Os dados e o mea culpa

Antes de entrar para o mundo das tentativas de traduzir a realidade através dos números impressos em relatórios; antes dos gráficos de pizza, de linha, de colunas e de tabelas; antes da análise, da limpeza e da raspagem dos dados; antes das hipóteses, das perguntas, das estratificações, dos recortes, da definição do objeto, do tema e da linha de pesquisa — antes de tudo isso, todo morador da periferia já passou por alguma situação que o levou a refletir sobre o local onde mora e acreditar (e introjetar) que as péssimas condições de seu território são, direta ou indiretamente, culpa dele.

Cristo de São Bento, Duque de Caxias. Foto: Igor Freitas Lima / Baixada 3.2 MP

Como morador da Baixada Fluminense e estudante da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), era bastante comum ouvir o termo “fim do mundo” quando se referiam ao meu território, além de expressões de surpresa ou pena por eu “conseguir vir de tão longe para estudar”.

Obviamente, na época nenhum de nós sabia muito bem o que isso significava. Eu mesmo acabava repetindo os rótulos empregados à minha região. Não por maldade, mas por simples desinformação. A percepção da periferia como um local da ausência ou da distância — tão longe que nos falta empatia por ela -, não é de hoje. Existe uma variedade de estudos históricos e sociais que embasam essa percepção e, de certa forma, alimentam o senso comum do que é ser periférico.

A minha experiência no Data Labe surge como uma tentativa de contra argumentar, a partir dos dados de fontes públicas, essa percepção negativa do meu território. Todavia, os números não são favoráveis — o que, confesso, não me surpreende. O estigma da precariedade pode ser fundamentada na história e nos dados. Entretanto, vale ressaltar, dados são, também, instrumentos de narrativa e de autoridade de discurso. O que proponho discutir aqui são as inferências e percepções que podem e são extraídas desses dados pouco motivadores sobre a Baixada Fluminense.

‘Nunca Fui Mas Me Disseram’ — Documentário aborda a visão que moradores da Zona Sul do Rio de Janeiro têm a respeito da Baixada Fluminense. Filme: Cineclube Mate Com Angu (youtube)

A forma como percebemos o território infere na maneira como nos relacionamos e interagimos com ele. Durante muito tempo eu acreditei que a ideia de “sucesso” estava diretamente atrelada a de “sair da Baixada Fluminense” e que a responsabilidade de morar em um lugar que encabeça a lista de uma série de desigualdades e mazelas fosse indiretamente minha, por não conseguir alcançar esse ideal.

Como se fosse minha culpa continuar a me submeter a uma realidade em que mais de 35% dos moradores da Baixada Fluminense demoram entre uma e duas horas para se deslocarem entre sua casa e trabalho, segundo a PNAD 2014. Em contrapartida, de acordo com o estudo Sebrae 2013, com base nos dados do Ministério do Trabalho e Emprego, cerca de 88 % dos empregos formais do Estado do Rio de Janeiro estão focalizados no centro metropolitano. O que estamos discutindo é um projeto de cidade.

O meu território é percebido pela “ausência” a partir da carência de políticas públicas eficazes; e pela “distância” devido às precariedades dos serviços públicos de transportes e pela má distribuição de oportunidades (como escolas e empregos) em relação ao arco central. As desproporções são embasadas e fazem parte da maneira como a cidade é pensada — além de serem superexpostas e super representadas cotidianamente na grandes mídias e nas redes de maneira sensacionalista.

O problema está quando, por exemplo, nos deparamos com números elevados de homicídios, segundo o Instituto de Segurança Pública-RJ, em que 28% do total de mortes ocorridas no Estado do Rio de Janeiro no ano de 2015 ocorreram na Baixada Fluminense, e admitimos como um fato aceitável e razoável, naturalizando a afirmação dos dados por ser uma região historicamente violenta e violentada. O problema está na conclusão equivocada da normalidade (do que não deveria ser normal) e na falsa percepção de que “não há nada que possamos fazer” — além da “fuga” daquele lugar. Mais do que isso, a omissão e não-eficiência do Estado em responder a esses números, baseado na percepção — que é histórica, não natural — da periferia como um local não desenvolvido.

Dados não falam por si só e a leitura deles podem — e são — direcionadas. Esse tipo de artimanha abre margem para narrativas, por exemplo, que justificam uma abordagem policial mais incisiva e truculenta nas periferias como acertada e necessária, enquanto torna “inaceitável” um tiroteio em Copacabana — sendo que nenhum dos casos deveriam ser encarados com normalidade. Ou, então, precedentes para o poder público “culpar” a natureza e baixa estação das chuvas pela falta d’água na cidade, ao invés de assumir uma má administração de recursos pelo Estado.

Nessa concepção, os discursos passam a analisar a consequência, sem necessariamente observar a causa, ganhando força e ar de autoridade a partir do uso dos dados. O Estado se exime da culpa e da responsabilidade sobre o que os valores fornecidos por esses dados significam em termos de efetividade de políticas públicas, permitindo a continuidade de uma abordagem política grotesca em relação a realidade social da periferia.

Portanto, quando utilizo de dados de fontes públicas como foco da minha narrativa, eu não o faço apenas por uma comparação para elencar os privilégios e desproporções da metrópole em relação a periferia. Eu exponho e denuncio um modelo de cidade que considera direitos básicos, como saneamento e acesso a água tratada potável, por exemplo, como um privilégio. A questão é política, não é — e nunca foi — espacial.

Estamos cansados de levar a “culpa”por morar na periferia.