Sobre encontros Rio x São Paulo

Relato sobre o intercâmbio imersivo realizado entre a turma da Escola de Jornalismo da Énois e a equipe do data_labe do dia 21 ao 25 de setembro no Rio de Janeiro.

Eu, Fernanda, sou uma pessoa muito mais de ouvir do que falar. Então, uma das minhas expectativas em relação a chegada da Énois aqui no Rio de Janeiro era de ouvir as impressões deles e poder trocar um ou dois pitacos sobre os nossos lugares nas duas maiores cidades do Brasil. O negócio é que foi tudo muito maior do que eu esperava. Foram cinco dias de intercâmbio que serviram para ter novas perspectivas e desnaturalizar a visão que eu tinha da minha cidade e do meu lugar nela. Além disso tudo, o encontro com essa galera deu uma força pra seguir adiante com o que nós do data_labe temos pensado sobre o nosso trabalho.

Já no primeiro dia as comparações entre as duas cidades começaram. No nosso primeiro passeio pela praça Tiradentes os comentários sobre como o local se parecia com tal parte de São Paulo me chamaram a atenção. Eu confesso que também faço isso, até pra gerar uma identificação com o lugar, criar uma familiaridade pra mim. Daí em diante as comparações partiram pras nossas diferenças, mas de forma divertida: o sotaque, as gírias, os jeitos de lidar com os outros (por exemplo, aprendi que carioca é mesmo meio folgado). Ainda assim, mesmo com as diferenças tão evidentes, fomos percebendo durante as nossas conversas o quanto o lugar de onde nós viemos, as periferias e favelas das cidades, nos tornavam semelhantes em várias coisas: a batalha do dia a dia, os questionamento sobre o nosso lugar, físico e social, na cidade, são os mesmo.

Em várias conversas que tivemos eu me reconheci nas falas de alguns dos nossos visitantes. O transporte difícil; a vida de trabalho e estudo que tira a gente do nosso território a maior parte do dia. O afastamento, porque essa vivência tira um pouco do reconhecimento que você cria como sujeito do seu território e, em algum momento, o retorno, que é quando você passa a reconhecer que o fato de você ser morador de periferia - seja em qual estado, cidade for - molda a nossa visão de mundo.

Sem contar como o cenário visual das periferias também se repete. Nos nossos passeios no Complexo da Maré e no Complexo do Alemão eu ouvi o quanto esses locais se pareciam com as quebradas de São Paulo: Heliópolis, Paraisópolis, entre outros. Até mesmo eu, no sábado ensolarado em que visitamos o Alemão, reconheci um pouco de Realengo nas calçadas cheias de gente, no churrasco e no pagode do final de semana.

Outra coisa que me marcou nesses cinco dias foi desnaturalização do olhar que a visão do pessoal da Énois trouxe. No nosso passeio pela Maré, quando os meninos ficaram chocados com os fuzis expostos a luz do dia e as bancadas de venda de drogas nas ruas das favelas. Algo teoricamente comum nas favelas daqui, já não era pra eles e isso trouxe perguntas: porque pra gente é normal? Quais as diferenças da segurança pública entre São Paulo e Rio de Janeiro?

Data_labe e É Nóis em visita a Casa Brota no Complexo do Alemão

Enfim, foram cinco dias de imersão intensa com essa galera e o que mais posso agradecer é essa troca e as pessoas que conheci, os relatos que ouvi e as conversas que tive. Pensamos numa pauta onde vamos trabalhar juntos para falar do acesso à internet nas periferias do Rio e de São Paulo. Mal posso esperar pra essa troca acontecer e para encontrar e ouvir mais uma vez o pessoal da Énois.