Filho amado

Giovanni Alecrim
Jan 10 · 8 min read

Lições do Batismo de Jesus para nós

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Quando penso na maneira como Deus age na história, eu fico realmente impressionado. Vejam, por exemplo, a história da construção do templo da Igreja de Tucuruvi. Se você perguntar aos membros da igreja, saberá que começou com um projeto, certo dia, cerca de uns quinze, vinte anos atrás. No entanto, se você parar e olhar para a história da comunidade, verá que essa construção começou, na verdade, no dia em que as primeiras famílias que se estabeleceram no bairro afastado do Tucuruvi começaram a cultuar e encontraram, depois de um tempo, o terreno na esquina da Rua Dragões da Independência com a Rua do Campo, hoje Rua Canhemborá.

A maneira como Deus move a história e se manifesta nela é o que narram os Evangelhos para nós. Quando deixamos de olhar os Evangelhos como algo mágico ou milagroso e passamos a olhar como a intervenção de Deus na história, narrada pelas primeiras comunidades cristãs, compreendemos que Jesus é o Filho amado de Deus e ele é a Boa-nova de grande alegria. Vamos entender melhor isso lendo o Evangelho de Marcos 1.9–11

Uma das características do Evangelho de Marcos é a maneira concisa e direta com que ele narra os acontecimentos. Percebemos claramente que Mateus e Lucas são explicativos, enquanto Marcos tem certa celeridade em narrar os fatos. Por isso, não encontramos em Marcos os preâmbulos que temos em Mateus e Lucas. Ele é mais direto, começando assim seu Evangelho: “Este é o princípio das boas-novas a respeito de Jesus Cristo, o Filho de Deus”. A partir daí, já entra na história de João Batista e passa para o nosso texto, do Batismo de Jesus.

Não é à-toa que a Igreja reservou, desde o início de sua história, um domingo para lembrar do Batismo do Senhor. E ele está justamente ao término da celebração do ciclo natalino e abertura do primeiro período do tempo comum. O motivo? Como veremos, o Batismo do Senhor não foi para arrependimento nem para marcar a entrada na Igreja, mas sim o início de seu ministério.

Para começarmos a compreender melhor esse episódio, precisamos pontuar que há uma profunda influência do Primeiro Testamento no Evangelho de Marcos. Nosso texto inicia com a sentença “Certo Dia”. Não é um dia qualquer, é um dia importante, que aconteceu algo memorável e, por isso, merece a atenção do leitor. Marcos vai contar algo extraordinário, por isso, preste atenção!

Ele inicia essa história falando de Jesus. Mas que Jesus? Haviam muitos Jesus no século I, na região da Palestina. Era um nome “da moda”. Era o Jesus de Nazaré. Você e eu entendemos bem isso, mas os primeiros leitores do texto de Marcos mal sabiam existir uma Nazaré, por isso, precisava dizer: da Galileia. Esse Jesus veio da Galileia para as margens do Jordão e ele se encontrou ali com uma pessoa que Marcos já vinha falando dela: João, o batizador, o batista. Marcos não perde tempo com detalhes nem com meias-palavras: João o batizou no rio Jordão.

Aqui vamos dar uma longa pausa na descrição da nossa história para falarmos sobre este controverso sacramento que é o Batismo. Sim, é controverso. Primeiro que nós, cristãos, recebemos a ordem de Jesus para batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. O próprio Jesus não praticava o batismo. Já os discípulos, há apenas um registro, João 4.1, dizendo que eles batizavam. Daí temos o Batismo de João, que não era exclusivo dele, pois a prática de batizar como ritual de purificação eram comuns. Havia tal prática, por exemplo, entre a comunidade de Qumrã. A diferença do Batismo de João é que era administrado apenas uma vez. A ação sobre o arrependido é eficaz. Esta mesma característica, de ser único, pertence também aos cristãos. Você é batizado uma única vez.

Mas, quais as diferenças entre o Batismo de João e o Batismo Cristão? Vamos a elas: Primeiro, o Batismo Cristão é um rito de iniciação no Corpo de Cristo, o de João não gera necessariamente vínculo comunitário. Segundo, o Batismo Cristão é praticado em nome da Trindade, o de João não. Terceiro, o Batismo Cristão concede a remissão dos pecados, o de João é um ato purificador. Quarto e último, o Batismo Cristão é o sinal visível da presença invisível do Espírito Santo sobre a vida dos cristãos. Percebam que a diferença entre os dois batismos se configura muito na diferença que temos do entendimento do que é salvação, portanto, o sacramento do Batismo nas Igrejas Católicas, Luteranas, Anglicanas e Reformadas em comparação às demais igrejas chamadas evangélicas. É uma questão que está além do batizar ou não crianças, mas sim de todo o entendimento que se tem do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo e seu legado para nós.

Feita essa longa pausa, fica a pergunta: e o Batismo de Jesus, em qual dos dois se encaixa? Em nenhum dos dois. Por que Jesus precisou ser batizado? Até aqui falamos apenas do que diz respeito a última sentença do verso nove, agora vamos adiante para responder essa pergunta, pois é sobre isso que falam os versos 10 e 11.

Após ser batizado Jesus começa a sair do rio. Não vou entrar aqui na perda de tempo de discutir se foi por imersão ou não. Sinceramente, precisamos superar essas picuinhas sistemáticas, nós, Presbiterianos, temos nossa razão de batizar por aspersão e os imersionistas as razões deles. Sigamos. O que acontece enquanto Jesus ainda está na água, saindo dela? O céu se abriu. Aqui a Nova Versão Transformadora optou por usar o singular e, teologicamente, até entendo a escolha. No original, “céu” está no plural, e isso é mais uma das influências do Primeiro Testamento sobre o Evangelho de Marcos. É uma ação divina, por isso o termo faz referência a uma expressão já conhecida dos leitores do Evangelho.

O que acontece quando os céus se abrem? É Deus se manifestando. Nesse caso, o Espírito de Deus, aqui expresso pela Nova Versão Transformadora como Espírito Santo, mais uma vez, uma escolha teológica da tradução. O Espírito de Deus vem em direção a Jesus e, para quem olhasse a cena toda, via algo parecido com uma pomba. É difícil para nós, no século XXI, entendermos a mente de uma pessoa do passado e como ela interpretava aquilo que via. O Evangelista optou pela forma de pomba e acabou criando um dos símbolos pelos quais representamos o Espírito Santo.

Os céus estão abertos, o Espírito de Deus se fez presente e, agora, ouvimos a voz do próprio Deus. Quando Deus fala, a vida se faz. Nesse caso, a fala de Deus não é criadora no sentido de trazer novidade sobre o cosmo, mas é reveladora, no sentido de apontar para aquele que estava saindo da água como sendo seu Filho amado. Vamos fazer mais uma pausa aqui? Quando você está assistindo a um jogo de futebol, um clássico, tipo Come Ferro, sabe? Conhecem o Come Ferro? Um dos maiores clássicos do futebol brasileiro. Comercial de Ribeirão Preto contra Ferroviária de Araraquara. Cês não tem noção do que é um jogo desse. Pois é, você está lá, na Arena da Fonte, assistindo ao jogo e tem um jogador que se destaca, ele é acima da média, brilhante, espetacular, ele é DIVINO! É aqui que eu queria chegar. Divino! Sabia que os gregos já usavam “filho dos deuses”, “divino” como adjetivo de algo extraordinário? Pois é, tal prática não era incomum na Palestina no século I. Pessoas que praticavam algo extraordinário só podiam ser filhos dos deuses! Contudo, no Evangelho de Marcos há uma diferença: não são as pessoas que estão dizendo que Jesus é divino, é o próprio Deus que está afirmando: meu filho amado, você me dá grande alegria. Aqui, grande alegria tem a ver com completude, satisfação, algo que é completo por isso satisfaz.

Respondendo, então, de maneira resumida à pergunta “Por que Jesus precisou ser batizado?” Jesus precisou ser batizado para que todos ao seu redor compreendesse que ele é o Filho amado de Deus, que João Batista encerrava ali seu ministério e que “aquele que não sou digno de me abaixar e desamarrar as correias de suas sandálias” estava ali sendo manifesto diante daquele que clamava no deserto e dos demais presentes ao evento.

Conclusão

O que podemos aprender para nós, no século XXI, num mundo pandêmico, sobre esse episódio do Batismo de Jesus? Separei três lições para nós:

  • Somos iguais, ainda que diferentes. Jesus é homem e Deus. Marcos deixa isso bem claro na abertura de seu Evangelho. O Filho de Deus, Jesus Cristo, veio e viveu como um de nós, para nos mostrar como podemos alegrar a Deus. Quando você precisar exercer sua paciência, misericórdia e perdão, lembre-se que o outro é igual a nós, seja ele cristão ou não e, em não sendo cristão, a única diferença entre nós é que temos consciência do nosso pecado. Portanto, não use do Evangelho para menosprezar ou diminuir ninguém. O Filho amado de Deus se sujeitou ao Batismo nas mãos de um ser humano, como ele, para mostrar que ele era igual a todos, mesmo sendo diferente.
  • O Espírito de Deus está conosco. Uma das grandes certezas que temos é a de que o Espírito de Deus conduziu Jesus em seu ministério. Ele e o Pai são um e o Espírito é quem conduzia o Mestre em sua jornada. Outra grande certeza que temos é a de que o Espírito Santo é quem nos conduz. Portanto, não fique arrumando desculpas para justificar sua inatividade diante daquilo que Deus quer que você faça e viva. O Espírito de Deus está conosco, sejamos ousados em viver movidos por ele.
  • Se buscamos alegrar a Deus, sigamos Jesus. Siga Jesus. É isso. Quem segue Jesus encontra dificuldades — desertos e tentações são os primeiros momentos pós batismo de Jesus — mas, o que são as dificuldades para quem vive a vontade de Deus e alegra o Pai? O apóstolo Paulo tem uma resposta para essa pergunta, lá 2 Coríntios 4.17: “Pois estas aflições pequenas e momentâneas que agora enfrentamos produzem para nós uma glória que pesa mais que todas as angústias e durará para sempre.”

Jesus iniciou seu ministério após o Batismo. Não é à-toa que o mesmo Espírito que se manifesta às margens do Jordão conduz Jesus para o deserto, onde ele é tentado após quarenta dias. De lá, o Espírito o conduziu para a Galileia, onde anunciava o Reino de Deus. Estamos no início do ano, temos uma jornada pela frente. Uma vez batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, somos parte do Corpo de Cristo e o Espírito de Deus está conosco para nos conduzir em cada momento. Não devemos temer o deserto, as tentações, as dificuldades. Caminhemos certos da graça de Deus sobre nossas vidas.

Texto adaptado do sermão pregado em 10 de janeiro na Igreja Presbiteriana Independente de Tucuruvi

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