O poder do ativismo de sofá

Faz um tempinho que o Brasil retomou à prática a capacidade de se expressar e manifestar politicamente. Vivemos um período de conflito ideológico e discussão intensa entre pessoas, desde a mesa do bar até debates televisionados.

Parece que nunca gostamos tanto de falar de política. É tanto assunto, tanta gente em busca de um espaço para emitir opinião, que às vezes é preciso filtrar. “Ai, como o Paulo é radical.”, “Tive que bloquear a tia Lurdes. Ela comenta em tudo.”.

E assim nos categorizamos. Petralhas, coxinhas, isentões, intelectuais, bolsomitos, feminazis. Se você já se pronunciou sobre algo publicamente, você já ganhou seu rótulo. O meu rótulo favorito é o de ativista de sofá.

Presente da era digital, o ativista de sofá é aquele cara que não foi visto em uma manifestação, mas ainda assim emite uma opinião nas redes sociais, pelo wifi de casa. Ele não comeu pão com mortadela, não tem selfie com a camisa da seleção, mas é cheio de questionamentos. Bom, não demorou para essa categoria ser amplamente desqualificada.

Acontece que eu não sei por quê.

Hoje é possível trabalhar pela internet, sem sair de casa. É possível pagar contas pela internet, sem sair de casa. É possível até transar pela internet, sem sair de casa. Por que então alguém precisaria ir longe para se manifestar politicamente?

Vivemos em uma época vasta em informação. Celular, computador, televisão. Não faltam instrumentos para checarmos fontes e nos aprofundarmos em assuntos gastando pouquíssimas calorias.

Eu não tenho vergonha de ser um ativista de sofá. Hoje faço parte da Operação Serenata de Amor, um projeto de tecnologia que desenvolve um sistema para fiscalizar o gasto dos parlamentares. Estamos trabalhando em um robô capaz de combater a corrupção.

Analisamos notas emitidas, cruzamos dados de restaurantes, de companhias aéreas e até da Receita para detectar desvios. E embora não venha fazendo isso exatamente de um sofá, eu também não precisei gastar um centavo do meu vale transporte para ir atrás de informação. É possível investigar, questionar e incomodar – e muito, sem tirar sequer o pijama.

Temos a mesma relevância do barulho nas passeatas. Até porque um e-mail – ou uma carta vazada – já é capaz de fazer estrago. E é isso que buscamos. Gerar consciência e transparência para ninguém precisar ir muito longe para ter voz política.

Mas entendo se você prefere a emoção da rua. Só proponho uma democratização do debate. Não vamos brigar. Escute os ativistas de sofá. Até porque estamos gerando informações para os seus gritos, para os seus cartazes.

Nós estamos do mesmo lado. Aliás, se quiser, tem espaço aqui.

O sofá é grande.