data_labe ano 4: Na luta é que a gente se encontra

Gilberto Vieira
Dec 17, 2019 · 8 min read

Por Clara Sacco e Gilberto Vieira

É difícil falar de 2019 sem acessar as bizarrices que vivemos como sociedade democrática neste ano que passou. É difícil não ressaltar apenas as violações, os malfeitos, os maus tratos. Tentaremos ser leves ancorados, como sempre, nos aprendizados ancestrais: numa visita a Casa de Cultura Thainã, fomos apresentados fisicamente aos Baobás. Sua presença nos acompanha há algum tempo. Eles fazem parte da tradição milenar africana e representam toda resistência. São árvores gigantescas que vivem muitos e muitos anos em situações adversas. Como pode uma semente tão pequena se tornar uma árvore tão poderosa? Os Baobás representam na sua cosmogonia, a conexão entre o mundo sobrenatural e o mundo material. Eles são a presença do que não se vê. Para passar pelo 2019 foi preciso entender os não ditos, os processos, os tempos. Eles são fundamentais para a resistência.

Visita do data_labe a Casa de Cultura Thainã em Campinas. Tc Silva e as mudas de Baobá.

Refizemos nossas ideias sobre o funcionamento do data_labe nos moldes de uma organização da sociedade civil como sonhamos ser. Para além das burocracias e dos planos, nos deparamos com uma série de desafios. O primeiro deles foi a necessidade de crescer. As demandas foram aumentando e nosso desejo de experimentar arranjos mais complexos também. Nossa casinha na Nova Holanda ficou pequena pro bonde. As incursões policiais cada vez mais violentas passaram a contar com caveirões voadores que implantaram terror nos moradores e na nossa equipe. Encaramos nossa própria resiliência e decidimos que era hora de deixar o Miolo. Alugamos o Galpinho — um espaço que oferece possibilidades de formação e encontros de redes, além de acolher a equipe melhor. Deixamos o espaço com a nossa cara, do nosso jeito, através de uma parceria dessas que caem do céu com o Estúdio Chão dos arquitetos Adriano Carneiro e Antonio Coutinho, o Doca.

A decisão da mudança veio numa das checagens de sentido, que aqui merece atenção. São momentos mensais que instituímos enquanto tempo-espaço dedicado ao diálogo, à escuta e fala ativa, atenta, cuidadosa. Mediados pelos nossos padrinhos mágicos - Sissi Mazzetti e Philyppe Motta, dedicamos as tardes para conversar sobre as questões que nos inquietam e instigam. Para alinhar expectativas, falar sobre os incômodos, as feridas, os desgastes, compartilhar as celebrações. Temos cada vez mais certeza da impossibilidade de seguir sem isso. Continuamos com nossos erros, tropeços, falhas, mas olhamos pra elas. Não é fácil, simples ou indolor, mas nos trazem benefícios e crescimentos que parecem imensuráveis. Para 2020 temos a expectativa de elaborar uma publicação sobre o processo, a ideia é que possa inspirar outros grupos a descobrirem seus métodos de fala e escuta. Em tempos de acirramento de extremos, em que a conciliação e os diálogos propositivos parecem cada vez mais difíceis, temos certeza que precisamos exercitar isso internamente, sempre.

Nossos anjos-revolucionários Sissi e Phylippe na última checagem de sentido do ano.

Ainda mais agora, que a equipe cresceu e se modificou. Passamos por desligamentos difíceis, mas incorporamos também ainda mais gente sincera, bonita e elegante. Hoje somos uma equipe de 10 pessoas. Gabi Roza e Michel Silva chegaram pra somar no jornalismo, Ju Sá se tornou fixa nas aventuras do administrativo, produção e coordenação de projetos, Stefany e Maria são nossas primeiras estagiárias de produção e redes sociais. Ganhamos até uma estagiária/voluntária francesa, a Margot, que chegou pra trocar com a Ju Marques sobre ciências dos dados. Mó bondão!

Temos casa, cuidado e gente pra trabalhar, bora pros projetos. Encerramos em junho os trabalhos com a Narra, que agora é um corpo no mundo. Foram produzidos conteúdos relevantes e criteriosos e toda a turma de jornalistas favelados e diversos entre si tá empregada, continua articulada, incidindo nos modos de fazer do jornalismo e desenvolvendo trabalhos em conjunto. Missão cumprida. Por falar em diversidade e jornalismo, sediamos aqui no galpinho uma formação de três dias idealizada pela Enóis, em parceria com a Abraji, para jornalistas das periferias. Foi uma oportunidade muito valiosa de conhecer outras iniciativas, fortalecer a rede e aprimorar técnicas. Saímos do encontro com gás de colaborar para a efetivação de uma rede de jornalistas favelados que seja sustentável, com maiores oportunidades de colaboração mútua e de construção de credibilidade coletiva. Cenas para os próximos capítulos.

Bonde de jornalistas favelades que colou na formação da Énois + Abraji.

Na tentativa de ampliar os campos das possibilidades e disputar a produção de conhecimentos, o ano também foi de estreitar laços com a academia. O processo não é fácil, existe uma película de desconfiança que envolve a relação entre a Universidade e a Sociedade, fruto de uma longa história de relações nem sempre justas entre pesquisadores e objetos de pesquisa. Nos descolamos do lugar de objetos e conseguimos costurar relações de trocas efetivas, que caminham para a utopia da transformação social e do papel que acreditamos que a Universidade pode ter, de abertura e cooperação com a sociedade civil. A primeira delas vem de uma parceria entre a Escola de Administração da UFRJ e a Universidade de Sheffield do Reino Unido na construção de um mapa de inovação social e ambiental no Rio de Janeiro. Além de extrapolar os limites conceituais da inovação nós construímos com as professoras Rita Afonso e Dorothea Klein uma rede de pesquisadores e inovadores sociais que promete realizar ações e pesquisas em conjunto em 2020. A ver.

A segunda, e não menos importante, vem da pesquisação que estamos construindo com pesquisadores da PUC-PR e a Universidade de Durham, também inglesa. Eles estavam em busca de grupos que estivessem utilizando dados e ativismo para pensar infraestruturas urbanas, e foi aí que chegaram até nós por meio do CocôZap. Rodrigo Firmino, Iris Rosa e Andres Ayala além de nos pesquisarem, estão colaborando para a continuidade do nosso projeto, material e intelectualmente. Estamos caminhando para a terceira etapa do CocôZap agora com mais fôlego, recursos e colaborações.

Durante esse ano vivemos a segunda etapa do CocôZap. Seguimos entendendo nossa ferramenta a partir da relação com os moradores da Maré, a efetividade da tecnologia e as possibilidades de incidência política. Em meio a todas as transformações intensas do ano, conseguimos por meio do projeto construir, em parceria com a Redes da Maré e a Casa Fluminense, dois Encontros de Saneamento na Maré e um Hackathon para investigar relações corruptas entre governos e empresas de saneamento. Foram momentos importantes de articulação entre moradores, pesquisadores e ativistas para a construção de uma agenda do território de luta por direitos sanitários. A perspectiva para 2020 é de fortalecimento da rede que pauta as questões de sustentabilidade e meio ambiente na favela. Começaremos o ano com uma agenda importante de ações de monitoramento político e ações em torno da pauta do racismo ambiental.

Bonde do Hackathon do Saneamento com a presença dos pesquisadores da PUC-PR e Durham University

Racismo nosso de cada dia. A prisão do DJ Rennan da Penha nos mobilizou profundamente e deu o tom da CriptoFunk, que se afirmou ainda mais potente e relevante na segunda edição e se estabeleceu como evento anual. A festa trouxe um público ainda maior para o Galpão Bela Maré para o nosso coração. Estamos construindo um espaço de debate na favela sobre segurança, cuidado e liberdade digital e psicossocial e com o funk enquanto elemento fundamental pra entender tudo isso. Foi da forma como a gente acredita que tem que ser: com gente diversa entre si, de maioria de pessoas negras, de mulheres, na favela, a partir de encontros, muita conversa, práticas compartilhadas e festa, rebolando.

Registro da oficina de defesa pessoal com as Piranhas Team na CriptoFunk

Nada como bons encontros. O 60+ foi uma imersão em arte e tecnologia realizada pelas nossas parceiras do Olabi no nosso galpinho. Por quatro meses recebemos um grupo de 40 pessoas idosas, duas vezes por semana, para experiências em arte e tecnologia. Foi desafiador dividir a casa nova com tanta gente e um prazer conviver com essas turmas que carregam consigo tanta memória sobre a Maré. Nosso galpão-oficina tomou forma e conseguimos colaborar para um processo muito valoroso de trocas de saberes. Celebramos, testemunhamos e compartilhamos da vibração da incessante curiosidade pelo mundo que resiste ao tempo e às intemperanças da vida.

Nunca é tarde para viver novas experiências. Jurema, aluna do curso 60+.

Concluímos uma nova experiência que abriu um campo de possibilidades. Pela primeira vez, e de forma mais estruturada, produzimos conteúdos sob encomenda de outras organizações. Em parceria com o #VOTELGBT e o #MeRepresenta, analisamos dados de pesquisas produzidas por eles e transformamos em relatórios. Ficamos super satisfeitos com os resultados, que podem ajudar em uma compreensão ainda mais profunda e complexa do nosso sistema político eleitoral e das demandas de grupos sub representados na política institucional.

Nossa produção jornalística teve uma cara diferente esse ano. Passamos por muitas transformações de equipe, adaptações. Publicamos uma matéria em parceria com a UOL Tab em março sobre a implementação de câmeras de segurança nos carnavais do Rio de Janeiro e Salvador e as implicações na privacidade. Em parceria com a Gênero e Número produzimos um especial sobre racismo religioso. Já com a nova equipe publicamos reportagens sobre o cotidiano e desafios do reconhecimento da profissão de Mototaxista e a falta de continuidade das prefeituras cariocas nas políticas urbanização nas favelas. Terminamos o ano com uma série de produções sobre a criminalização das manifestações da cultura negra no Brasil.

Publicamos onze Newsletters, voltamos com o data_lábia e soltamos para o mundo dez novos episódios. Participamos de mais de vinte eventos entre a região nordeste, sudeste, centro-oeste e sul e ainda passando pelo Equador. Estivemos em muitos cantos enquanto palestrantes, oficineiros, expositores e consultores. Nos reconhecemos no outro, nos estranhamos com os próximos, revimos nossas práticas, entendemos o que nos aproxima do diferente, o que nos repele do que parece comum e continuamos caminhando firme e devagarinho. Na rua, na luta, nas encruzilhadas a gente se encontra, desencontra, avança, tropeça, faz a roda girar. Que a gente consiga encarar 2020 de peito aberto e corpo fechado pro que vier. Axé, Saravá, fé em Deus e nas crianças da favela. Segue o baile!

Parte da equipe do data_ na Criptofunk.

data_labe

Um laboratório permanente de dados na favela.

Gilberto Vieira

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dia de sempre

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Um laboratório permanente de dados na favela.

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