Mas o que é geração cidadã de dados?

Na última gravação do nosso podcast, sobre dados e periferia, conversamos sobre a invisibilidade de grupos periféricos, a ineficiência da abordagem dos dados sobre esses grupos e como a sociedade civil encontra maneiras de alimentar o debate e complementar bases de dados públicas como alternativa a escassez de informação — é o caso do Defezap, Fogo Cruzado e Cocozap. Para esse movimento, demos o nome de ‘geração cidadã de dados’, termo originalmente traduzido do inglês ‘citizen generated data’.

A geração cidadã de dados é um dos pilares do data_labe

O termo levantou alguns questionamentos sobre a eficiência do seu uso, resultando em alguns debates calorosos sobre o que seria gerar dados de maneira cidadã. Estamos falando do uso político e ativista dos dados ou de gerar dados de maneira autônoma e individual, numa base comum, como consequência de um objetivo privado e mercadológico?

Dados são um conjunto de informações sistematizadas e estruturadas que respondem a um determinado interesse ou objetivo. Mesmo de maneira inconsciente, estamos gerando dados o tempo todo pelos nossos celulares. Uma pesquisa no Google sobre um par de tênis que desejo comprar, pode ser um dado valiosíssimo para uma loja de calçados. Sendo assim, uma informação só é considerada um dado a partir de um contexto útil para quem analisa.

Se uma pesquisa no google é um dado, acessar um site, publicar uma foto no instagram, tweetar e redigir textões no facebook, também. Estamos falando de uma gama praticamente infinita de dados que são gerados, conscientemente ou não, por todos nós o tempo todo — dados geolocalizados e bastante personalizados, diga-se de passagem.

Se estamos gerando dados de maneira individual e autônoma a partir do simples acesso nas nossas redes sociais, seria isso a geração cidadã de dados? No meu entendimento, não. Pois, o uso privado da rede, sem consciência real da geração de dados, do propósito em gerá-los e sem acesso ao banco de dados, inviabiliza a definição de geração cidadã.

Partimos então para os aplicativos de construção colaborativa, que se empregam em rede. Temos como exemplo o Waze, uma aplicação para smartphones de navegação por satélite e que contém informações de usuários e detalhes sobre rotas. Com a missão de “beneficiar de um ‘bem comum’ nas ruas”, o app te conecta com outros motoristas, criando uma comunidade local. Os usuários, ao dirigirem com o aplicativo ligado, passam a contribuir passivamente com informações por onde trafegam. Ativamente, eles contribuem compartilhando alertas sobre acidentes, perigos, polícia e outros eventos ao longo do percurso.

Aqui, os usuários estão conscientes que estão gerando dados e possuem um objetivo bem claro e comum a todos: chegar mais rápido em casa. O uso coletivo de informações privadas sobre trajeto ajudam a construir uma base de dados. Entretanto, na prática, continuamos sem acesso público aos dados.

A geração coletiva dos dados é suficiente para considerarmos também cidadã? O que isso implica sobre a responsabilidade, igualmente coletiva, do levantamento de dados para evitar o alastramento de informações falsas ou falseadas?

Na minha concepção, o Waze não é considerado um aplicativo de geração cidadã de dados, justamente pela falta de proposição política no app que implica o termo “cidadão”.

Em relação ao ativismo através dos dados, temos alguns exemplos que defendo como geração cidadã: o Fogo Cruzado, aplicativo que mapeia os tiroteios no Estado do RJ, o Defezap, plataforma que sistematiza denúncias anônimas de violência policial, e o Cocozap, projeto em construção do data_labe com a Casa Fluminense, que identifica os pontos de ausência de saneamento básico na Maré. Todos coletados de maneira colaborativa e consciente.

Sendo assim, considero 4 pilares que são essenciais para afirmamos a geração cidadã de dados: coletiva; aberta; a partir da perspectiva de participação política; e consciente. Portanto, defino a geração cidadão como toda coleta de dados feita de maneira coletiva, que tenha uma função ativista e objetiva, em formato aberto e público, em que os usuários estejam conscientes do propósito dos dados.

Dados são uma das principais fontes para formulação de políticas públicas e, em linhas gerais, são a melhor maneira de traduzir para o poder público a nossa realidade local. Diversos dados oficiais não abordam a periferia de maneira satisfatória, o que gera efeitos reais na construção de políticas, perpetuando desigualdades. Gerar dados de maneira cidadã é uma forma de complementar essa base de dados, monitorar o governo e cobrar por investimentos mais efetivos e condizentes aos nossos problemas.

Seguimos no debate e esperamos colocar o Cocozap nas ruas da Maré em 2018. Acompanhem!