado, evidenciado ou referido e existem em três categorias: físicos, sociais e abstratos.

No que se refere a comportamentos coletivos, o sociólogo diz que em sua forma repetitiva e estável, este “representa tanto consequência de um processo interativo, como uma nova forma de ação conjunta sendo desenvolvida pela primeira vez”. Nessa coexistência grupal, seria o processo social que criaria e manteria as regras, e não as regras que criariam e manteriam a coexistência grupal. No entanto, ao tratar dos sujeitos como seres unidos em rede, o autor recupera a ideia de meio no sentido de contexto em que estão inseridos, mas sobrepõe ao ambiente o significado, dizendo que estes conjuntos “possuem seu próprio contexto em um processo localizado de interação social, e que tais significados são formados, sustentados, enfraquecidos, fortalecidos ou transformados, conforme o caso, através de um processo socialmente definidor”. (p. 136) Essas ações gerariam experiências que influenciariam as próximas ações e assim sucessivamente. Bem como o processo interativo procede na interpretação das indicações.

Interessante destacar que através de uma pesquisa sobre o interacionismo simbólico, com o objetivo de entender melhor sobre o tema, foi possível observar que ele é utilizado em várias áreas, além da comunicação e das ciências sociais e psicologia. Ele está presente em estudos de saúde e administração, por exemplo, o que se explica pelo fato de ser uma teoria (ou perspectiva teórica) que trata, além da interação social, como explica no artigo Interacionismo simbólico e a possibilidade para o cuidar interativo em enfermagem “de sentimentos e de atitudes construídos a partir dos significados atribuídos pelas pessoas”.

O simpático Herbert Blumer

Herbert Blumer foi um estadunidense, sociólogo e doutor em psicologia social, que nasceu em 1900 e viveu até os 87 anos.

Iniciou seu trabalho na Universidade de Chicago (onde também foi jogador de futebol profissional). Bolsista em várias universidades. Realizou estudos sobre a moda em Paris. Em 1948, na Associação Americana de Sociologia, procedeu à crítica das técnicas de amostragem das pesquisas de opinião pública, ignoradas pelos formadores de opinião. Tinha interesse sobre assuntos empíricos, mas escreveu sobre assuntos teóricos, sendo considerado, portanto, um teórico (palavras do conferencista Howard Becker). Da parte empírica pode-se destacar dois livros, fruto de pesquisas sobre cinema: Filmes e Conduta e Cinema, Delinquência, e Crime, ambos de 1933. Como maior influência pode-se citar o filósofo George Herbert Mead que seria o precursor do interacionismo simbólico, depois seguido e difundido por Blumer.

Referências:

ARAÚJO, C.A. A pesquisa norte-americana. In: HOLHFELDT, A.; MARTINO, L.C.; FRANÇA,V.V. (Orgs.). Teorias da comunicação: conceitos, escolas e tendências. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001. p. 119–130.

BLUMER, H. A natureza do interacionismo simbólico. In: MORTENSEN, C. D. Teoria da comunicação: textos básicos. São Paulo:Mosaico, 1980. p. 119–138.

LOPES, CHAF; JORGE MSB. Interacionismo simbólico e a possibilidade para cuidar interativo em enfermagem. Rev. Esc. Enfermagem(USP) 2005. 39(1):103–8.

MATTELART, Armand e Michèle. História das teorias da comunicação. Edições Loyola: São Paulo, 1999. p.36–56.

PRIMO, Alex. Perspectivas interacionistas de comunicação: alguns antecedentes. In: PRIMO, Alex; OLIVEIRA, Ana Claudia de; NASCIMENTO, Geraldo Carlos do; RONSINI, Veneza Mayora. Comunicação e interações: Livro da Compós 2008. Porto Alegre: Editora Sulina, 2008. p. 9–15.

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