CriptoFunk celebra a liberdade dos corpos na Maré

Gabriele Roza
Oct 2 · 8 min read

Festa conecta os debates de segurança digital e segurança física.

A segunda edição da CriptoFunk mostrou ainda mais a urgência de conectar os debates sobre a segurança digital e a segurança física. A festa encheu o galpão Bela Maré de gente que queria discutir tecnologia e, ao mesmo tempo, celebrar e defender a liberdade dos corpos. Ativistas, jornalistas, desenvolvers, artistas e outres compartilharam seus conhecimentos e reflexões sobre democracia, cultura, privacidade, cuidados digitais e autocuidado.

Equipe da CriptoFunk reunida no final da festa. ❤ Foto: Amarevê/Suzane

Guiado pelo funk 150 bpm, o evento ocorreu no dia 14 de outubro com diversas atividades simultâneas, entre mesas, oficinas, exibição de filme, rodas de conversa e baile funk. O evento segue o movimento internacional das CryptoParties e foi organizado pelo data_labe, Intervozes, Mapa das Mina e outras organizações parceiras.

A mesa sobre tecnologia e corpo com Andreza Jorge, Maria Chantal e Taísa Machado resume o espírito da festa. ‘‘Quando a gente pensa tecnologia, a gente pensa equipamentos que vão saber se adaptar a determinados ambientes e necessidades. O corpo não é nada mais que isso’’, disse a estilista Maria Chantal. ‘‘O tempo todo o nosso corpo está sendo estigmatizado, vulnerabilizado, estressado, mas é importante tentar utilizar da tecnologia gratuita do nosso corpo para ir contra o sistema que quer que esse corpo pereça antes do tempo’’, disse Chantal.

Andreza Jorge, pesquisadora de dança, corpo e relações étnico-raciais, levantou um questionamento sobre os corpos que são reconhecidos como produtores de inovação tecnológica. Para ela, é justamente porque os debates sobre tecnologia estão pautados em uma perspectiva de futuro que a pessoas negras e periféricas ficam de fora, já que esses corpos se quer são considerados no futuro. Mas Andreza contra-argumenta: ‘‘Esse futuro já está em processo, já está em produção. O que garante esse futuro, ainda que construído na marra, é a nossa capacidade tecnológica de informação, de transformação, de compartilhamento e de cuidado’’, relembrou o debate no podcast do data_labe sobre a Criptofunk.

Cata esse trio! Andreza Jorge, Maria Chantal e Taísa Machado mandaram o papo sobre mulheres e a tecnologia do corpo. Foto: Amarevê/Suzane

A mesa ficou completa com a atriz e dançarina Taisa Machado. A idealizadora do AfroFunk falou sobre como as mulheres favelas desenvolveram a complexidade da dança no funk, ‘‘a dança hoje é acrobática e esse mudança é do Bonde das Maravilhas’’, explicou. ‘‘Não dá pra falar do funk com simplicidade porque o funk não é simples, o funk é complexo como tudo que a favela produz, precisa de muito experiência, muita experimentação porque não é simples’’, completou.

‘‘Como as pessoas podem produzir esse tipo de saber, esse tipo de saber se alastrar de maneira virótica, um saber que consegue movimentar um país e além e, ainda sim, a gente colocar isso como subproduto cultural? O funk nasce na favela, mas já transbordou a favela, porém a favela ainda sofre muito por produzir funk. Todo mundo dança as músicas do Rennan da Penha, mas ele tá preso porque ele é um produtor de Funk’’, disse Taísa Machado.

A tecnologia pode ser racista?

A vigilância do Estado ao ciberativismo de pessoas negras foi discutida na conversa puxada pela desenvolvedora Joana Souza. Segundo ela, tecnologias digitais estão sendo desenvolvidas para reforçar e sofisticar processos criados na época colonial, ‘‘criando uma versão 4.0 das opressões que já nos atingem, mas numa escala maior’’.

A desenvolvedora Joana Souza falou sobre como o racismo opera na internet. Foto: Amarevê/Suzane

Para evitar o que está por vir, Joana reforçou a necessidade de criação de ferramentas descentralizadas que protejam ativistas negros da vigilância e do controle do Estado. ‘‘Quais ferramentas a gente poderia utilizar? Quais a gente teria que abrir mão? Que tipo de conhecimento a gente tem que correr atrás para criar as nossas redes se necessário?’’, indagou.

Os pesquisadores do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS) Diego Cerqueira e Thayane Guimarães mostraram como a tecnologia de reconhecimento facial pode reproduzir o viés racista dos produtores. Eles contaram que a maior parte dos erros que acontecem com as tecnologias de reconhecimento são com mulheres negras que muitas vezes não são identificadas ou são reconhecidas como homens.‘‘Provavelmente esse algoritmo que foi treinado para reconhecer rostos não foi treinado com diversos rostos, ele não é representativo, ele foi treinado com uma base enviesada’’, comenta Diego. ‘‘Isso acontece por conta na nossa sociedade racista e por conta desses filtros de algoritmos que não são capazes de identificar’’, completa.

‘‘E quando a representatividade vem repleta de estereótipos?’’, perguntou Thayane Guimarães que logo depois surpreendeu o público com sua pesquisa sobre representação de assistentes virtuais. Ela contou que a assistente pessoal inteligente, um agente de software que pode realizar tarefas ou serviços para um indivíduo, é sempre representada por uma mulher — como as famosas Alexa e Siri. ‘‘É bem questionador que todas essas assistentes sejam mulheres. O fato é que essas assistentes são construídas a partir de papéis de gênero que são colocados na sociedade’’, explicou Thayane.

Thayane Guimarães apresentou sua pesquisa sobre representatividade dos robôs. Foto: Amarevê/Suzane

A pesquisa mostrou como as tecnologias que foram criadas para servir e ajudar as pessoas a terem determinado serviço segue a uma série de lógicas sociais, desde os corpos, os nomes, as roupas, até as repostas. ‘‘A gente entrevistou algumas pessoas que fizeram os robôs e elas responderam que a persona precisa trazer confiança, acolhimento, dimensão de cuidado, sempre cuidando de forma prestativa das pessoas. As robôs são sempre atenciosas, elas não respondem ao assédio inclusive’’.

Autonomia dos corpos e capacidade de defesa

Na oficina de autodefesa com a Piranhas Team, os participantes aprenderam alguns movimentos para usar em situações de perigo. A partir de simulações de agressões, a equipe mostrou como executar movimentos de defesa que proporcionem experimentações e reflexões sobre os potenciais do próprio corpo e da capacidade defesa, ‘‘é importante a gente saber o que fazer para estarmos preparadas para todas as situações’’, disse uma das integrantes da Piranhas Team.

Piranhas Team comandam a oficina de autodefesa. Foto: Amarevê/Suzane

Enquanto a oficina de autodefesa rolava, na parte de cima do Galpão Bela Maré, Nadia Costa falava para um grupo de mulheres sobre autoconhecimento e autocuidado sexual e ginecológico. Nadia começou explicando o conceito de autonomia, ‘‘para começar, autonomia é um substantivo feminino que significa a capacidade de governar-se pelos próprios meios’’.

Roda de conversa sobre autoconhecimento e autocuidado para mulheres. Foto: Amarevê/Suzane

Explicou que tanto a sociedade civil exerce um poder vigilante sobre os corpos, quanto o Estado que vigia e também controla os corpos. ‘‘O estado com a ajuda da sociedade mantém os corpos de acordo com o que é moralmente correto, ideal e dentro dos paradigmas religiosos e morais’’. Para Nadia, um bom exemplo do controle do Estado sobre os corpos de mulheres é o Projeto de Lei que foi aprovado, em agosto, que garante a cesárea por opção da mãe. ‘‘Isso é trazido como um processo de autonomia, mas é importante entender que o discurso pode ser construído com essa ideia, mas com motivações diferentes. Realmente a escolha de cesárea pode ser feita a partir do momento que você tem acesso a informação. Se você não tem acesso a informação, a autonomia fica limitada porque o processo de autonomia vai se dar com o processo de ter informação’’, concluiu.

Liberdade de imprensa em pauta

Para a segunda edição da Criptofunk, o Laboratório de Estudos Digitais (LED) em parceria com o MediaLab UFRJ elaborou um jogo no qual os participantes precisaram criar uma fake news para uma situação específica do país e pensar nas formas de disseminação. O objetivo do jogo é entender quais são as estratégias e intenções utilizadas na criação e compartilhamento de notícias falsas reais. Além de se divertirem com a experiência, os jogadores saíram compreendendo o peso político da desinformação para o país. ‘‘É difícil até pra gente criar uma fake news sabendo do efeito negativo que ela teria pra sociedade’’, concluiu uma das participantes.

Horas antes, o evento foi aberto com uma mesa sobre democracia, privacidade e jornalismo com Leandro Demori, do The Intercept, Oona Castro, do Intervozes, com mediação do data_labe. O escândalo da Vaza Jato, reportado pelo The Intercept Brasil, levantou uma série de questões relacionadas à liberdade de imprensa na conversa. A mesa esquentou quando o assunto foi sobre as formas atuais de censura, ‘‘a censura se manifesta de forma diferente hoje em dia, não existe mais uma censura de estado, de baixar uma portaria, ela é mais sutil’’, disse Leandro Demori. ‘‘Não vemos mais um ataque a imprensa, atacam o Demori, atacam a Miriam Leitão, isso faz toda a diferença. Antes era uma briga institucional entre política e imprensa, dois poderes que estavam medindo forças, hoje os ataques são pessoais. Existe um sistema montado de treinamento com financiamento de redes para escracho digital, assim que opera a censura hoje’’, explicou.

Leandro Demori, do The Intercept Brasil, Gabriele Roza, do data_labe, e Oona Castro, do Intervozes. Foto: Amarevê/Suzane

Oona lembrou que a censura acontece também todos os dias quando parte da população não tem acesso a certos meios básicos de comunicação, ‘‘quando não temos acesso a instrumentos de informação para peitar certas concepções, quando a gente sofre esse escracho coletivo ou institucional e também quando a gente não tem nossas identidades reconhecidas na mídia’’, completou.

Ao som do 150 bpm

Deize Tigrona, DJ Renan Valle e Raul Santiago fecharam a noite com uma conversa sobre a criminalização do funk e dos produtores de baile de favela. Deize foi direta no papo sobre apropriação da cultura negra: “É som de preto, que agora tá mestiço, de mestiço foi pra branco e que não querem que volte pra gente”. ‘‘É simplesmente o racismo estrutural, estruturante e histórico desse país que não aceita a população negra, periférica e favelada tendo mídia, tendo grana, ganhando pespectiva e sobrevivendo ao sistema que quer nos ver como menos’’, resume Raull.

Deize Tigrona, DJ Renan Valle e Raul Santiago na conversa sobre criminalização do funk. Foto: Amarevê/Suzane

Pra finalizar as oficinas, a dançarina Taísa Machado voltou para ajudar os participantes a soltar os quadris para o baile final. ‘’Toda vez que você for dançar o funk, você tem que se lembrar que uma mulher saiu obrigada de muito longe, sofreu pra caralho, mas ela teve a ousadia de dançar. Aproveite todas as oportunidades que a vida te der para fazer um quadradinho’’, incentivou Taísa. Seguindo a tradição da CryptoRave de São Paulo e colocando em prática os ensinamentos da Taísa, a Criptofunk 2019 finalizou com os corpos soltos na pista ao som do 150 bpm.

Taísa Machada fechou o evento com a oficina de AfroFunk. Foto: Amarevê/Suzane

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Gabriele Roza

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Jornalista.

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Um laboratório permanente de dados na favela.

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