Laboratórios para a transformação

O #LABICxLaPaz traz a Nariño inovadores de toda Iberoamérica para pensar projetos de transformação e paz na Colômbia em pós-conflito.

Acabamos de voltar de Pasto, uma cidade das mais lindas do mundo, localizada no departamento de Nariño na Colômbia. O pessoal de lá diz que que está no coração do mundo. Pode ser: o território fica entre a Cordilheira dos Andes, a Amazônia Colombiana e o Oceano Pacífico — um território sagrado, composto por uma maioria indígena e camponesa que hoje luta para manter as tradições num país que viveu 52 anos de guerra civil entre o governo colombiano e as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). O país passa por um momento marcante depois da assinatura de um acordo de paz entre as partes. Há acordo. Mas a paz há de ser construída de forma coletiva e democrática, onde os cidadãos estejam implicados nos processos.

Laguna La Cocha, pela lente de Cínthia Mendonça, mentora do laboratório.

É essa a intenção do LABICxLaPaz — um laboratório de Inovação Cidadã pela paz colombiana. O evento, que vai até 25 de fevereiro, reúne mais de 100 inovadores sociais — profissionais das mais diversas áreas do conhecimento, desde técnicas agrícolas até impressão 3D, para, junto da população local, prototipar projetos de impacto que possam ser implementadas em futuros próximos. Entre os espertos estão camponeses e descendentes diretos de povos tradicionais da região, todos dispostos a erguer pontes entre métodos de colaboração, técnicas e pessoas para a construção de uma Colômbia mais democrática e livre do medo.

O evento é organizado pela SEGIB — Secretaria Geral Iberoamericana em parceria com uma série de instituições. Destaque para o Instituto Procomum que convidou o data_labe e que vem protagonizando o debate sobre os bens comuns no Brasil, a partir da ideia de que é preciso ativar comunidades, protocolos e recursos na conformação de projetos democráticos e transformadores para as cidades. Destaque também para o Governo de Nariño que desde 2016 tem colocado no centro da governança a transparência e mais: a ativação comunitária a partir dos dados. A gente brilha o olho.

As equipes de trabalho. Foto: Fabiola Barranco

Minha participação foi pontual, mas animada. Falei sobre a importância de usarmos dados para narrar nossas próprias histórias, sobre nos reconhecer cidadãos quando participamos dos processos de decisão governamental que, afinal de contas, estão diretamente ligados à produção de dados. Minha fala aconteceu na noite seguinte à decisão de intervenção militar no Rio. Claro que eu estou diretamente afetado por isso e foi inevitável levantar a questão da paz, da presença ostensiva do estado e dos grupos armados nas favelas do Brasil, assim como o resultado desastroso de decisões como essa que só pioram o contexto de genocídio da população negra em que vivemos. Vieram comparações inevitáveis com uma Colômbia machucada pela guerra civil e pelo racismo institucional.

Foto: CISNA — Centro de Inovación Social de Nariño

Ainda participei de papos e debates sobre a sustentabilidade de projetos e ideias como o data_labe em contextos de governos conservadores. É importante construirmos instituições fortes e transparentes que sigam modelos mais contemporâneos de gestão e ação, para junto das nossas comunidades incidir sobre a sociedade e a democracia como um todo. A cuca ferve!

Volto cheio de ideias e convites. O próximo LABIC acontece em Santa Fe, na Argentina, e dessa vez vamos de bonde, se tudo der certo. Para acompanhar os resultados dos projetos empreendidos aqui, o melhor canal é o do CISNA — Centro de Inovação Social de Nariño.