Comunicação e representatividade: A pauta é existir

Com o avanço das tecnologias da informação e transmissão, especialmente da internet, setores da sociedade civil vêm buscando meios de se apropriar e pautar os meios de comunicação através das mídias livres e das redes de comunicação comunitária — como rádios e TVs independentes, plataformas de compartilhamento de áudio e vídeo, redes sociais, blogs, jornais e revistas eletrônicas, entre outros.

Portais de notícias aparecem como canais de produção de conteúdo próprio da periferia, como alternativa à editoria sobre territórios populares da mídia tradicional e hegemônica. São o caso, por exemplo, do Voz das Comunidades, que busca cobrir as pautas do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, e o Site da Baixada — um portal voltado para as áreas de cultura e oportunidades na Baixada Fluminense, qual tenho orgulho de participar.

foto: Igor de Freitas Lima

O alcance da comunicação está limitado ao domínio da técnica, seja tecnológica ou linguística. A comunicação necessita de um emissor, isso, por si só, já é um fator de mediação social e ideológica que se traduz a partir do discurso e narrativa de um ponto de vista sobre um fato.

Quando contamos uma história, a maneira como descrevemos o cenário, enumeramos os personagens, qualificamos suas ações, omitimos certas questões ou emitimos uma opinião, está diretamente ligada a nossa vivência prévia e anterior ao acontecimento. Minha escolaridade, a posição social que ocupo, minha identidade de gênero, meus interesses privados — exatamente tudo converge e contribui para a forma que a história é contada.

Portanto, mais importante do que representar, é a maneira como se é representado. A “realidade” não é evidente e a “verdade” tampouco pode ser apreendida imediatamente pela câmera ou pela escrita. A notícia é também discurso, um ato de interlocução contextualizado e mediado por um viés sócio-ideológico. Uma visão de mundo de certo grupo social sobre determinado acontecimento, travestido de “verdade” e supostamente verificado.

Nesse sentido, canais de comunicação que demonstrem uma perspectiva “de dentro” tornam-se cada vez mais urgentes e comuns — seja para ocupar um espaço vazio de cobertura midiática sobre territórios populares; ou pelos moradores não se sentirem contemplados pelos noticiários, por não corresponderem totalmente à “realidade” local.

Mobilizados em sua maioria em coletivos, grupos populares buscam contrapor a narrativa hegemônica através de um “realismo progressista”. Com pautas mais afirmativas (ou positivas), os canais apresentam um outro olhar sobre o seu território, falando sobre cultura, empoderamento e eventos locais nas favelas, por exemplo.

O objetivo é gerar um efeito reflexivo sobre o lugar que é falado/narrado com propriedade e de maneira global, pois, a partir do ambiente online, permite-se falar do meu território de maneira coletiva e universal. Sendo assim, o espaço passa a ser reconhecido como pauta. De forma que o Rio de Janeiro é a cidade maravilhosa antes de ser a cidade com o terceiro pior trânsito do mundo.

A comunicação é política, embora o meio não seja necessariamente político e politizado. No Site da Baixada, por exemplo, a ideia de que o meu território é também um espaço de cultura e realização inventiva, sobrepõe a pauta geral dos noticiários, que noticiam a Baixada Fluminense pela violência e casos policiais.

Dessa forma, optamos em falar e comunicar sobre cultura e/ou oportunidades por acreditarmos que a maneira como percebemos o nosso território infere na maneira como nos relacionamos com ele. É, portanto, emancipatório por buscar novas histórias e demonstrar uma realidade plural, diametralmente oposta a pauta comum.

O número de canais de comunicação comunitárias vêm aumentando cada vez mais com o passar do anos. Como consequência, a mídia hegemônica se demonstra mais sensível ao tema da representatividade nos meios de comunicação, buscando criar cadernos próprios sobre a periferia ou convidando moradores da favela para escrevem em seus jornais.

Não há como afirmar o quanto o alcance das mídias comunitárias ajuda a pressionar grandes veículos, entretanto, para mim, torna-se cada vez mais evidente que grupos periféricos demandam existir enquanto notícia e retratados de maneira afirmativa.