O que aprendi na visita da Operação Serenata de Amor a Santa Catarina

“Não vamos dizer que não gostamos de política. Vamos dizer que odiamos a maldita política partidária do Brasil. A política é fundamental para a sociedade.” — essas foram as primeiras palavras do Rodrigo De Bona, auditor da CGU-SC, após me escutar por 15 minutos em um auditório da UDESC (Universidade do Estado de Santa Catarina).

Em geral, abro minhas palestras falando que odeio política. Meu objetivo com isso é mostrar que há como atuar em política mesmo estando de fora do circuito tradicional de engajamento político. Eu não faço parte de uma união, sindicato ou qualquer partido político. Eu não gosto do jogo.

Mesmo com isso tudo, o Rodrigo tem razão. O que fazemos também é política — e mais do que isso: é controle social, que é política na prática. E esse é apenas um dos ensinamentos que tivemos na viagem da Operação Serenata de Amor até Santa Catarina na última semana de agosto de 2017.

Eu, Jessica Temporal e Rodrigo De Bona no 9º Seminário Catarinense de Transparência e Controle Social (Florianópolis/SC)

Eu e Jessica Temporal fomos convidados a participar de dois eventos em terras catarinenses: o 9º Seminário Catarinense de Transparência e Controle Social, em Florianópolis, e o II Workshop Tecnologia para Transparência, em Balneário Camboriú. Participamos de debates, workshops e palestras. E não faltaram aprendizados para o nosso time.

O primeiro deles: nós fazemos parte de um grande movimento de apoio à transparência. Isso ficou claro no seminário. Ainda na plateia, eu e Temporal vimos o quanto movimentos de monitoramento social têm crescido no país. E, com a tecnologia, eles devem crescer ainda mais. Ou seja, prepare-se para ver outras Serenatas.

Outro aprendizado foi em cima de uma das nossas maiores dores: a conversão das suspeitas da Rosie em dinheiro devolvido para os cofres públicos. Desde novembro sofremos com isso. Por mais que o Twitter da nossa robô tenha ajudado a obter respostas para as nossas suspeitas, ainda não conseguimos um bom aproveitamento pelos meios oficiais.

De acordo com a própria Câmara dos Deputados, não existe nada no regimento interno que obrigue os deputados a devolverem o dinheiro reembolsado indevidamente pela Cota para Exercício da Atividade Parlamentar. Não é bem assim.

Conforme vimos no II Workshop Tecnologia para Transparência, as leis responsabilizam, sim, tanto Câmara quanto parlamentares sobre o destino dessa verba. De acordo com isso, as respostas evasivas que recebemos no início do ano não são adequadas. Muito porque, segundo o Rodrigo, nossos pedidos também não foram precisos.

O que isso significa?

Que estamos bem ansiosos para o nosso Segundo Mutirão de Denúncias, que acontece agora em setembro, celebrando um ano de projeto. Na primeira edição, nossa tecnologia possibilitou que fizéssemos 629 denúncias em uma única semana. Agora, nossos novos conhecimentos de legislação e ciência política prometem possibilitar um impacto ainda maior.

Essa, porém, não foi a única contribuição da CGU-SC com o projeto. A ideia, a partir daqui, é que eles nos ajudem a construir classificadores para a Rosie, com base nos conhecimentos de auditoria que nós não temos.

Onde essa parceria entre tecnologia, conhecimentos técnicos de auditoria e ciência política chegará? A gente ainda não sabe. Mas pensando que muito do que fazemos é transformar a lei em código, a combinação tem tudo para potencializar o trabalho dos dois lados.

Afinal de contas, é ingenuidade pensar que só uma tecnologia seria capaz de mudar a estrutura política do país. Mas é mais ingenuidade ainda pensar que uma tecnologia não seria capaz de iniciar essa mudança.

E ela já começou.

É, parece que estamos fazendo política.

Oh, não. Tarde demais.