Encontro “R2R — Pelo Direito de Filmar” e a grande questão de midiativistas: na era de algoritmos, como distribuir meu conteúdo?

Eloi Leones
Jun 6 · 4 min read

Durante o final de semana dos dias 3 a 6 de maio, rolou o encontro R2R — Pelo Direito de Filmar, da Witness Brasil. O encontro tomou uma casa de praia incrível em Piratininga, Niterói, aqui no Rio de Janeiro. A Witness é uma organização internacional que atua na fomentação, formação e advocacy em vídeo como direito de filmar, seja com o celular para fazer denúncia de excessos de agentes do estado, violações de direitos humanos ou pra mudar a narrativa hegemônica imposta pelas mídias de massa.

Esse encontro reuniu cerca de trinta pessoas do Brasil inteiro: norte, nordeste, centro-oeste, sudeste e sul. E isso fez toda a diferença no final das contas. É muito comum nesses encontros “nacionais” a gente perceber uma presença maciça do eixo sudeste do país.

Uma das coisas que eu pude perceber nas rodadas de apresentação foi como que, apesar de termos as mesmas pautas, nossas lutas são feitas de formas tão diferentes. Enquanto aqui no sudeste a violência cotidiana é conhecida e debatida por todo mundo, no norte e nordeste a luta é para que o Brasil inteiro saiba da violência que acontece por lá.

Rola um apagamento muito grande das pautas dessas regiões por conta de interesses de mineradoras, do agronegócio, e das próprias mídias de massa. E esse apagamento não é apenas escolhas de pautas que o editor de um jornal faz. São decisões de vida ou morte de militantes, indígenas e qualquer um que ouse denunciar as atividades criminosas de mineradoras e extrativistas. Por exemplo, o nordeste do Brasil é a região em que mais defensores de direitos humanos são assassinados. Já falamos um pouco sobre isso em uma das edições da nossa newsletter (que você pode assinar aqui). É um apagamento tão grande dessas lutas que ninguém fica sabendo do que verdadeiramente acontece, por isso a descentralização das mídias de massa é urgente.

Por isso as redes sociais são um lugar muito importante pro ativismo. Na internet, todos têm o direito de falar, todo mundo pode ser uma minicentral de jornalismo e criação de conteúdo. O escoamento do que criamos é mais fácil e sem intermediários. Mas em tempos de algoritmos, engajamento e influenciadores digitais, a gente pode encontrar algumas dificuldades.

Pensando nisso tudo, levantei algumas questões: como gerar mais engajamento nas nossas pautas? Como usar redes sociais de forma mais eficiente? Como distribuir o conteúdo que criamos?

As dificuldade são muitas, ainda mais quando a gente para para pensar em plataformas. Aqui no Rio e em São Paulo o comportamento têm se modificado, onde me parece que cada vez mais pessoas têm migrado para o Instagram, fazendo do Facebook um deserto. Me conectando com outras regiões, pude perceber que o Facebook ainda é um meio muito utilizado de consumo de informação. Isso vai contra o que a gente aqui no sudeste pensa: que ninguém mais usa o Facebook.

Porém, mesmo com toda essa vontade de fazer acontecer e engajar politicamente na era da internet, ainda esbarramos com questões de distribuição. Não pensamos em como fazer nossas criações chegarem em quem se interessa a ler. Escrever sobre nossas vivências é importante, falar sobre as violências cotidianas também, mas nada disso importa se ninguém lê.

Eu tenho percebido que, nós, midiativistas, temos que nos entender como ~digitais influencers~ porque no fim das contas, somos isso mesmo. Criamos conteúdo, engajamos pessoas e movemos estruturas. Não adianta a gente só fazer por fazer se não temos uma estratégia de escoamento de conteúdo. Quero que nossas vozes cheguem a milhares de pessoas, não só ao pesquisador ou estudante acadêmico. Com essa galera a gente já está craque em falar. Por mais que a gente torça o nariz para a publicidade, ela tem estratégias de comunicação muito eficientes que os movimentos sociais precisam aprender a usar — se não quiserem virar apenas referência de pesquisa acadêmica.

Acredito que precisamos avançar na discussão de criação de narrativas sobre periferias. Agente já se entendeu como agente transformador, já entendemos como criar, afinal, ter um perfil em uma rede social já te torna um criador de conteúdo, um jornalista, um cineasta. Precisamos pensar agora em estratégias, em escoamento, em criação de plataformas ou como hackear as plataformas já existentes pra gente aumentar nossa voz. Não precisamos só nos sentir eternamente injustiçados com os algoritmos. A gente também precisa entendê-los.

Todas essas fotos são da Mayara Donaria ❤

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Um laboratório permanente de dados na favela.

Eloi Leones

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Um curioso que adora aprender um pouco de tudo.

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Um laboratório permanente de dados na favela.

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