Fim do ano 2. O data_labe resiste.

Foi um ano intenso. Durante o primeiro semestre pensamos em desistir. A falta de financiamento para projetos que envolvem comunicação é um dilema que vem sendo enfrentado por jornalistas e comunicadores em geral. O desafio talvez esteja em encontrar [ou construir] um modelo mais dinâmico, híbrido, sustentável e que não deixe de operar a partir de uma perspectiva de base. Na favela, o desafio e esforço são ainda maiores. Eis que passamos seis meses sem qualquer apoio material, trabalhando em ideias menos estruturadas para tentar manter o projeto acontecendo. Da porta pra fora vieram convites para debates, viagens internacionais, participação em seminários, entrevistas para outros veículos, para estudantes universitários, curiosos, entusiastas. Havia a possibilidade real de manter o data vivo.

Produzimos um podcast. Nos divertimos no caos. Experimentamos na crise e vimos os efeitos surtirem, imediatos.Falar de dados, produzir conteúdos baseados em dados e, fundamentalmente, encontrar ferramentas e caminhos narrativos para contar histórias, para discutir direitos, política, economia.O desafio é fazer com que a produção de conteúdos a partir de dados se popularize e seja apropriada cada vez por mais pessoas, grupos e iniciativas de comunicação para a disputa política.

Em junho escrevemos um projeto para participar do Laboratório para Estruturas Flexíveis da Casa do Povo, em São Paulo. Arriscamos dizer que éramos um projeto autogerido, independente das grandes estruturas. Costuramos uma conversa séria no Observatório de Favelas e entendemos definitivamente que precisaríamos de autonomia, que da escassez faríamos um programa abundante. Estávamos livres. E fomos selecionados pelo programa da residência.

Viajamos para Berlim, à África do Sul. E negociamos um apoio da Fundação Ford para manutenção das estruturas mínimas até o fim do ano. Saímos dos aparelhos de respiração, nos sentimos vivos.

Em agosto fomos à São Paulo discutir modelos de negócio para o jornalismo. Estavam presentes mais de 30 iniciativas de comunicação que estão pensando em saídas para a crise estrutural pela qual passa o jornalismo nesse Brasil em tempos de golpe. Além dos convidados que apresentaram suas ideias bem sucedidas de jornalismo do ~futuro~ o evento contou com gente como nós, que ainda passam por esse processo de descoberta de alternativas de sobrevivência no campo da comunicação. Ninguém trouxe respostas. Nós passamos um dia intenso levantando questões, complexificando nossas práticas, organizando nossos saberes e desafios.

Escrevemos nossa primeira matéria investigativa. Fomos atrás de desvendar os acordos, custos e atores envolvidos nas obras de implementação de uma possível malha cicloviária aqui na Maré que nunca fora concluída. Como imaginávamos, a investigação mostrou uma política de mobilidade ineficiente, que vê a favela com os mesmos olhares negligentes das outras políticas de acesso e cidadania.

O troféu parceria do ano foi para a Escola de Jornalismo da Énois. Planejamos juntos uma imersão com os dez jovens residentes aqui no Rio de Janeiro durante quatro dias de setembro. Foi uma experiência transformadora que trouxe para o data_labe uma dimensão mais ampliada de atuação, assim como nos fez repensar métodos e ainda nosso lugar no mundo. A Fernanda, o Fábio e o Eloi contam um pouco da percepção de cada um aqui.

Com os jovens da Escola e em parceria com o Nexo Jornal, experimentamos mais um modo de fazer. Escrevemos uma matéria a várias mãos e cabeças para discutir usos e acessos à internet no Brasil a partir da perspectiva da periferia. Fomos a fundo na busca por dados que dessem conta do debate, na limpeza e análise de planilhas complexas, na articulação de pesquisas e metodologias públicas mais abertas. O resultado é uma reportagem complexa, completa, profunda.

Em outubro partimos para o mês mais intenso do ano. A residência na casa do povo serviu para abrirmos ainda mais nossas perspectivas de atuação. Tecemos redes, nos conectamos com uma série atores de diferentes campos e nos entregamos ao desconhecido para então catar pontos aparentemente desconexos e dar sentido à nossa estrutura flexível. Conhecemos um contador-ativista que nos disse: “o data_labe já opera no mundo como organização.” Era hora de estruturar a casa e partir para uma experiência mais amadurecida de associação, onde os agentes e as ações têm capilaridades, afetam não só as nossas atividades e produtos diários, mas as formas de pensar a cidade, as possibilidades de elaborar e monitorar políticas, as ferramentas para disputar a comunicação.

Para o ano de 2018 a ideia é experimentar uma estrutura mais confortável. Olhar para si e para o mundo com olhares mais estruturantes, traçar metas. Preparar o terreno para um espaço só nosso, trazer novxs colaboradorxs, formar novos atores, produzir conteúdos mais profundos, disputar bases de dados e políticas. Para que as eleições sejam um momento de debate, mais do que choro livre, para que a favela seja centro, mais do que margem, para que o jornalismo seja ferramenta de transformação, mais do que de manipulação.

A equipe do data_labe no último dia de trabalho de 2017. UFA.

Acompanhado desse relatório você encontra outros três textos que se complementam: o debate sobre Geração Cidadã de Dados, produzido pelo Fábio Silva; os caminhos da busca incessante por dados para a escrita da reportagem produzida em parceria com o Nexo Jornal, pela Fernanda Távora; e um relato sobre a experiência em São Paulo pelo Eloi Leones.