Sobre Wolton e o problema da comunicação

Wolton. Dominique. Informar não é comunicar. Porto Alegre: Sulina, 2011.

Por Laura Guerra e Greyce Vargas

Em Informar não é comunicar, o sociólogo francês Dominique Wolton reflete sobre o papel da comunicação, principalmente frente às mudanças do século, definindo-a como um dos maiores desafios políticos para se pensar no século XXI. Parte-se da premissa que todos os indivíduos estão inseridos em um contexto no qual não se pode escapar à comunicação. Wolton se baseia em uma perspectiva humanista, levando em consideração que “toda teoria da comunicação carrega uma visão implícita da sociedade e das relações sociais” (2011, p. 20).

O título da obra diz muito sobre o caminho que o autor percorre ao propor uma reflexão sobre a interação e convivência de indivíduos dentro de um novo espaço, proporcionado pela tecnologia. Ressalta, porém, que o caráter da análise não se prende aos processos técnicos, e sim aos processos sociais da sociedade contemporânea conectada e desconectada, ao mesmo tempo. Conectada do ponto de vista em que estão no mesmo ambiente, entretanto não convivem, não compartilham e não negociam. Três conceitos importantes para se entender a ideia comunicação sugerida por Wolton. Logo na introdução, o autor distingue a informação como mensagem e a comunicação como relação (2011, p. 12). E enfatiza que as questões norteadoras da problemática proposta devem ser trabalhadas em conjunto, ou seja, sem organizar uma hierarquia na qual a comunicação ou a informação competem pelo primeiro lugar de importância.

A diferenciação entre comunicação e informação, como manifesta o título da obra, é fundamental para o entendimento do modelo narrado por Wolton no primeiro capítulo, intitulado Comunicar é negociar e viver. A comunicação é estudada como uma área complexa e, para ele, produzir muita informação, em um cenário marcado pela heterogeneidade dos públicos, não significa comunicar (2011, p. 16). A informação, por exemplo, se apresenta em três grandes categorias: oral, imagem e texto. São distribuídas em diferentes ambientes, como a imprensa, a internet e os bancos e bases de dados. Já a comunicação não possui essas características tão técnicas e, sim, é um resultado presente na vida humana, que acontece todos os dias, é a possibilidade compartilhar.

E em meio às diferenciações e particularidades dos conceitos, o receptor está cada vez mais ativo e dinâmico, se tornando uma peça muito fundamental nos estudos de mídia. Wolton denomina o receptor com o termo receptor-ator e, dentro de uma sociedade democrática, o receptor filtra, hierarquiza, recusa ou aceita as diversas mensagens recebidas (2011, p. 18). Observam-se as possibilidades de incomunicação, uma vez que — mesmo com o meio disponibilizado para isto — receptores não dialogam de forma pacífica. Além disto, um dos pontos principais da análise é ressaltar que o receptor vive em negociação, característica só possível em uma sociedade democrática.

Pensemos nas manifestações que ocorreram no país nesta última semana. Dois lados de recepção, incomunicáveis e crentes na visão de que quem estivesse fora dos eixos norteadores (esquerda e direita) e quem não sabe onde ficar no meio desta “guerra”, na verdade, fazia parte do outro lado. O domingo foi um resumo do que Wolton escreveu sobre “a arte de comunicar” e um bom desenho da diferença entre comunicar e informar. Estamos todos dentro do mesmo ambiente, mas cada um fala uma língua estranha, é a Torre de Babel retornando onde se projetou construir a aldeia global, que, como ressalta Wolton (2011, p. 22), é apenas “uma realidade tecnológica, não social”. Os receptores, como disse Wolton (2011, p. 15), “resistem às informações que os incomodam e querem mostrar os seus modos de ver o mundo”. Diante das questões colocadas pelo autor, nos perguntamos: qual seria o papel da imprensa, colocada à prova pelos dois lados, questionada, pressionada e, algumas vezes, agredida, para que se posicione e se mantenha isenta, ao mesmo tempo. Em uma redação, em geral, para o editor e o repórter, as palavras são medidas em centímetros e em tempo. No entanto, o receptor sempre achará que elas foram escolhidas conforme os interesses do outro lado, do lado em que ele não está, portanto, a imprensa, em geral, está do outro lado. “Todos sonham com a compreensão”, diria Wolton (2011, p. 21). Um lado, o outro, a imprensa e aqueles que ficaram de fora.

Poderíamos parar de usar o exemplo de domingo para, falando da imprensa gaúcha, falar de Grêmio e Inter. Daria no mesmo. De verdade.

Quando Wolton para de separar os conceitos e coloca o problema na mesa de discussão, é impossível não se perguntar (e ele mesmo questiona), “como conviver pacificamente num universo onde todo mundo vê tudo e sabe tudo e onde as diferenças são mais visíveis e menos negociáveis?”. Cria-se mesmo uma bolha, como o Facebook calcula, onde o mundo é, nada mais nada menos, do que aquele grupinho que mantém algumas ideias parecidas (porque os outros já foram desconectados ou cancelados)?

É fácil cair na tentação de, entre as palavras do autor, procurar uma resposta para os problemas da comunicação. O ir e voltar no texto mostra o quanto o autor cria uma narrativa complicada, angustiante. Não há respostas. Não há um método que nos coloque em um lugar em que a comunicação funcione. Estaríamos, então, fadados ao fracasso? De que servirão nossas análises aqui? Como vamos fazer a comunicação funcionar? Sabemos usar a tecnologia, parece ser o lugar do conforto. Wolton (2011, p. 23) diz que ela é a dimensão mais fácil da comunicação. A mais complicada seria a dimensão cultural. É aí que mora o problema? Essa é uma dimensão que se conserta? E quem resolveria esse problema de comunicação? O autor nos aponta duas ideologias que ameaçam a comunicação: individualismo e comunitarismo. Seriam as tais respostas?

Utilizando a teoria e conceitos trabalhados pelo autor, a contextualização com os eventos sociais, culturais e políticos, que movimentam o cenário local e mundial, é um exercício interessante para compreendermos a característica desafiadora da convivência em tempos de velocidade e interatividade. Os questionamentos e argumentos da obra Informar não é comunicar contribuem — principalmente neste momento de excitação tecnológica — com uma visão revolucionária do assunto. A problemática transpõe a ideologia tecnicista e convida o leitor a pensar de forma crítica sobre a sua própria responsabilidade como usuário, em um espaço dito como essencialmente libertário. Wolton não glamouriza a força da internet, ao mesmo tempo em não a desmerece. O autor compartilha com o leitor a importância de se valorizar a comunicação como um fator inerente à vida e, assim, propiciar um olhar diferenciado nas análises do processo comunicacional em sociedades cada vez mais digitais.

SOBRE O AUTOR

Dominique Wolton é doutor em sociologia e diretor de pesquisa do Centro Nacional da Pesquisa Científica da França (CNRS). Atua no laboratório de Informação, Comunicação e Implicações Científica, sendo um dos mais conhecidos especialistas em política e comunicação. É diretor da revista Hermès, focada em comunicação e sua relação com os indivíduos.

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