Liberal de ônibus
Conversa (f)útil
Nada de muito incomum: a faculdade está em semana de provas por esse tempo, e isso implica que eu vá para casa mais cedo do que o esperado. Ia conversando com uma colega de classe que não tinha muitos empecilhos na hora de contar histórias e falar da própria vida. “Não sou muito boa para decorar matéria, artigos, essas coisas”, ela disse, porém, contrariando a si mesma internamente, enquanto nós pegávamos o primeiro ônibus.
Quando nós entramos no tal primeiro ônibus da jornada, ele estava lotado, porém acredito que isto tenha despertado a vontade de conversar sobre coisas que geralmente pessoas sãs não conversam: a colega disse que, no dia anterior, dois assassinatos tinham ocorrido. Ela, quase que debochando da criminalidade da cidade de interior, disse que “essa é Marília”, como que debochando também de sua língua presa.
Segundo a mesma, o primeiro assassinato teria ocorrido por um motivo de paixão, ou melhor, ciúmes, já que paixão não gera algo assim. Garoto novo que acredita que a mulher também nova o traiu. Coisa de gente nova, eu pensei (e aposto que ela, a colega, também pensou).
O segundo homicídio? Este foi perto de casa. Uma motocicleta rondava a casa de um moço, até que o tal foi procurar satisfações com o dono da tal moto que rondava sua casa. Acabou levando seis tiros. Foi encontrado no dia seguinte.
Conversas de ônibus não conseguem ser mais estranhas, eu pensei. E desta vez não presumi o pensamento da minha colega. Porém, num ônibus é isto, este fingimento de importância que nós damos às coisas (porque, afinal, precisamos aceitar que nós não vamos a lugar algum senão pela escolha de um motorista aparentemente aleatório e, assim, lidar com nossa mediocridade em face à nossa locomoção), ou ver o nada e o coletivo (a mesma coisa enfim).
Quando ela se aproximava ao seu ponto, ela perguntou se eu sabia onde parar, já que esta seria a primeira vez que pegava tal ônibus. Afirmei que sim, mesmo sabendo que não. Como disse antes, era isto ou aceitar minha própria mediocridade.
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