#LabicAR — um laboratório de Inovação cidadã na Argentina

Todos os colaboradores do Labicar!

Algumas semanas se passaram desde que fui a Rosário, na argentina participar do LabicAr. Como foi um processo muito intenso pra mim, decidi não contar minha experiência logo depois que cheguei no Brasil. Resolvi deixar maturar um pouco dos meus pensamentos e experiências que tive por lá. Então fica aqui algumas reflexões sobre estar em outro país pela primeira vez colaborando com de 100 pessoas de diferentes partes desse mundão :D.

O #LabicAr foi um laboratório de inovação cidadã que aconteceu em Rosário, na província de Santa Fé, na Argentina, que reuniu mais de 100 inovadores sociais de todos os países que fazem parte íbero-américa, isto é, países que falem português ou espanhol como língua predominante. O intuito dos Labic é criar espaços para sistematizar e acelerar inovações espontâneas que surgem dos cidadãos, que transformam comunidades e têm potencial de ser replicado em outras cidades.

Me inscrevi como documentarista colaborador em um projeto de realidade virtual criado para ajudar pessoas com síndrome de down e deficiências cognitivas a terem um melhor desenvolvimento cognitivo e de memória. Foram 15 dias dedicados ao desenvolvimento de uma versão de testes onde o meu papel como documentarista era acompanhar e fazer os registros visuais.

E foi aí que meus maiores desafios começaram, e o primeiro deles: a língua. Não se enganem, por mais que o espanhol seja relativamente parecido com o português, não é uma língua fácil de se entender, ainda mais quando na sua equipe tem quatro argentinos, três colombianos, um mexicano e você é o único brasileiro, que fez apenas duas aulas de espanhol na vida. São sotaques, gírias e modos de se pronunciar as palavras de formas sutis que trazem sua individualidade e um pouquinho de cada país.

Eu fiz esse vídeo aqui lá como resultado da minha documentação onde explico sobre o que é o projeto.

A minha dificuldade com a língua também pode ser expressada com outra palavra: comunicação, seja em espanhol ou seja com os outros brasileiros que estavam por lá. Não é que eu não saiba falar português também, eu só percebi um grande vácuo de conhecimento entre mim e os outros brasileiros, que dificultou um pouco da minha comunicação com eles também. Por mais que tenhamos trajetórias parecidas, eu era o único que não tinha passado pelo campo acadêmico, e isso acarretou em muitas angústias minhas e dificuldade de entendimento do que estava sendo conversado. Era um pouco vergonhoso não conseguir entender algumas conversas. Parecia que eu entendia um pouco, mas nunca a fundo o que estavam dizendo. Eu entendo que não devo me sentir mal por isso, mas como estava em um lugar que eu não entendia quase nada do que estava sendo dito, ouvir português deveria me deixar um pouco mais relaxado, mas às vezes era difícil.

Essa aqui é a foto dos Brasileiros em um dos dias mais legais. Saudade do povo (sim a única foto que temos juntos está desfocada).

Nesse período de quinze dias em outro país representando meu país Brasil, não foi difícil perceber o quanto todos gostam de brasileiros, a galera do labic conhecia bem mais do nosso país do que eu achava, um marco impressionante pra mim. Inclusive, em um dos dias o pessoal do meu grupo colocou em loop Mexe a Ravbiola do Mc Kevinho, foi um dia inteiro ouvindo a mesma música. Afinal, como não amar nosso brasilzão?

Percebendo esse amor todo que os gringos têm pelo Brasil, eu pude notar o quanto nós mesmos conhecemos pouco da nossa grande cultura, e tive noção do quanto é grande o nosso país. Pois nas rodas de conversas com os gringos, todo mundo já tinha viajado para algum outro lugar da américa latina, comentavam sobre os sotaques diferentes, regionalidades e costumes de cada um, tudo em países distintos, diferente da gente, que temos tudo isso em um único país.

Por falar em América Latina, talvez você nem tenha percebido, mas no parágrafo acima dá a entender, de uma forma muito sutil, que o Brasil não faz parte desse aglomerado de países americanos que falam línguas românicas, isto é, português, francês e espanhol. Eu não te culpo, só quero trazer uma pequena reflexão sobre a nossa participação nesse grupo de países.

Nós Brasileiros, somos completamente descolados dessa ideia de sermos latinos, a gente só não se reconhece muito bem com essa classificação como também pouco sabemos dos nossos vizinhos de continente. Isso devido em primeiro lugar, ao bombardeio cultural que recebemos massivamente dos EUA e da Europa. Que acarreta com que saibamos mais sobre o que as Kardashians acham sobre o Snapchat do que com a crise econômica que está acontecendo na Argentina, com greves gerais e revolta, que ironicamente é mais próximo do Rio de Janeiro e São Paulo do que o estado do Pará.

Uma foto do monumento à bandeira pra vocês terem noção do quanto lá é lindo.

Assim que os dias nas terras dos nossos hermanos de continente foram se passando, eu fui percebendo o quanto isso é grave. Pare para pensar, SEMPRE que pensamos em viajar para o exterior, primeiro vem na nossa cabeça ir para algum lugar dos EUA ou Europa, lugares onde são difíceis de entrar por conta de toda burocracia, visto, passaporte, autorizações, entrevistas. Para entrar em qualquer país da América do Sul a única coisa que precisamos é da nossa identidade. É mais fácil e barato ficar perambulando por todo o Mercosul do que atravessar os oceanos pra ir torrar nossa grana na terra dos nossos queridos colonizadores-saqueadores.

Estar em outro país trabalhando em projetos de cunho político me trouxe um espectro macro do campo político que até então eu nunca tinha pensado: articulação internacional. Se aqui do morro do Adeus no Complexo do Alemão eu aprendi sobre micropolítica e que juntos somos mais, por que não podemos pensar isso em uma escala macro, com países vizinhos? O conservadorismo se articula globalmente, por que nós não podemos fazer o mesmo?

Nós sabemos fazer, nós sabemos nos articular, nós sabemos furar bolhas. Talvez tendo em frente os tempos sombrios que estão chegando, essa possa ser uma saída de conforto, troca e mudança. E fica aqui também o convite para que todos os favelados se inscrevam em algum Labic, foi uma experiência que mudou meu modo de pensar política.

Quero aprender espanhol pra não rir dessas coisas.

Não só me fez repensar alguns aspectos políticos como me fez eu ter me arrependido de todos esse anos eu ter gastado meu tempo fazendo cursos de inglês ao invés de ter aprendido espanhol. São as marcas do bombardeio cultural que me leva a pensar que eu serei mais bem sucedido falando inglês do que espanhol. Me leva a pensar que a América do Sul não tem país estrangeiro, me leva a pensar que brasileiros não são latinos e que somos menos por não falarmos inglês ou não termos nascido em algum país europeu.

Tecnicamente falando, meu aprendizado não foi muito grande. Mas falando de conceitos, modos de fazer, de pensar e modos de comunicar meu aprendizado foi gigante. O que trago de especial comigo dessa experiência é a vontade de me conectar com a américa latina e de pouquinho em pouquinho levar essa experiência de colaboração para todas as partes do mundo.