Uma análise: Narrativas, dados e objeto de estudo

Uma pergunta. Uma pergunta é tudo o que precisamos para começar:

Quem são as mulheres-mães que morrem, no estado do Rio de Janeiro durante a gestação, parto e pós-parto?

Essa é uma pergunta dura de ser feita, com respostas certamente dolorosas. Principalmente porque, além da grande quantidade de óbitos maternos que podemos encontrar, descobrir quem morre é sempre angustiante. Ainda mais nesse caso, em que a maioria das vezes me causa identificação. Talvez por eu ser, mulher, mãe, negra, periférica com tudo para ser (quem sabe) mais um número.

Há alguns anos me deparei com estatísticas relativas à violência contra a mulher e o feminicídio. Esses números obviamente chocaram, porque eu sabia que em algum lugar uma mulher como eu morre a cada uma hora e cinquenta minutos e que em 10 anos a morte de mulheres negras cresceu 54% como indica essa notícia do Estadão.

Quando me formei Doula, há dois anos, pude começar a perceber outros dados relacionados à figura feminina, como violência obstétrica e morte materna. Geralmente, esses dados são resultado de ações desnecessárias por parte dos serviços de saúde. Porém, apesar de encontrarmos muitos dados acerca de óbitos maternos, poucos deles trabalham essas mulheres enquanto indivíduos com suas próprias histórias.

Confesso que a pergunta que parte de mim muito tem das narrativas que acompanho, da minha própria história, dos meus atravessamentos. É como procurar as respostas já sabendo os resultados prováveis. Claro que a ciência delimita isso muito bem nos fornecendo métodos para que, mesmo com uma abordagem do tema engajada, o resultado da análise dos dados seja mais próximo da realidade.

Lembro-me do primeiro semestre da faculdade quando um professor disse: “A ciência social é a ciência mais difícil, pois não há como prever resultados. Não há exatidão.” Realmente, não há como prever resultados exatos, não existe matemática perfeita pra quem procura compreender a sociedade, mas com uma pergunta certeira provavelmente se chegue a respostas possíveis ou a novas perguntas, o que pode ser muito útil para a pesquisa.

Foto: Paulo Barros

Meu objetivo de estudo no DataLabe tem sido trabalhar com dados que digam sobre morte materna no estado do Rio de Janeiro a partir do banco de dados do Sistema Único de Saúde (SUS). Encontrar esses dados, trabalhar com eles e partir para sua análise não tem sido tarefa fácil. Porém, tornar esses dados acessíveis e de fácil leitura é uma das prioridades do meu trabalho, assim como explicitar para mais pessoas quem são essas mulheres.

Passei boa parte dos últimos meses “limpando os dados”, tornando-os legíveis para as pessoas. Trabalhar com dados também significa entender que os pequenos detalhes importam e que números representam múltiplas informações. Creio ter sido a tarefa mais longa executada por mim. Uma tarefa mecânica que pede atenção, mas de fundamental importância para responder minhas perguntas.

Ao manusear esses dados pude “pré-visualizar” algumas respostas, mesmo que superficiais, ao meu questionamento. Mulheres negras, jovens e solteiras morrem mais durante a gestação, parto e pós-parto no Rio de Janeiro. Especificamente, 67,1% das mulheres que morreram entre 2009–2013 são negras, por exemplo. Entretanto, apesar desses números serem retrato de um quadro muito mais alarmante de saúde pública, ele também nos ajuda a pensar novas questões que podem nos trazer rumos mais propositivos sobre nossos destinos.

Dados não falam por si, como o Fábio Silva bem citou em seu último texto. Necessitam de leitura, interpretação. A proposta desse trabalho é trazer uma análise de dados alternativa àquelas feitas a partir do senso comum. Estou falando de identificação - toda narrativa parte de uma perspectiva de vida e toda pergunta surge de algum lugar. Histórias são importantes e o que as tornam importantes é que elas não sejam uníssonas, que sejam contadas por múltiplas pessoas em suas múltiplas realidades. Esse trabalho quer contar quem são essas mulheres porque isso é contar um pouco das histórias daquelas que são cotidianamente negligenciadas por nossa sociedade.

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