Sobre a influência dos dados na minha vida

É de comum conhecimento que as mídias são grandes influenciadoras da sociedade, além disso utilizam-se do poder dos dados para enfatizar suas afirmações, impor a nós suas verdades. Ditam padrões, rotulam, taxam e personificam da forma que bem entendem e lhe interessam.

os dados e sua capacidade de conformar realidades

Notem que tudo que começa com “Estudos comprovam…”, “Pesquisas apontam…” ganham mais credibilidade. O fato é que por trás dessas frases há dados, e nem sempre são manipulados com imparcialidade.

O que muitos não sabem é que também temos este poder, podemos questionar as informações, temos acesso aos dados! Porém, como a Vitória mencionou no seu primeiro texto aqui, lidamos com uma série de problemas, mas nada como a luta diária e a disseminação deste conhecimento e apropriação para questionar, complexificar e erradicá-los.

Bom, como o poder estigmatizador dos dados começaram a fazer parte da minha vida? Tudo começou pela minha cor: sou negra; Atingiu a localização da minha casa: sou do Complexo da Maré; Tentou me reprimir ao ser mulher em uma sociedade machista; Me estereotiparam por ser cristã, como se os cristãos fossem pessoas sem estudos, alienadas e sem razão; Por seguir carreira na tecnologia, dominada por homens.

As narrativas criadas a partir dos dados apontavam que eu estava predestinada a ser “mulher de bandido”, ser intelectualmente inferior, não completar os estudos e ser alienada. Cresci vendo os dados materializarem opressões ao meu redor, mas fiz de tudo para não me tornar uma corroboração. Como?

Sim! Assumi meus cabelos crespos. Notei que ruim mesmo era tudo que nos tentava oprimir, o cabelo que eu tanto queria era o que eu tinha, mas não sabia pois insistia em comprar os tipos de cabelos que me vendiam nas propagandas mas nunca consegui ter um igual. Hoje, ajudo a mulheres negras a valorizar sua beleza através do Youtube.

Sim! Concluí meus estudos, não graças à infraestrutura das escolas na qual frequentei, mas pela insistência dos educadores a ensinar a transpor essa realidade. Cursei o terceiro ano no Colégio Olga Benário Prestes, hoje uma escola modelo, ao mesmo tempo fiz o pré vestibular comunitário no Ceasm e um curso profissionalizante (aliás, se nada desse certo, eu teria por onde recomeçar). Deu certo! Me formei e ingressei na Universidade Federal do Rio de Janeiro (e também não foi graças ao currículo mínimo). Para tentar driblar a defasagem, minha jornada de estudante era tripla — de 6 da manhã à meia noite em prol do meu futuro ideal, e contra o predestinado.

Sim! Escolhi Ciência da Computação, confesso que tive a ilusão de que já havia provado a mim mesma que todos os dados manipulados não se encaixavam na realidade que eu estava. Mas era preciso difundir a todos. Posso afirmar que minha resistência foi provada, minha resiliência foi aprimorada.

Claro! Minha fé continua firmada em Deus, ele que me sustenta nessa guerra, me proporciona oportunidades ímpares de crescimento. E hoje, você está lendo este texto, graças a oportunidade dada a mim de participar da equipe do data_labe.

Agora, venho aprendendo empiricamente o poder dos dados e os usarei para tentar desconstruir os paradigmas ditos no texto do Fábio, aguçar a curiosidade assim como foi citado no texto do Eloi e enfrentar os problemas e principalmente incentivar mais indivíduos a serem protagonistas de suas histórias. A luta continua!