Muito além de biscoitoXbolacha

Relato sobre o intercâmbio imersivo realizado entre a turma da Escola de Jornalismo da Énois e a equipe do data_labe do dia 21 ao 25 de setembro no Rio de Janeiro.

Ultimo dia da ÉNois no Rio

Tudo começou com a chegada da Amanda lá no Território Inventivo, com o objetivo de conhecer o data_labe. “Alguém de São Paulo tá interessado na gente”, eu fiquei pensando. E quando entrou aquele ser de 220v trazendo um punhado de vivências e muitas ideias, o match foi certeiro. Dalí eu vi que iria sair algo muito bacana. Em uma conversa que não deve ter demorado uma hora, saiu a vontade de fazer um intercâmbio RJxSP entre o data_labe e a Énois, uma escola de jornalismo de SP, uma matéria com dados que reflita a vida de nós, seres periféricos e a idéia mostrar um outro Rio de Janeiro para essa galera.

Durante esse período de expectativas sobre a chegada da galera eu fiquei muito pensativo sobre a questão das periferias daqui e as de SP. Eu achava que eu não tinha muito o que acrescentar nessa narrativa, afinal, todos nós somos de periferia, então, para mim as vivências seriam as mesmas. Como que eu posso mostrar um outro Rio de Janeiro pra essa galera da comunicação que já está acostumada a quebrar estereótipos?

Numa quinta à tarde, 13 pessoas aportam no meu país Rio de Janeiro, com uma energia de grupo que eu nunca tinha visto. E o nosso desafio sendo lançado bem na hora: vamos mostrar nossa cidade para essa galera. Depois de uma tarde com uma aulão sobre jornalismo de dados, fomos desbravar a cidade e mostrar pra esse povo como o Rio de Janeiro é para além do que é representado.

Primeiro dia ❤

Na primeira noite da galera, fomos em um samba na Praça Tiradentes, e foi quando vi as primeiras comparações entre aqui e lá. “Aqui parece a Roosevelt”, “aquele outro lugar parece a Rua Augusta” eram coisas frequentes. O interessante disso foi ver os lugares equivalentes, onde as arquiteturas, o perfil de pessoas que frequentam determinados lugares e as dinâmicas dos rolês eram parecidas. Disso vieram muitos outros comentários dos quais nós cariocas estamos acostumados a ouvir, “a cidade de vocês é muito bonita”, “os prédios são muito antigos”, elogios ao samba, “onde é a praia? A gente está perto da praia?”

Dentro desses cinco dias da imersão alguns pontos me chamaram mais atenção na galera. Uma delas foi como todxs ficaram impressionados na caminhada pela Maré. Foi impactante pra mim ouvir deles que em SP o tráfico não anda armado pelas ruas. Isso serviu pra desconstruir essa minha ideia de que as periferias daqui são iguais as de lá. Foi interessante também saber que lá o conceito de periferia é literal, que foi uma observação muito frequente do Jeff, dizendo que por lá os eventos e encontros acontecem na grande maioria das vezes no centro, que é totalmente oposto daqui. Apesar do Rio de Janeiro ser uma cidade que depende muito do centro, tudo muito mais misturado, onde todo mundo se encontra e os territórios se confundem.

Galera da ÉNois na Praça Tiradentes

Uma grande observação deles também foi que o terceiro setor aqui é muito mais articulado do que por lá, o que vai contra minhas ideias iniciais, já que aqui é muito frequente o trabalho das ongs em territórios de periferias, e para mim era assim em todos os lugares.

No segundo dia ter ido no Ato contra a Cura Gay aqui no Rio junto com a Steph e o Edu foi ótimo para termos a vivência de locomoção daqui. Segundo eles é bem pior, porque nós pagamos muito caro e recebemos pouco, além de não ter integração nenhuma e o metrô ser muito pequeno em comparação com São Paulo.

Ainda nessa investigação sobre as periferias do Rio de Janeiro, foi uma experiência positiva ir com eles lá na Casa Brota, no Complexo do Alemão, lugar de onde venho, pois com isso foi possível mostrar que embora as favelas daqui sejam muito parecidas em determinados aspectos (como na arquitetura e disposição das casas e na questão do tráfico),elas são muito diferentes em outros. O Alemão, para eles, pareceu muito mais organizado e mais calmo, talvez pelas diferenças demográficas. Foi perceptível ver como as falas da Thamyra (da Casa brota) e o do Davi (do Raízes em Movimento) contribuíram para entender o debate favelaXcidade também como uma oportunidade para nós, sujeitos periféricos.

ÉNois e data_labe no Complexo do Alemão

Foi muito engraçado ouvir a galera dizer que na mente deles o Rio de Janeiro era um lugar onde a sensação era de pânico generalizado, e que o clima do medo imperava por aqui. Além do velho clichê de que o carioca adora a praia e que estamos todos os dias nela. Esse tipo de pensamento impede que as pessoas descubram uma cidade para além do que a televisão mostra.

Para mim, ter ficado hospedado com eles, como uma família de cinco dias, foi muito interessante pois entendi as suas dinâmicas, os assuntos, e percebi também como essa questão de se relacionar com o outro é diferente do Rio. Senti uma energia muito boa e no meio disso ver e sentir amores surgindo é muito bonito.

O último dia da galera por aqui foi um dos mais proveitosos, a pauta surgiu organicamente, foi se desenvolvendo e indo para lugares muito legais. Acredito que essa energia toda da mistura de duas cidades efervescentes vai trazer algo muito potente e impactante de diversas formas até pra nós aqui do data_labe, que somos apaixonadxs por conhecimento, trocas de vivências e pessoas.

Aqui você sabe mais ou menos o que a gente tá armando juntxs.