data_labe // um laboratório de estrutura flexível

Clara Sacco e Gilberto Vieira[1]

Texto apresentado a Casa do Povo na ocasião do Laboratório para Estruturas Flexíveis no qual fomos selecionados entre coletivos autogeridos do Brasil.

Pelo direito à comunicação

O data_labe é um laboratório de dados na favela da Maré — Rio de Janeiro. A equipe é composta por cinco jovens moradores de territórios populares que produzem novas narrativas por meio de dados. No centro dos projetos desenvolvidos está a questão do imaginário construído sobre a cidade e seus habitantes.

O laboratório nasceu em 2016 nas dependências do Observatório de Favelas em parceria com a Escola de Dados e hoje se estabelece como programa autônomo e autogerido. As ações estão organizadas em três eixos: produção de conteúdo; formação; e monitoramento e geração cidadã de dados. As atividades estão voltadas para o cotidiano do grupo e suas relações com os territórios de circulação e morada na cidade. Atualmente dedicamos mais ou menos 20 horas semanais à construção de pautas, reportagens, podcasts, projetos de pesquisa, busca, análise, limpeza e visualização de dados, assim como reuniões, participação em eventos e processos formativos.

Durante o ano de 2016 realizamos uma série de pesquisas que podem ser acessadas no site datalabe.org. Um dos destaques é o Mapa da Comunicação Comunitária, uma plataforma colaborativa que reúne veículos de toda a Região Metropolitana. O grupo recebeu um prêmio da rede DataShift, em parceira com a Casa Fluminense, pela elaboração de projeto de coleta cidadã de dados sobre saneamento público na Maré — o Cocozap.

A produção e utilização de dados digitais têm aumentado consideravelmente nos últimos anos com a proliferação do acesso à Internet e com a migração de muitos serviços e formas de interação para o ambiente online. No entanto, ainda existe uma grande lacuna entre os que possuem competências tecnológicas para o uso desses dados, ainda restritas a um grupo social muito privilegiado, e os que não as possuem. Esta lacuna de conhecimento impõe desafios sociais, pois lidar com os dados produzidos por agentes públicos e privados é um fator determinante que permite que grupos mais negligenciados compreendam seu contexto e busquem mudanças na direção de sociedades mais justas.

O Brasil é o quarto país mais desigual da América Latina, com 20% da população (40 milhões de pessoas) vivendo na pobreza[2]. Mesmo em áreas pobres, que carecem de investimentos em infraestrutura e serviços básicos, como educação, saúde, saneamento, o uso da internet é popular entre os jovens: cerca de 89% das pessoas entre 15 e 29 anos podem acessar a internet, em casa, no trabalho ou remotamente.[3] Essa realidade revela maior facilidade para a criação e difusão de novas narrativas, proliferação de canais de comunicação independentes e maior acesso à dados.

A sociedade civil reúne hoje tecnologia, conhecimento e criatividade que, isolados do acervo de dados e informações detido pelas organizações públicas, desempenham um papel muito aquém do potencial gerador de inovação que representam. A geração de novos serviços e processos, mais abertos e democráticos, em estreita ligação com as necessidades de seus interlocutores, poderia ser grandemente potencializada por meio da disponibilização desse acervo de dados e informações por parte do poder público e adequado incentivo a sua utilização pelas organizações da sociedade civil.

O foco não deve ser meramente lançado sobre a tecnologia da informação e comunicação, mas no seu uso combinado com a mudança organizacional e as novas práticas que visem a melhoria dos serviços públicos, dos processos democráticos e das políticas públicas. Entendemos que as tecnologias, por si só, não são suficientes para criar crescimento na nova economia do conhecimento, ao contrário, seu potencial está em como a sociedade decide integrar essas capacidades às suas estratégias econômicas e sociais.

A proposta de construção de um laboratório de dados na favela visa, acima de tudo, trazer para o cotidiano da vida de jovens periféricos o debate sobre a abertura e difusão de dados e informações que podem ser capazes de fundar novas formas de comunicação — mais livres, sobretudo, e novos rumos para a construção da democracia brasileira, que passa por intensa crise política.

Grupo participante do debate proposto pelo data_labe no Laboratório para Estruturas Flexíveis na Casa do Povo, São Paulo, em outubro de 2017. Foto: Júlia Moraes

Como estar no mundo: por uma estrutura flexível

Acreditamos na autogestão como forma de operação de um grupo que independe de um organismo maior único para garantia de sua existência. A institucionalidade pode ser flexível e as ações do grupo podem estar vinculadas a uma série de parceiros e organizações. Esse modelo autogerido deve exercitar frequentemente reflexões sobre sua própria prática para um funcionamento autônomo e sustentável. Há de se ter em vista as relações profissionais e afetivas entre os membros do grupo, estabelecendo trocas e elaborações conjuntas permanentes.

No contemporâneo isso se dá a partir do deslocamento dos sujeitos na estrutura de representação tradicional. A fragmentação das identidades e das pautas fez com que novas vozes gritassem. As práticas e códigos cotidianos de grupos específicos servem como base para reivindicar um lugar onde os sujeitos possam dizer sobre si e agir com mais autonomia sobre suas necessidades, ações e criações . Esse lugar não responde às estruturas verticais e enrijecidas do passado. É nós por nós.

Apesar do corpo gestor do data_labe ter um histórico de vínculo institucional com o Observatório de Favelas (uma consolidada organização da sociedade civil do Rio de Janeiro) a elaboração e o desenvolvimento do primeiro ano do programa deu-se de forma bastante autônoma em relação à institucionalidade, o que culminou no estabelecimento de relação independente e de parceria.

A mudança se deu não apenas pelo desejo do grupo em desenvolver suas próprias metodologias de funcionamento, que muitas vezes não correspondem à de uma grande organização, mas também por um reconhecimento da instituição em relação à autonomia do grupo e sua independência. O processo em alguns momentos se deu de forma tensa. Os esgarçamentos aconteceram tanto pelo não cumprimento de algumas expectativas em relação ao papel institucional do data_labe, quanto pelo incômodo do grupo a algumas subordinações intrínsecas à institucionalidade.

Daí a decisão consensual das duas partes da afirmação do data_labe enquanto um grupo autônomo e autogerido. Surgem então os desafios: Como garantir a manutenção de relações com diferentes instituições e níveis de institucionalidade para a realização de projetos? Como garantir a sustentabilidade sem um aparato jurídico/burocrático? Como manter e desenvolver mecanismos de gestão horizontais, transparentes e participativos? Como se reivindicar no entre-lugar das velhas organizações da sociedade civil e os novos coletivos independentes?

Partimos das experiências de novas institucionalidades estabelecidas por coletivos, projetos e grupos autônomos que operam nas periferias do eixo Rio-São Paulo. Nos interessa estabelecer pontos de contato entre esses sujeitos a fim de elaborar um outro pensamento sobre as institucionalidades contemporâneas. Como colaborar com outros grupos jovens que, assim como nós, rompem o modelo institucional estabelecido? Como catalogar modelos inovadores de gestão a partir das experiências faveladas?

É nessa troca que se dá a construção do nosso próprio modelo. Soltamos um pouco os laços institucionais compostos por exigências e posturas enrijecidas e estamos elaborando processos mais dinâmicos onde as experiências externas são insumo para um remix metodológico. Sendo assim, toda e qualquer decisão passa por um debate (com devidos tempos e proporções); o dinheiro tem deixado de ser um tabu e os orçamentos, custos, despesas e necessidades vão ganhando espaços naturais nas reuniões; as pautas estão sendo construídas com escuta atenta aos nossos momentos e desejos pessoais; as agendas estão sendo estabelecidas em conjunto e as frustrações e derrotas compartilhadas em momentos de afetividade e cuidado mútuo.

O data_labe completa dois anos de existência em janeiro de 2018. Passamos seis meses sem qualquer financiamento[4]. Nos fortalecemos na crise, construímos pontes e agora nos lançamos mais uma vez no desconhecido. O que nos move é a possibilidade de disputar um campo que parecia inacessível aos sujeitos periféricos. Somos capazes de organizar um movimento potente que incida sobre a vida de outros sujeitos e territórios. O desafio é seguir olhando para dentro, refletindo sobre os modelos que nos cabem, deixando sempre brechas para o imprevisível.

[1] Clara e Gilberto são gestores do data_labe.

[2] Fonte: Estudo do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-HABITAT), divulgado em 21/08/2012.

[3] Fonte: Solos Culturais. Observatório de Favelas, 2013

[4] De janeiro de 2016 a janeiro de 2017 o data_labe contou com apoio da Open Society Foundations. Em fevereiro ganhamos um prêmio em dinheiro da rede DataShift. Só em setembro de 2017 recebemos apoio da Fundação Ford para manutenção de contas básicas. Ainda durante o segundo semestre estabelecemos parcerias que geraram receitas com a Anistia Internacional, a Escola de Jornalismo da Énois e a Casa do Povo onde ficamos em residência durante o mês de outubro.