Entrevista // Tony Marlon

Esta entrevista faz parte do primeiro episódio do podcast do data_labe, o #datalábia. Nele, discutimos a importância da comunicação comunitária para a construção de novas narrativas na/para a favela e periferia, baseados no Mapa da Comunicação Comunitária.

Para ajudar a gente nesse papo e debater essa questão, conversamos com a jornalista Gizele Martins, comunicadora da favela da Maré, do Jornal O Cidadão e da Revista Vírus, e com o idealizador da Escola de Notícias e da Historiorama, Tony Marlon, do Campo Limpo — quebrada de SP. Agradecemos ambos por terem parado a sua correria para nos ajudar a entender um pouco desse universo.

Tony Marlon no Seminário Meu Lugar em maio de 2016 em São Paulo

Nessa entrevista, discutimos o conceito de educomunicação, as diferentes maneiras de fazer comunicação entre SP e RJ e como a comunicação comunitária pode e deve se posicionar nesse momento de democracia fragilizada. Segue a leitura:

data_labe: O que é educomunicação?

Tony: É uma pergunta difícil porque o campo da educomunicação tem vários subtipos. Essencialmente, educomunicação é esse encontro entre as produções de mídia, a produção comunicativa, e o campo da educação. Basicamente, como é que a partir da perspectiva da educação, como é que a gente produz pensamento crítico e comunicação para os nossos territórios, para os nossos pares, para os nossos grupos. E passando da comunicação, como é que a gente usa as tecnologias de informação e comunicação para melhorar o processo de aprendizagem.

Então, esse é o conceito da educomunicação. É o campo, o momento do encontro entre as ferramentas de tecnologia de informação e comunicação e o processo educativo: como é que a gente aprende mais e melhor utilizando a produção comunicativa que está colocada no mundo e como é que a gente lê a mídia, de uma maneira melhor, trazendo os meios de comunicação para dentro da sala de aula. Esse é o conceito, agora dentro disso tem diversas linhas e caminhos.

Eu, por exemplo, brinco muito que a educomunicação que eu acredito é muito menos uma Educomunicação e muito mais uma Eucomunicação, com o “eu” no começo. Acredito que para além da melhoria do processo de aprendizagem na escola, e para além da produção de uma reflexão crítica sobre os meios comunicação, tem o ‘eu’, ou seja, tem o ser humano, a pessoa dentro desse processo. Então, eu brinco muito que a educomunicação que eu sigo tem uma eudocomunicação, é quase como é que eu aprendo mais e melhor no mundo, como é que eu tenho direito de produzir conteúdo no mundo, mas mais do que essas duas coisas, como é que eu, como ser humano, tenho o meu direito a contar a minha versão do mundo restaurada. Por que hoje em dia, com meia dúzia de meios de comunicação que acabam falando com muita gente, muitos e muitas de nós acabam silenciados no direito de contar quem é o mundo. O mundo é contado sempre da mesma maneira.

data_labe: O que você faz nesse campo? Fala um pouquinho do seu corre pra gente.

Tony: De 2013 até 2016, eu co-fundei a Escola de Notícias que é uma organização que trabalha basicamente como as escolas de comunicação comunitária, mas ela faz não somente a partir da perspectiva técnica. A gente desenhou uma metodologia que parte da Antroposofia, pelo autoconhecimento, do Rudolf Steiner (Filósofo austríaco), passa pelo monomito, a jornada do herói, do Joseph Campbell (Antropólogo norte-americano). A gente usa essa metodologia para formar contadores e contadoras de histórias, então além de jornalistas a gente quer formar o contador de história. Em 2016 a gestão da organização passou a ser feita por ex-alunos e alunas formadas pela mesma, o que é muito legal de acontecer.

Hoje eu estou trabalhando na criação de uma outra organização chamada de Historiorama, que é muito mais voltada para como a gente utiliza as tecnologias de informação e comunicação para restaurar o direito das pessoas sobre as suas narrativas, ou seja sobre contar sua própria história de vida, em que somente os mesmos veículos que contam, especialmente também sobre como que a gente usa a tecnologia para restaurar o nosso núcleo criativo. A gente que nasce nas periferias, a gente é colocado num lugar onde se pode fazer tarefas como abrir portas, etc, etc. São tarefas muito honrosas. Os meus pais me criaram com essas tarefas, mas a nossa geração precisa dizer que a gente também tem o direito de fazer tarefas criativas, a gente, a gente também pode ser dono de uma revista, de um canal de televisão, de editar um podcast, a gente também sabe fazer essas coisas. A gente também pode ser chamado pra essas coisas. Então, [inaudível] é mais um campo para fomentar projetos e gentes que atuem na perspectiva de usar a comunicação [inaudível] do direito das pessoas de territórios populares.

data_labe: O direito da nossa própria narrativa, né?

Tony: Exatamente. É o que mais me encanta.

data_labe: A gente sabe que não dá pra falar de comunicação comunitária de forma homogênea. Cada rolê é um rolê. Você acha que existe alguma especificidade paulistana do jeito de fazer comunicação na quebrada?

Tony: Achei maravilhosa a sua pergunta, por que eu nunca tinha pensado nisso. Então, eu vou dar uma leitura que tive das primeiras vezes que fui ao RJ e em Sergipe. Eu não sei se tem uma característica própria, mas, obviamente, as muitas formas de produzir comunicação comunitária nascem das nossas demandas. Diferentemente do meio tradicionais, em que a produção de conteúdo é focado em estimular o público consumidor do produto. Afinal o modelo de negócio dos meios de comunicação é o modelo publicitário, ou seja, vende anúncio, marca e etc e tal.

Eu sinto que São Paulo está experimentando formas muito diferentes de fazer comunicação comunitária. Você tem um espaço como o Alma Preta, que é um projeto que tá fazendo reflexão sobre preconceito dentro da sociedade e fazendo uma afirmação do negro dentro da sociedade, especificamente dentro da comunicação. Você tem o Nós, Mulheres da Periferia, que é um projeto incrível, voltado para comunicação e discussão de gênero. E nós temos a Escola de Notícias que é voltado para um outro rolê, que trabalha muito mais em formar uma geração de comunicadores mais empáticos e solidários, com valores e qualidades focados em transformar os meios de comunicação. O que eu sinto é quem em SP tem uma experimentação muito grande de luta.

Você tem uma Imargem, lá no Grajaú, trabalhando a perspectiva do grafite, do muralismo, do estêncil, que é um outro viés da comunicação. Eu sinto que SP tem uma pluralidade muito grande coletivos de comunicação. Tem canais de televisão, tem canal de youtube, tem rádio; É muito diverso, por que como é uma cidade muito grande, eu acho que naturalmente as causas são muito diferentes e existem formas de lutas que são diferentes. Eu acho que a comunicação comunitária nada mais é do que a expressão comunicativa da nossa forma de lutar pelo direito à cidade.

data_labe: Qual o papel da comunicação comunitária nesse momento em que direitos estão ameaçados e democracia fragilizada?

Tony: Do fundo do meu coração, eu tenho uma resposta que é mais aberta e uma que é mais coração. A minha resposta que é mais coração diz o seguinte: A gente precisa voltar a falar com as bases; com a nossa mãe, pai, irmã, nossos vizinhos e vizinhas. A tecnologia nos deu uma possibilidade incrível da gente poder montar a nossa narrativa, de contar de onde a gente enxerga o mundo, no mundo inteiro através da internet. Mas eu acho que de alguma maneira, a gente acabou indo contar isso pro mundo e, talvez, a gente esteja sentindo que a gente não precise contar isso para os nossos vizinhos e vizinhas. Eu sinto muita falta da gente produzir uma comunicação pra base. Por que a gente precisa voltar a formar a base para entender que tudo que tá posto aí, é uma série de violação de direitos. Alguns a gente coloca na rede virtual, e acaba não contando isso pra quem tá do nosso lado. A rede tem um pode que é incrível, mas às vezes a gente tem um desvio na rede que às vezes nãos sabem o que a gente tá fazendo. Essa é uma dimensão da resposta.

A outra dimensão é: a única maneira da gente conseguir fazer frente aos grande veículos de comunicação — grandes não, os tradicionais veículos, porque nós também somos grandes dentro do nosso território — é se a gente agir em rede. Não tem outra maneira da gente conseguir criar estratégias grandes de poder falar sobre as mesmas coisas sem agir em rede. Por isso que aqui em SP a gente organizou, são 10 coletivos de comunicação juntos, uma rede jornalística das periferias. Por que as nossas pautas são muito diferentes e a gente queria agir em rede, um ajudando o outro, informando o outro, para que o nosso conteúdo não ficasse parado somente na nossa rede. Para que ele andasse na cidade. Para mim, essa é uma outra dimensão da resposta. A gente precisa restaurar essa responsabilidade, para que a gente continue fazendo o nosso trabalho dentro das nossas narrativas, mas andando em bando. Por que é só em bando que a gente consegue fazer força, que a gente consegue fazer frente a alguns grupos que estão retomando os nossos direitos. Porque esses grupos já estão se organizando em grupos. A gente ainda tá muito fragmentado na nossa luta.