Marília Nunes Paulino
Apr 1 · 4 min read

O escândalo Facebook x Cambridge Analytica gerou uma onda de indignação e desconfiança digital e trouxe o assunto privacidade de volta ao radar. Por isso, esta foi uma das principais questões do SXSW este ano.

Apenas pelo fato de estarmos vivos — querendo ou não — geramos dados, que são coletados, refinados, tornados ‘produtos’ e monetizados. Já não podemos mais ter qualquer expectativa de total privacidade, como antigamente.

O CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, testemunhou em uma audiência no Congresso Americano, respondendo a perguntas sobre o escândalo Cambridge Analytica. Foto: Jim Watson/AFP/Getty Images

A privacidade morreu

“… você não deve ter a ilusão de que é um cidadão privado em lugar nenhum. Mas a reviravolta é que isso não é necessariamente uma coisa ruim.” Amy Webb

Esta foi a primeira descoberta-chave anunciada por Amy Webb, futurista da NYU (Universidade de Nova Iorque) em uma palestra disputadíssima. Ao longo de sua fala, ela enumerou as tendências nessa área: reconhecimento de voz, facial, emocional, genético, reconhecimento persistente, roupas inteligentes, fones de ouvido com sensores biométricos, governança de dados e imitações da GDPR (General Data Protection Regulation) pelo mundo. O Brasil já se inspirou nesta lei europeia para criar a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados), que entrará em vigor em 2020.

Isto posto, as empresas que usam nossos dados e deles dependem para tocar seus negócios têm novos desafios pela frente:

  • Como armazenar e protegê-los?
  • Quem é o responsável?
  • Devem ser interoperáveis?
  • Se a empresa for vendida, podem ser vendidos para um terceiro?

Isso leva a nós, pessoas humanas, geradoras destes dados, a perguntas ainda mais profundas e existenciais:

  • A quem pertencem nossos dados pessoais, biométricos ou nosso DNA?
  • Temos o direito de manter nossos dados pessoais, emoções, estados mentais e detalhes da nossa biometria privados de reconhecimento persistente?
  • Quais os indicadores de que podemos confiar que as empresas estão usando nossos dados com a devida segurança e de forma ética?
  • Ao permitir a comercialização de nossos dados, devemos ser igualmente remunerados pelo que nos pertence?

O que privacidade realmente significa?

Entre outras sessões do SXSW 2019 que discutiram a regulação e problematizaram o monopólio das Big-Techs, destaca-se a de Suzanne Barber (Center for Identity at The University of Texas) e David Measer (RPA). Eles desconstruíram o conceito de privacidade, sob as perspectivas antropológica e psicológica e analisaram como nós definimos os limites da nossa privacidade, quanto dela estamos dispostos a desistir em busca de progresso e inovação e como nossa expectativa de privacidade pode evoluir para se encaixar no mundo digital.

Hierarquia das necessidades de Maslow.

Como privacidade e necessidades humanas se relacionam?
Olhando para a pirâmide de Maslow (acima) podemos dizer que estamos dispostos a manter certo grau de privacidade em nome da nossa segurança, ou que ela é importante no amor e intimidade, por exemplo.

Mas o que privacidade realmente significa no universo das tecnologias digitais? O que significa privacidade quando o digital sai das telas e entra no mundo real?

Responsabilidade

Embora pareçamos nos importar profundamente com nossa privacidade, continuamos usando mídias sociais, sites e dispositivos que não necessariamente estão colocando nossa privacidade em primeiro lugar. A questão é: temos outras opções? Gostaríamos de fazer outros tipos de acordos com os serviços/tecnologias que usamos? Que controle temos sobre isso hoje?

Na era digital, nossos dados são moeda valiosa e modelos de negócios, como o do Facebook, foram replicados rapidamente pelo mundo como uma doença contagiosa e por debaixo dos panos. Como bem descreveu Roger McNamee, também no evento, tudo no mundo digital hoje é sobre negócios que reivindicam o domínio sobre nossos dados pessoais, usando-os para delinear e prever comportamentos. E, em seguida, usando as ferramentas de inteligência artificial de aprendizado de máquina, para orientar as pessoas em direção a resultados, no sentido de tornar estas previsões ainda mais valiosas.

É legítimo que as empresas demandem a posse de nossos dados pessoais e comercializem nossas transações financeiras, os dados de saúde que colocamos em aplicativos tentando melhorar nossas vidas? É legítimo que tenhamos tudo o que fazemos na web rastreado por qualquer pessoa?

Talvez, isso realmente não seja necessariamente um problema. O problema é o que fazem ‘por fora’, para invadir nossos espaços privados sem nosso conhecimento e vender esses dados para quem der o lance mais alto.

Keynote: Roger McNamee with Nicholas Thompson | SXSW 2019

Design de futuros desejáveis

"O futuro não existe, mas um número ilimitado de futuros possíveis pode ser criado." (BELL et al., 2013, apud LEVINE, 2016)

Em meio a este cenário, nós da Data is Mine queremos observar os sinais para entender para que mundo eles nos apontam; abordar estas questões em diferentes níveis, sob diferentes óticas; confrontar as incertezas para, então, propor e conectar novas soluções, apoiando e desenvolvendo estratégias melhores para esse futuro inevitavelmente orientado por e baseado em dados.

Os passos e os caminhos são muitos, a começar por reconhecer as empresas e serviços que respeitam e tratam nossa expectativa por privacidade, transparência e controle como valor.


Edição: Elisabete Santana — Jornalista, Ethical Sourcing Directrix

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