Sobre Coda.br, humildade e networking no bar

Pelo terceiro ano consecutivo, a Escola de Dados realiza a conferência anual de jornalismo de dados e métodos digitais, o Coda.br. Pelo terceiro ano também, o data_ esteve lá. Aconteceu na Vila Mariana, em São Paulo, nos dias 10 e 11 de novembro e fomos eu, jornalista, e Giulia Santos, designer, como bolsistas para representar o data_. Também tivemos a companhia das eternas residentes do data_labe: Amanda Flor e Thaynara Santos, ambas estudantes incríveis de jornalismo.

Eu, Giulia, Amanda e Thaynara beeem felizinhas

Foram dois dias intensos, com muita anotação, ideias pipocando na cabeça e tentativas infinitas de escolher prioridades. Estar no Coda.Br foi um super desafio. Daqueles gostosos, claro. De cara, ser recebida por um time de mulheres negras na recepção foi um abraço. A sensação de estar num evento grande e super organizado fez com que eu me sentisse no lugar certo, sabe?

O primeiro painel foi inspirador, apesar de me sentir muito distante socialmente dos palestrantes. Isso demonstra que as dicas ditas ali foram formuladas com o cuidado de falar pra todas e todos. Conseguiram. O papo foi sobre como transformar informação em conhecimento usando jornalismo, ciência e design. Alberto Cairo, presidente do Knight em Jornalismo Visual da Escola de Comunicação da Universidade de Miami, — ou seja, um monstro no jornalismo de dados do mundo — falou sobre experimentar: “O que você não puder fazer no seu trabalho, faça por conta própria. Você vai trabalhar mais, mas é onde será mais produtivo e recompensador.” Anotei no papel e virou uma meta de ano novo.

Primeiro painel com Fernanda Viégas, Alberto Cairo e Daniel Waisberg | foto da Escola de Dados

O dia seguiu com a intensidade característica do Coda.br. Assisti a 5 aulas de mais de 1h cada, aprendi muitas ferramentas e anotei várias dicas. Mas o que realmente me marcou nesse primeiro dia de Coda.br foi ver o meu amor pelo jornalismo, minha graduação, ser resgatado. E acho que você deve entender o quão isso é poderoso e inspirador.

Mas…sabe aquele abraço que senti ao ver todas as recepcionistas sendo mulheres negras e lindíssimas com seus blacks logo na entrada? O abraço ficou meio frouxo e frio quando percebi que, de 38 palestrantes e keynotes, só 4 eram negras e negros. Além disso, vi poucos das minhas e dos meus ali do meu lado, aprendendo como alunas e alunos.

A sensação é de preguiça e exaustão: quando isso vai mudar? Quando a gente vai ver uma organização realmente preocupada em procurar em cada canto desse Brasil alguém negro pra compor espaços de poder? Numa sociedade racista, onde o racismo é estrutural e estruturante, o esforço tem que ser enorme mesmo e é isso.

É preciso dizer que percebi o esforço, mas percebi também que foi insuficiente.

o gif diz: só tô mandando o papo! | gif da Issa Rae disponível no Giphy

Apesar disso — e talvez exatamente por isso, já que eu, infelizmente, estou acostumada a ver poucos dos meus — toquei o dia aprendendo muito e cobrindo o evento com muitos memes e bom humor. Certeza que o coffee break maravilhoso e o encontro com pessoas com vontade de compartilhar conhecimento com um sorriso no rosto ajudou.

O segundo dia foi menos intenso; tava todo mundo cansado do dia anterior e com uma ressaquinha da cerveja pós-Coda que rolou no sábado à noite. A gente merecia e, pra mim, foi o momento mais produtivo em relação a contatos profissionais. Falei muito sobre o data_ entre um gole e outro e já temos uma reunião marcada rs.

tradução: não quero pensar, quero beber | gif de uma preta linda disponível no Giphy

Minha energia no domingo tava mais observadora e consegui perceber algumas coisas que não havia conseguido antes. Fiquei encantada com a paixão, o humor e a humildade que dominaram absolutamente todos os painéis e aulas que assisti.

Essa energia foi a que mais me contagiou. Ao final do evento, percebi como a humildade foi uma postura inerente ao Coda.br. Vi muitos palestrantes em aula na posição de alunos, ouvi também muitos “não sei te responder” seguido de um “vamos pesquisar juntos?” e senti que tá tudo bem não entender, se sentir perdida e desanimar às vezes. Conheci carreiras inspiradoras e possíveis. Arrisco dizer que nunca aprendi tanto em tão pouco tempo como jornalista, pesquisadora e pessoa.

tá meio borrado mas a gente é lindo, pode acreditar | gif da Escola de Dados

data_labe

Um laboratório permanente de dados na favela.

Hannah de Vasconcellos

Written by

Jornalista, mestra em Políticas Públicas em Direitos Humanos (UFRJ) e doutoranda em Antropologia Social (Museu Nacional/UFRJ). Escrevo o que transborda.

data_labe

data_labe

Um laboratório permanente de dados na favela.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade