A Duvidosa Vaidade dos Múltiplos Tratamentos

Não sei se é verdade, mas me disseram que o Guillermo Arriaga, que escreveu ótimos filmes, como Amores Brutos e 21 Gramas, costuma se gabar de escrever trinta ou mais tratamentos de cada um dos seus roteiros. Já vi outros roteiristas, diretores e produtores igualmente se vangloriando das incontáveis versões pelas quais passaram seus roteiros antes de chegarem a ser filmados.

Pois bem, colegas, vocês me desculpem mas não me parece que ninguém deva se gabar desses números.

Para quem não sabe do que estou falando, chama-se “tratamento” cada versão nova de um roteiro. O normal, em cinema e televisão, é que se escreva uma primeira versão do roteiro, se leia e se discuta esse material, e então se trabalhe numa segunda versão, ou segundo tratamento, e assim sucessivamente, até que o roteiro seja considerado bom o bastante para ser filmado.

Mas o que efetivamente caracteriza um novo tratamento de um roteiro? Não é qualquer revisão, em que você apara umas arestas aqui ou ali, que se pode considerar um novo tratamento. Uma mera afinação de diálogos ou às vezes algumas trocas de personagens, mudanças pontuais e não estruturais, nada disso deveria contar como nova versão, e sim como simples revisão.

Então, temos uma questão. Quando nosso bom colega Guillermo conta seus trinta tratamentos (se é que a história que me contaram sobre ele é fato) ele está contando simples revisões como tratamentos ou ele de fato repensou estruturalmente o roteiro inteiro trinta vezes?

Quando eu vejo os colegas declarando publicamente dúzias de tratamentos de seus roteiros, não tenho como não pensar em outras comparações de tamanho, às quais alguns homens são dados. É uma coisa bem masculina, sem dúvida, isso de se gabar de tamanho, ainda mais usando medidas assim hiperbólicas (trinta versões!).

Se o roteirista está contando cada rasurada no roteiro como novo tratamento, dificilmente pode-se levar o número avantajado de versões a sério.

Acho bem mais grave, no entanto, se ele de fato transforma significativamente o roteiro vinte, trinta vezes. Sabe por que? Porque se você muda significativamente um roteiro tantas vezes tudo leva a crer que você não fazia ideia do que estava fazendo, lá no inicio. E se você é o diretor ou produtor pedindo essas versões todas, o problema é o mesmo: você não sabe o filme que quer fazer.

Antes do primeiro tratamento, antes de escrever “fade in” pela primeira vez, na página um do seu roteiro, você tem que saber que filme é esse, onde quer chegar. Muita conversa entre roteirista, diretor, produtor é necessária. Muito entendimento aberto, muito diálogo. Documentos intermediários, como sinopses, escaletas, argumentos. Tudo precisa ser feito para que o primeiro tratamento, por mais que possa melhorar, já seja o filme.

E se você está escrevendo sozinho, sem diretor ou produtor, um projeto totalmente seu, mais ainda é necessário esse “diálogo”, essa descoberta. Sozinho, você irá também pensar e repensar, discutir na sua cabeça, produzir documentos, que são a sua forma de pensar “em volta alta”. Um diário do processo de trabalho, por exemplo, pode ser um grande aliado nesse momento.

Eu não acredito que ninguém que fez um processo orgânico de criação precise de trinta tratamentos “de verdade”, e duvido muito mais ainda que um filme que venha a ser feito desse roteiro tantas vezes remendado seja melhor que os outros.

Ao menos nesse caso, não é nada certo que um número maior leve à maior satisfação.

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