Traço, território: como se desenha o contorno de um país

Rodolfo Almeida
Oct 2, 2020 · 5 min read
Versão animada do trabalho

Em junho desse ano recebi um convite da Laura Belik, arquiteta e urbanista e doutoranda em história e teoria da arquitetura na U.C. Berkeley. Ela toca o projeto Desestrutura, um site e publicação dedicado a “fomentar discussões sobre o que é o viver urbano hoje, em suas mais variadas escalas e perspectivas”. O convite era para participar de uma chamada aberta com o tema “Mapear Mapas”. O texto da chamada — bastante aberto — trazia o seguinte:

Mapas traçam rotas, criam caminhos, guiam jornadas. Mapas escondem segredos, distorcem verdades, inventam espaços. Mapas são referências de lugares. Mapas são lugares e não lugares. Mapas delimitam e são delimitados. Têm fronteiras e bordas, pontos e linhas visíveis e invisíveis.

São dados, são técnica, camadas, informação, arte. Em um momento de pandemia e reclusão, e o lento retorno às atividades cotidianas fora do confinamento, nossas relações e sentimentos em relação ao espaço se aguçam. O lá fora, o aqui dentro. O outro, o eu, o compartilhado e o individual. O longe, o perto, o vizinho, e o inalcançável.

As escalas tomam novas proporções e aos poucos vamos tentando mapear seus significados. Mapas são criados para nos nortear, enquanto nós mesmxs norteamos seu mapear. Ora buscamos caminhos certeiros, ora nos vemos à deriva.

O material precisava caber em uma folha A4 e usar apenas três cores. Ao final, a chamada reuniu outros 23 artistas, como Ana Matsusaki, Andres Sandoval e João Sodré com trabalhos diversos em fotografia, ilustração, cartografia, poesia, e mais.

Colagem com imagens de trabalhos de diferentes autores participantes da chamada
Alguns dos ótimos trabalhos produzidos para a chamada

Com o tema da chamada em mente, busquei alguns caminhos para explorar. Passo bastante tempo (menos do que gostaria) explorando a David Rumsey Historical Map Collection, um acervo online de mapas que contém cerca de 100 mil itens organizados, catalogados e disponibilizados para download em altíssima resolução.

Uma das formas interessantes de explorar o acervo é filtrar por uma localização, ordenar cronologicamente, e observar como o consenso sobre como aquela área deveria ser mapeada se alterou com o tempo. Adições de territórios, alterações de nomenclatura, mudanças de convenções cartográficas — tudo isso pinta um retrato bastante rico de tudo que o ato de trazer um mapa evoca.

Captura de tela da interface de navegação do acervo David Rumsey
O acervo da David Rumsey Map Collection

Navegando pelo acervo, atentei a um dos aspectos que se altera ao longo do tempo: os limites do território. Da costa fragmentada desenhada nas primeiras cartas, quando da colonização, ao polígono fechado e reconhecível que orienta espacialmente nossa noção de “Nação”, quantas formas não se desenharam?

Imaginei que seria interessante, então, tentar construir um histórico desses traçados, visualizar de forma animada esse desenho se formando. Sendo uma única linha, seria simples de animar esse movimento usando Adobe After Effects (como esse tutorial aqui te ensina).

Aproveitei a oportunidade para me dar mais liberdades metodológicas do que o trabalho em jornalismo de dados usualmente permite, explorando um pouco mais de intuição e subjetividade. Gostaria de dizer que desenvolvi o projeto de forma bastante inteligente e eficiente, com critérios claros de seleção, automatizando a obtenção dos mapas, ou a animação em si, ou até mesmo a identificação do traçado, mas não é o caso.

Naveguei por alguns dias por todo o acervo de mapas listados como “Brasil”, selecionando aqueles que contivessem um traçado claro dos limites do Brasil (ou do território que seria entendido como tal) e tivessem alterações interessantes no traçado em relação ao mapa anterior.

Me concentrei exclusivamente no plano da imagem: desconsiderando diferenças de projeção e escala entre os mapas e incluindo até os limites da carta no traço desenhado. O acervo traz também muitos mapas repetidos em reimpressões e reedições, então foi necessária alguma atenção para remover repetições.

Esse não é um trabalho rigoroso ou até mesmo orientado por dados. Uma análise científica da evolução do território brasileiro obviamente traria diversas outras complexidades: seria necessário identificar as diferenças de projeção e escala, sobrepor corretamente as cartas, buscar informações sobre os objetivos e métodos de desenho, etc.

Uma vez analisado o acervo, coletei 87 mapas diferentes — o mais antigo, de 1587, e o mais novo de 1967. Como esse mapa mais recente omitia parte da região Norte, abri uma exceção e dei outro salto no tempo, acrescentando ao conjunto o mapa político do Brasil de 2016, do IBGE para obter um ponto final completo para a animação.

Colagem contendo três mapas usados na animação, do mais antigo ao mais recente

Dispus todos em um documento de Adobe Illustrator e desenhei livremente o traçado em uma mesa digitalizadora, formando um vetor que poderia ser animado mais tarde. Esses traçados foram dispostos em um cartaz, enviado para a publicação impressa da chamada.

Uma vez desenhados, os traçados foram levados ao After Effects, onde pude experimentar com o ritmo da animação. Queria que a ação toda fosse rápida — a ideia era menos contemplar o traçado em cada mapa um a um, mas sim transmitir a sensação de uma linha rapidamente se moldando em um polígono. Assim, dei cerca de 10 frames para cada mapa, resultando em um ritmo frenético e vivo.

Como uma experimentação descompromissada, esse projeto foi um respiro muito bem-vindo que permitiu explorar a ideia de limites: os limites do acervo de mapas sobre o território, limites das convenções cartográficas e os limites do significado desse traçado. Deixo o convite para que outros designers e pesquisadores expandam também sobre os limites desse trabalho.

datavizbr

Compartilhando experiências sobre visualização de dados…

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