Na Maré, outro DJ esculachado pela polícia

Gabriele Roza
Dec 4, 2019 · 7 min read

Conheça a história do DJ Renan Valle, produtor cultural do Parque União que teve seu estúdio na favela quebrado pela polícia e impedido de fazer baile por acusação de associação com o tráfico.

DJ Renan Valle teve o estúdio invadido na última operação na Maré. Foto: Jeferson Delgado.

Produtor cultural da Maré, DJ Renan Valle, teve o estúdio musical invadido na última segunda-feira (2 de dezembro) durante a operação realizada pelo Comando de Operações Especiais (COE) da polícia militar no Complexo da Maré. Segundo o produtor, policiais militares invadiram seu estúdio, quebraram a televisão, um microfone e levaram um HD externo. Mas não é a primeira vez que o DJ sofre repressão por produzir funk no Rio de Janeiro.

Na entrevista ao data_labe, o DJ e estudante de produção fonográfica relata alguns episódios de perseguição e racismo que sofreu ao longo da carreira no funk. Renan já foi impedido de tocar em baile funk e até mudou de nome artístico, de Renan da NH (referência a favela Nova Holanda) para Renan Valle, para diminuir os ataques da polícia. ‘‘O que o baile está fazendo mal a eles? Por que essa perseguição? Porque a gente é negro, favelado e mora na favela?’’, questiona Renan.

Qual é a sua história com o funk?

Eu vi meu irmão tocando quando eu era pequeno, em 2008, e eu vi a reação do pessoal. Foi a primeira vez que ele tinha me levado no baile e eu falei: “pô mano, muito massa”. Dá aquele friozinho na barriga no começo. Eu fiquei apaixonado pelo som, a batida envolvente, né? Eu nem sabia dançar direito, mas eu tava lá mexendo o ombrinho e tal. Aí eu comecei, fugia para ir ao baile e peguei o gosto. Tinha uma gradinha lá em casa e a gente cerrava pra dar o pinote na minha mãe e todo final de semana a gente ia. Foi aí que me apaixonei pelo gênero. Eu comecei a sair com meu irmão para os eventos que ele tocava, mas só em 2011 que eu comecei a levar para o lado profissional mesmo. Em 2012, foi quando eu comecei a produzir e tô aí. Já estourei algumas músicas dentro da comunidade e meu irmão ainda toca comigo.

O que aconteceu no seu estúdio na segunda-feira (2/12/2019)?

Eu não estava no estúdio, estava tendo operação e eu estava tocando no pagode. ‘Pô, vou logo pra casa’ e vim logo pra casa. Quando eu cheguei em casa lembrei ‘caraca, meu estúdio, eles vão lá e vão acabar quebrando tudo, cheguei lá de noite, tinha quebrado nossa televisão, nosso microfone. Graças a Deus não levaram minha controladora porque é o único material de trabalho que eu tenho, mas lavaram meu HD externo, com projetos de música fotos, pra que eu não sei. Tá sendo complicado, vou ter que começar tudo do zero, meus beats que tinha lá, vou ver se consigo alguns beats com meus amigos pra poder voltar os trabalhos, a gente não pode parar, né.

Você já sofreu repressão antes, no começo você assinava como DJ Renan da NH depois passou a assinar DJ Renan Valle. Por que você mudou seu nome?

Eu fazia uns eventos em Queimados e teve um que era perto do meu aniversário, dia 27 de novembro. Do nada o cara chegou e ligaram pra minha mãe para ela comparecer na delegacia. Não entendi nada. Tinha feito um banner para divulgar o evento. No dia seguinte, ligaram pra gente falando pra comparecer na delegacia, minha mãe e minha irmã chorando, “o que você fez?” e eu falei “não fiz nada”. O policial até ameaçou ela, falou: “Se você não comparecer aqui e ele não aparecer, você que vai ser presa por ele”. Aí que ela ficou mais desesperada ainda. Aí chegou na delegacia, ficou perguntando um monte de coisa sem nexo nenhum. Ficava falando, perguntando quem era quem. Não sei do que ele tava falando. Isso só porque a gente tava fazendo um baile para a comunidade e o tráfico nem chegava a se envolver nos nossos eventos porque a gente paga o baile com o dinheiro dos barraqueiros. Cada barraca que tinha no baile, tinha umas 20 barracas, davam R$ 100 pra gente na semana e isso a gente pagava nosso cachê.

E aí, eles [os policiais] alegaram que era o tráfico que tava investindo nisso, entendeu? E nisso ele me falou que não era para ter o baile porque iam comparecer lá e prender a gente. Tá bom, não teve baile. Eu fiquei sabendo por um morador da área lá, falou que eles tinham cercado o morro, mais de 16 carros de polícia só por causa de um baile. O que o baile tá fazendo mal a eles? Por que essa perseguição? Porque a gente é negro, favelado, mora na favela? Por que não criticam outro gênero e só o funk? Aí, eles me cercando, falando um monte de coisa, querendo me prender e chegaram a tirar foto minha. A minha mãe ficou chorando pra caramba lá, pedindo pra me soltar. Fiquei umas 4 horas lá na delegacia. Foi aí que eles me soltaram. Ele falou: “Pelo amor de Deus, solta ele porque eu não tô aguentando que a mãe dele tá gritando lá fora lá, tá gritando com todo mundo falando que o filho dela não é bandido”. Aí eles falaram assim: “Tu tá pensando que a gente não vê teu Facebook não? Que a gente não vê tuas coisas não? Que a gente tá te monitorando não?”. Então tive que me policiar muito no que eu postava, música que eu produzia, clipe que eu fazia. Por isso, tive que tirar o nome da comunidade, tá ligado? Que era NH da Nova Holanda. Por causa disso, da perseguição.

Cria da Maré, Renan precisou mudar de nome artísticos para evitar perseguições. Foto: Jeferson Delgado

Pode ver, por exemplo, o caso do Rennan da Penha. Só porque ele apertou a mão de um cara ele é bandido? E as fotos que eles alegam que eram de armas que passou na TV, aquilo eram réplicas. Era tipo, Carnaval, no baile do triângulo [Complexo do Alemão], eu tava junto com ele. A gente pegou, fez um monte de fuzil de madeira pra levar pro baile pra brincar, pra zuar. Coisa de adolescente. Ali a gente tinha 18 anos, eu e Rennan. São pessoas que cresceram com a gente, estudaram com a gente na infância. Eles levam uma vida errada, mas e aí? É uma opção que o cara escolheu, mas cada um na sua. É eu passar na rua e não vou falar com o cara? A pessoa deve se sentir mal porque você é visto na comunidade. Referência, né? Pô, Rennan da Penha, viu tudo e sabia do cara? Só porque o cara apertou a mão? Po, quero falar com ele, o cara é maneiro. Quero tirar uma foto com o cara. É fã pô e aí?

Uma das justificativas da mídia e da própria polícia para a criminalização do funk é relacionar o funk com o tráfico. Como você pensa essa relação?

Todo lugar você vai encontrar alguém mau. Porque eles não vão na rave que tem playboy pra caramba tomando balinha e o caramba? Ninguém vai na rave dar tapa na cara porque sabe que é filho de desembargador. Sabe que é filho de político. Aqui não, a gente mora na favela e eles vêm e fazem o que querem. Eu acho muito errado.

Você tem que tomar alguns cuidados com medo do que aconteceu com o DJ Rennan da Penha aconteça com você?

Toda hora tem que tomar cuidado. A maldade tá aí, né? Foi como um policial civil disse pra mim: “Você acha que a gente não vê suas redes sociais? Você acha que a gente não tá te monitorando?’’ Tipo, sem autorização nenhuma. Sem nada. Só produzo mano. Só faço música, faculdade. É o que eu faço para ganhar meu dinheirinho. Tem que ter muito cuidado com o que a gente posta. Igual o lance do Rennan. Foi num dia de operação, certamente deu ruim pra ele, falaram que ele era olheiro do tráfico. Como é que o Rennan ganhando R$ 30 mil de cachê e vai ser olheiro do tráfico? Olheiro do tráfico deve tá ganhando o que? R$ 150? Isso não é nada pro Rennan, cara. Não tem como. Só porque ele postou na rede social dele, isso é pra alertar os próprios moradores da comunidade. Tem muito disso, todo mundo que é negro, mas é da periferia, da favela, quando a pessoa tá ganhando 30 mil tá incomodando muita gente, como você tá ganhando 30 mil, como assim.

Hoje a gente já chega num patamar que não tem como parar, não tem como barrar a música, você não tá vendo, você tá escutando, não tem como você parar o som, não tem barreira, a música vai tocar em tudo que é canto por mais que eles tentem parar com isso o funk ou qualquer outro tipo de som vai continuar tocando porque tudo que é proibido é mais gostoso.

DJ sonha com o dia que vai poder trabalhar e estudar sem a interferência do racismo. Foto: Jeferson Delgado

Como é para você estar na faculdade de produção fonográfica sendo um DJ do funk?

Eu vejo que o Funk ele sofre algum tipo de preconceito. Essa perseguição eu sinto a mesma coisa que eu passo todos os dias quando eu vou na Barra estudar e o segurança olha pra nossa cara. Então eu quero lutar e ensinar as pessoas mais sobre produção musical para isso acabar. Na faculdade só tem eu do funk, é meio difícil. Eu fiz até um trabalho sobre a história do funk e quase ninguém quis participar do meu trabalho. Falam que o funk não é gênero, olhando fiquei com vontade de dar uma resposta, mas eu fiquei na minha. Tem um pouco de preconceito, mas o que adianta, as pessoas são muito hipócritas, elas falam o que falam, ‘não gosto de funk’, mas quando toca numa balada sempre dança, então eu acho que essa perseguição é idiotice.

*Por data_labe

data_labe

Um laboratório permanente de dados na favela.

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