Depois de São Paulo ter vindo pro Rio, chegou a hora do Rio de Janeiro ir pra São Paulo. Após duas semanas trabalhando de longe nós iríamos enfim estar juntxs pra produzir a matéria “Conexão Quebrada”, fruto da imersão entre nós e a Escola de Jornalismo da Enóis. Também fomos participar da residência “Laboratório para estruturas flexíveis” na Casa do Povo, onde investigamos formas de gestão de coletivos e empresas que fogem do meio tradicional e hierarquizado. Foram três semanas de aprendizado, afeto, sentimentos e muita piada de biscoito ou bolacha.

Impossível eu não falar sobre o velho clichê da maior metrópole do país. Prédios, prédios e mais prédios. Um horizonte que me deixou impressionado, não existiam morros, como é comum da geografia aqui do Rio. De vez em quando era possível enxergar alguma cor, quase sempre os grafites, que trazem uma beleza humanizada para esse monte de caixas.

São Paulo da vista clichê de todos os dias

Eu sempre me defini como uma pessoa que foi feita pra cidade. Odiava os rolês que saiam da zona metropolitana, que me levassem pro meio do mato, pra algum lugar onde não tivesse sinal de internet ou tomada. E ficava muito confortável com isso, então achava que São Paulo seria a cidade perfeita pra mim. Um leve engano.

A primeira semana pra mim foi a que me deixou mais confuso. Eu sentia um incômodo constante e não conseguia identificar o porquê. E no fim dela fomos dar um rolê no ÔnibusHacker com o pessoal do LabHacker, que dividem um predinho na Armênia com a Énois. Fomos para a Ilha do Bororé conhecer a Casa Ecoativa, depois saímos com a Carreata Poética, evento de literatura nas ruas produzido por coletivos artísticos da Zona Sul de São Paulo.

Chegando na Ilha do Bororé

Chegando na Ilha do Bororé fui começando a ver mais árvores, plantas e aos poucos percebendo o motivo do meu desconforto com a cidade. Aqui no Rio, por mais que a gente não perceba, somos muito ligados à natureza, à praia, ao sol. Só me dei conta disso quando senti falta. Em São Paulo se tornou comum eu querer fazer coisas ao ar livre. Quando via algum raio de sol entrando no local onde eu estava, sentia uma felicidade imensa — e inexplicável.

Em meio à busca dos dados, entrevistas para a matéria e aulas, também fui conhecer vários coletivos como pesquisa para a residência. Um deles foi a Casa da Lagartixa Preta, que fica em Santo André. Uma organização com princípios anarquistas que existe há mais de 10 anos. Lá conhecemos a Sanara, e um pessoal muito simpático que nos apresentou a casa. Lá tem uma horta de PANCS — Plantas Alimentícias Não Convencionais, e acontecem também as pizzadas veganas com ingredientes feitos a partir da horta delas, tudo para garantir a sustentabilidade do espaço de acolhimento.

Sanara nos recebendo na Casa da Lagartixa Preta

Logo na semana seguinte aconteceram vários eventos na Casa do Povo, oficinas e vivências para discutir o fazer coletivo e de diversas maneiras. Foram muitas falas, de gente intelectualizada, com palavras muito difíceis. E isso de cara já me inibiu de abrir a boca pra dizer qualquer coisa.

Primeiro dia da residência na Casa do Povo

Esse papo de intelectuais serviu pra me afastar da semana de eventos da residência. Com isso eu tive mais tempo pra desbravar a cidade dos prédios e trabalhar mais juntinho da galera da Énois.

A cidade de São Paulo é bem plural, com muitos imigrantes e várias culturas diferentes que se estabeleceram lá e fizeram questão de continuar com elas em outro país. Um exemplo o Bom Retiro, que foi o bairro que mais conheci, tem imigrantes Sírios, coreanos e judeus. Passar pelas lojas e elas não estarem escritas em português, coisa que a gente nunca viu no Rio. Foi uma das coisas mais chocantes que vi em SP, entender que é comum andar pela rua e ouvir duas línguas diferentes. Aqui isso só acontece em Copacabana, Ipanema, pontos turísticos.

Pra além do Bom Retiro, conheci o bairro da Liberdade que é um bairro de colônia coreana e o Bixiga, que fica bem perto da paulista, um bairro de colônia italiana, onde quero voltar pra almoçar em uma outra oportunidade.

Turistando no bairro da Liberdade

Sobre a Énois

Trabalhar com a galera por perto me tirou muito das ansiedades que eu estava tendo aqui pelo Rio de Janeiro. Se já é difícil construir algo sem estar perto de uma pessoa, imagina fazer isso de outro estado em grupo. Estar junto da galera foi um alívio imenso.

A proximidade me fez entender como que é esse processo jornalístico de grandes mídias — mesmo que o Nexo seja considerado independente. Pra quem não sabe, eu não sou jornalista, minha formação é em arte e audiovisual — e as formações múltiplas da gente foram muito importantes para nós do data_labe entendermos sobre o nosso fazer.

O que essa matéria que fizemos juntos trouxe de novidade pro data foi o fato dela ter sido nossa primeira matéria escrita para um jornal, antes nós só tinhamos publicado nos nossos canais. Isso mostrou uma maneira diferente do fazer jornalístico que aprendemos com a mão na massa.

Sempre começamos nossas narrativas a partir dos dados. A partir deles nós procuramos histórias e só após essa busca que vamos atrás de personagens e outras fontes. O que vai de maneira completamente diferente de um jornalismo onde primeiro se tem a história e depois se busca os dados para trazer mais embasamento para a reportagem

Trazer os dados para o centro da narrativa faz com que se tenha mais tempo para a busca deles, e também nos dá um panorama muito maior sobre o assunto que estamos abordando na matéria.

Fazendo dessa outra forma eu pude notar o quanto somos rigorosos em relação aos dados. Nós percebemos que o jornalismo comum faz o uso de dados “à moda caralho”, na maioria das vezes copiando de alguma outra matéria e quase nunca buscando as fontes primárias. Uma prática muito comum é não citar de onde foi retirado o dado, o que evidencia a total falta de compromisso com a providência da informação e podendo assim perpetuar informações que talvez sejam incorretas.

Acredito que nesse fazer em conjunto a Énois tenha se beneficiado da nossa experiência em lidar com dados. Pois espero que tenhamos entendido em conjunto que trabalhar com dados não pode ser apenas um crtl-c crtl-v. Da importância que tem em nós mesmos, sujeitos das periferias, fazermos as análises das pesquisas que vão embasar nossas narrativas.

Uma das coisas que mais interessantes pra mim no data é o aprender junto com o processo. Isso nos ajuda a entender nossas dificuldades, nossos limites e nossos pontos fortes de maneira bem natural. Nem sempre o errar é ruim, é só mais um aprendizado.

Pra essa matéria nós nos dividimos em equipes: dados, direção de arte e texto. E obviamente, eu participei da equipe de dados. Fazer coisas com muita gente pode ser caótico, mas se todos estiverem concentrados nos seus objetivos tudo dá certo. Isso me fez refletir sobre a nossa equipe do data, somos cinco, e se contarmos só os residentes, apenas três. A Énois já tem 10 alunos, muito mais braço que nós. Isso me fez perceber que as vezes nos sobrecarregamos muito de algumas demandas. Porém, apesar de poucas pessoas, acredito que nós conseguimos produzimos bastante coisas.

Fiquei quase um mês trabalhando com uma galera que eu admiro muito. E tudo o que saiu foi aprendizado, reflexão, mais críticas sobre transparência e uma matéria que foi punk de fazer, mas que o resultado final foi incrivelmente belo. Agradeço pelo aprendizado, carinho e pela paciência ❤.