De casa em casa
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De casa em casa

Incluir e celebrar

Um olhar pastoral sobre a relação LGBTIA+ e a Igreja

O presente material nasceu como aulas de escola bíblica, durante a pandemia, estudado com os jovens da igreja pastoreio e publicado por etapas aqui no Medium. Em setembro de 2021, por conta da ação de indivíduos inescrupulosos, e temendo retaliações que afetariam a mim, minha família e a igreja que pastoreio, retirei o material do ar. A esta altura, já o havia enviado para revisão, antes, porém, reescrevi e ampliei alguns capítulos. O cerne deste material é a seção “O que diz a Bíblia” que não foi modificado desde sua primeira escrita.

A republicação, agora em artigo único, cumpre a missão dos textos originalmente publicados: lançar luz sobre um tema repleto de preconceitos e tão incômodo aos que estão presos a uma religiosidade tóxica, que eles perdem tempo perseguindo pares ao invés de se dedicarem ao Reino de Deus. Não dá mais para silenciar diante das atrocidades feitas em nome de Jesus e nada tem com o Reino de Deus. Este é um tema onde há mais medo e dúvidas que certezas, por isso, cito o que escrevi na primeira seção: que tenhamos coragem e ousadia de fazer perguntas e expor dúvidas, pois continuar excluindo e condenando não dá mais. Nossos irmãos LGBTIA+ estão morrendo por isso.

Introdução: Por que precisamos falar disso?

O termo LGBTIA+ é, para muitos, uma sigla misteriosa, com muitas letras e pouco significado. Urge lembrar, no entanto, que não se trata de uma sigla, um grupo, uma minoria, mas de indivíduos integrados no mover social de nossas cidades. Quem são eles? Eles estão na mídia, na política, pautaram de forma decisiva nas eleições presidenciais de 2014 e 2018 e ocupam um espaço no imaginário popular construído a base de muito preconceito e estereótipos criados ao longo do tempo.

Essa sigla foi e ainda é substituída por expressões pejorativas que moldaram gerações e criaram um abismo entre pessoas da mesma família e grupo social. O que chamo aqui de “eles”, representa uma parcela significativa de nossa sociedade, ocupam lugares de destaque dentro de empresas e órgãos públicos e ainda são responsáveis pelas principais mudanças na estrutura social do país nas últimas décadas. A comunidade LGBTIA+ não pode ser sintetizada, muito menos estudada e referida como um bloco homogêneo. São tantas as diferenças, contradições e enfoques de cada parte do movimento que nos é necessário delimitar a quem nos referimos quando falamos “deles”.

O caminho que vamos trilhar é o de compreender quem integra a comunidade LGBTIA+, o que a Bíblia diz sobre eles e como podemos trabalhar com eles de maneira que eles não sejam mais eles, e sim nós. Confuso? Não se trata de anular a identidade, mas sim de compreender que os homoafetivos fazem parte da humanidade e que, assim como nós, estão reféns do pecado e carentes da graça libertadora de Jesus Cristo.

Não estou falando de se converter da prática homoafetiva, e sim de reconhecer os homoafetivos como parte do corpo de Cristo, incluir e celebrar a vida com eles.

Como isso se dará e qual serão os passos, eu não sei ainda, só sei que não podemos mais afastar e estigmatizar pessoas que são filhas e filhos de nossas comunidades de fé. Não é difícil constatar que erros foram cometidos ao longo do tempo que apenas afastaram a comunidade homoafetiva das comunidades de fé. É preciso um exercício de perdão e misericórdia para que haja reaproximação, entendimento e acolhimento. Para que as diferenças não sejam mais o motivo do afastamento, e sim, a razão da aproximação, inclusão e celebração da vida.

Há muito o que conversar e percorrer nesta temática da porta para dentro da Igreja. No campo das ciências sociais, por exemplo, essa discussão já está superada e ultrapassada há décadas. No entanto, isso não significa que devamos impor tal assunto à igreja, e nem necessariamente trilhar o mesmo caminho das ciências sociais ou qualquer outra área do conhecimento. No presente livro, vamos falar especificamente de relações homoafetivas, sem entrar em questões como transgêneros, transsexuais e demais grupos pertencentes ao movimento LGBTIA+. Essa escolha é necessária por dois motivos:

  1. a necessidade de delimitação dos assuntos a serem tratados.
  2. a falta de material para se tratar de questões tão complexas à luz da história, tradição e teologia.

A delimitação à homoafetividade se dá para compreender o que Lésbicas, Gays e Bissexuais sentem e pensam e como podemos acolher sem impor mudanças que o próprio Cristo não impõe. Outro fato que precisa ser destacado é a ausência da letra “Q” na sigla que usaremos aqui. Sendo Queer uma “não identidade”, não caberia de fato aqui. Tomo essa decisão com base na aula “Teologias da Diversidade Sexual e de Gênero” da Reverenda Doutora Ana Ester Pádua no 7º módulo do FLEA.lab — Laboratório de Formação de Lideranças Evangélicas.

A abordagem deste livro não pretende ser conversionista. Não quero converter ninguém à heteronormatividade e nem à homoafetividade. O que quero, com sinceridade de coração e humildade, é abordar os textos bíblicos à luz do que a Teologia Reformada entende ser uma abordagem apropriada e juntos entendermos os contextos, as realidades e o que aqueles textos querem nos dizer no século XXI. Além do mais, vamos tentar compreender como a Igreja precisa, apesar da grande resistência de muitos, entender que a sociedade hoje é outra e que acolher o diferente é um chamado à prática do amor e da comunhão.

Sendo a comunidade cristã diversa em sua teologia e prática, não podemos deixar de olhar para a diversidade de gênero e identidade. É por isso que se faz urgente e necessário iniciar o presente estudo com a comunidade de fé. É no chão da igreja, no dia a dia pastoral de cada cristão, que a fé é viva.

No agir e expressar de suas opiniões e posicionamentos que a comunidade de fé é sal da terra e luz do mundo. Não podemos lançar fora aqueles que Jesus mesmo colocou dentro da Igreja. É preciso compreender que a Igreja é de Cristo e quem chama para a vida comunitária é Ele, Ele chama quem Ele quer para onde Ele quer. A nós cabe amar, acolher, ser amigo e companheiro.

É pensando nisso que vamos trilhar o seguinte caminho ao longo das próximas páginas: Vamos definir o que é gênero, os conceitos e como devemos nos referir a eles. Em seguida, vamos definir o que é identidade, a importância de nos identificarmos e sermos reconhecidos socialmente pelo que somos. Definidos os termos gêneros e identidade, vamos falar um pouco do movimento LGBTIA+ em uma perspectiva histórica e de maneira resumida, procurando identificar onde o movimento por direitos se tornou um “inimigo da família” para alguns setores da sociedade.

A partir daí, vamos iniciar nossa jornada pelos textos bíblicos que tratam da homossexualidade. Vamos verificar quais os conceitos, contextos e palavras abordadas nos textos bíblicos. Após os estudos das passagens sobre homossexualidade no Antigo e Novo Testamento, vamos olhar para um caminho possível de entendermos as relações homoafetivas à luz da Bíblia. Vamos encerrar a jornada tentando responder a duas perguntas:

  1. Por que é tão difícil aceitar?
  2. O que podemos fazer?

Ao final de tudo, espero que nos restem mais perguntas que respostas, mais dúvidas que definições, entretanto que tenhamos coragem e ousadia de fazer perguntas e expor dúvidas, pois continuar excluindo e condenando não dá mais. Nossos irmãos LGBTIA+ estão morrendo por isso.

Giovanni Alecrim
São Paulo, inverno de 2021

1. O que é gênero?

Definir gênero é fundamental para compreender como a Igreja deve se relacionar com as pautas LGBTIA+. A pauta das questões de gênero está presente na mídia, na política e nas igrejas. O que é gênero? Essa é uma pergunta com respostas diversas, o que vamos tentar é entender os conceitos e o que podemos ou não chamar de gênero.

Partindo do dicionário, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira define gênero como “classe cuja extensão se divide em outras classes, as quais, em relação à primeira, são chamadas espécies”, homens e mulheres são gêneros da espécie humana; “qualquer agrupamento de indivíduos, objetos, ideias, que tenham caracteres comuns”, na arte temos o gênero literário e o gênero dramático; e ainda “categoria que indica, por meio de desinências, uma divisão dos nomes baseada em critérios tais como sexo e associações psicológicas”, gramaticalmente existem os gêneros masculino, feminino e neutro. Percebam que as definições são tão complementares quanto contraditórias. [1]

Nas últimas três décadas, os avanços das pautas LGBTIA+ fizeram o significado da palavra “gênero” mudar a ponto de se encontrar sua associação de maneira politizada às questões da sexualidade. Gênero, quando abordado em consonância com as questões LGBTIA+, vai além da questão sexual. Estamos falando de afetividade e identidade. De fato, a espécie humana é dividida no gênero masculino e feminino, isso não se discute, ainda mais no aspecto biológico. Dentro dessa divisão de gênero, temos pessoas do gênero masculino que se identificam e desejam afetivamente pessoas do gênero masculino. O fato de ser de um gênero não implica a obrigatoriedade de sentir atração e afetividade pelas pessoas do gênero oposto.

Nesse momento, precisamos fazer uma pausa e compreender o significado de cada uma das letras do LGBTIA+, que vai nos ajudar a entender melhor a questão.

L: Lésbicas, mulheres que sentem atração afetivo-sexual pelo mesmo gênero.
G: Gays, homens que sentem atração afetivo-sexual pelo mesmo gênero.
B: Bissexuais, mulheres e homens que sentem atração afetivo-sexual pelos gêneros masculino e feminino.
T: Transexuais ou Transgêneros, pessoas que se identificam com outro gênero que não aquele atribuído no nascimento.
I: Intersexo, pessoas cujo desenvolvimento sexual corporal não se encaixa na norma binária.
A: Assexual, pessoas que não sentem atração afetivo-sexual por outras.
+: Mais: abriga as diversas possibilidades de orientação sexual e/ou de identidade de gênero que existam ou possam existir. [2]

Como podemos perceber pelas definições acima, gênero é uma construção social, não uma condição biológica. Assim sendo, você nasce com um gênero biológico determinado, mas desenvolve sua afetividade e sexualidade com base nas estruturas sociais, definindo assim o seu gênero social. Não podemos entrar numa questão complexa, como se há ou não o chamado “gene gay”, que determina se a pessoa será ou não homoafetiva. Creio que essa discussão não cabe à Igreja, e sim à ciência. Deixemos que eles pesquisem.

No campo das Ciências Sociais, no entanto, encontramos o ponto de interseção com a Teologia, que é o que estamos abordando no presente estudo. A Teologia trata da relação do sagrado e sua criação. Não é uma relação estéril de sentimentos, mas permeada de afeto, de amor. Qualquer que seja a religião, a Teologia que é desenvolvida a partir dela trata dessa relação de afeto — amor e/ou ódio — pela humanidade. Onde há afetividade deve haver a reflexão teológica não para condenar, mas para compreender.

A definição do conceito de gênero a questões biológicas fere um dos princípios básicos da humanidade. A relação com Deus, narrada no texto bíblico, segue um padrão de gênero, mas quem aqui ousaria definir a que gênero Deus pertence? Se somos feitos “à imagem e semelhança de Deus” e possuímos dois gêneros biológicos, a qual dos dois Deus pertence? Ou seriam aos dois? São mistérios os quais não conseguiremos respostas. Sugiro você deixar guardado em sua mente e coração esta pergunta para quando estiver face a face com Deus, tirar sua dúvida.

Sendo gênero uma construção social, nas relações com pessoas LGBTIA+ devemos prezar pela educação e compreensão. Se uma pessoa se apresenta com um nome que, para você, não condiz com o gênero biológico dela, o mínimo que você deve fazer é tratar essa pessoa com o nome através do qual ela se apresentou. Eu não trato você por outro nome que não o que você se apresenta a mim. Isso é o básico da convivência em sociedade e tem relação direta com o conceito de identidade.

A partir daqui, tratarei de gênero como uma construção social, o que significa que citarei sempre a perspectiva de como a pessoa se identifica diante dos diferentes tipos de gênero. Identidade de gênero é o conceito que define tal ação. Portanto, é preciso compreender o que é identidade, não apenas de gênero, mas de várias outras identidades. É sobre isso que falarei no próximo capítulo.

2. O que é identidade?

Quem sou eu? Uma pergunta de cunho existencial e que define muito em nossa vida. A definição do que é identidade é muito cara aos cristãos. Concepções como “nova vida” e “nova criatura” passam pela construção de sua identidade. O conceito de identidade tem sua origem na filosofia. Aquele que é diferente dos demais, porém idêntico a si mesmo. A minha identidade só pode ser definida em relação social. É na dialética entre o indivíduo e a sociedade que minha identidade é construída e mudada ao longo do tempo. Você é quem é a partir da relação com o outro. Ao longo da vida, nossa identidade vai sendo transformada e moldada. Começa com o núcleo familiar, expande para a família maior, escola, igreja, clubes, bairro, trabalho e toda relação social que se estabeleça a partir da existência. O você de hoje é muito diferente do você de três anos de idade, mas, ao mesmo tempo, é absurdamente semelhante.

Quando trazemos o conceito filosófico de identidade para o campo social, temos as formações de identidades conforme agrupamentos. Recentemente, em nossa sociedade, temos uma retomada de movimentos identitários. Identidade de gênero, negra, evangélica, católica, gamer, otaku, etc, são exemplos de como o conceito de identidade se aplica às formações de comunidades espalhadas pela nossa sociedade. O agrupamento de pessoas por identidade, a maneira como elas se identificam, é uma forma de afirmação e reconhecimento diante das demais identidades.

Só há movimentos identitários porque há uma ação opressora na sociedade que nega a estes grupos o direito à sua própria identidade, a si mesmos. O movimento de identidade negra, por exemplo, luta pela afirmação social dos negros, pelo fim do preconceito social que os legou funções e cargos estereotipados pela mídia em geral, que reforçam as divisões sociais e limitam a atuação dos negros em outras áreas que não as determinadas por um sistema escravocrata travestido de “liberdade”. Em outras palavras, o que os movimentos identitários buscam é que eles sejam tratados como todo ser humano deve ser tratado, com respeito, dignidade, oportunidades, direitos e deveres sem terem que passar por constrangimentos, opressões e cerceamentos por serem quem são.

2.1. Identidade de Gênero

Aqui chegamos ao tema que nos interessa nesta caminhada. A melhor definição de identidade de gênero a que tive acesso, encontra-se na nota informativa “Livres e Iguais”, publicada pelas Nações Unidas:

A identidade de gênero se refere à experiência de uma pessoa com o seu próprio gênero. Pessoas transgênero possuem uma identidade de gênero que é diferente do sexo que lhes foi designado no momento de seu nascimento. Uma pessoa transgênero ou trans pode identificar-se como homem, mulher, trans-homem, trans-mulher, como pessoa não-binária ou com outros termos, tais como hijra, terceiro gênero, dois-espíritos, travesti, fa’afafine, gênero queer, transpinoy, muxe, waria e meti. Identidade de gênero é diferente de orientação sexual. Pessoas trans podem ter qualquer orientação sexual, incluindo heterossexual, homossexual, bissexual e assexual. Muitas pessoas trans desejam ter seu nome social e gênero legalmente reconhecidos e registrados nos documentos de identidade oficiais. Muitas delas também alteram sua aparência física, incluindo o modo de vestir, de forma a afirmar ou expressar sua identidade de gênero. Algumas pessoas trans — embora não todas elas — se submetem a cirurgias de redesignação de gênero e/ou terapia hormonal.[3]

O que me chama atenção nesta definição é a diferenciação entre identidade de gênero e orientação sexual. Precisamos quebrar a interpretação equivocada de que as questões de gênero estão ligadas apenas às questões sexuais. Não podemos excluir a construção da identidade e os afetos enquanto elementos constitutivos desse debate.

2.2. O esquema dos lados

Mas, e no meio cristão? Existe esse debate, essa questão de identidade de gênero? Sim, existe. O Conflictu Podcast[4] e o Blog Livin’vinil[5] publicaram conteúdos, no ano de 2020, apresentando um esquema de identificação de gêneros conforme percepção cristã da questão. Por ser uma construção estadunidense, reflete boa parte da teologia e contexto social daquele país, no entanto, podemos observar este conteúdo, discutir e adaptar à realidade brasileira. Como Thales R. R. de Moura pontuou no podcast, não é uma proposta perfeita, mas é muito melhor do que a concepção que temos de identidade de gênero sendo disseminada por pessoas que nunca se assentaram com pessoas LGBTIA+ para escutar o que elas têm a dizer.

O esquema composto por quatro lados, tendo três intersecções. O ponto de partida são três perguntas:

  1. É permitido a um cristão ter relações homossexuais?
  2. É adequado que um cristão se identifique como gay ou LGBT?
  3. É adequado a um cristão admitir abertamente sua atração pelo mesmo sexo?

Estas perguntas, dependendo do “Sim” ou “Não” dadas a elas se enquadra um dos quatro lados: A, B, Y e X. Porém, pode ser que você não tenha definido ainda algumas questões, logo, você fica nas intersecções: C¹, C² e C³. Para entender melhor, vamos ao gráfico:

Imagem 1[6]

Existem muitos cristãos que já se identificam dessa forma. Temos uma ampla variedade de conceitos e entendimentos para os cristãos poderem acolher e abraçar os homoafetivos em suas comunidades, sem a necessidade de que eles saiam, mas sejam incluídos na igreja, inclusive em ministérios. O único dos lados que não admite tal condição, segundo este esquema é o X, o mais rígido deles, que acredita que não há alternativas para o homoafetivo a não ser se adequar à heteronormatividade. Tudo o que vimos até aqui é bem resumido. Para mais detalhes, ouça o Conflictu Podcast e leia o Blog Livin’vinil, onde o conteúdo está bem esmiuçado. Inclusive, no podcast, há depoimentos de pessoas que se identificam abertamente com os lados do esquema acima.

Precisamos incluir, aproximar, abraçar. Para isso, precisamos romper com o medo que a Igreja criou em relação ao movimento LGTBIA+. O esquema dos lados não é unânime, como tudo. Nem mesmo eu o tomo como base de meu posicionamento acerca do tema, mas é interessante apresentá-lo, pois tem circulado entre muitos meios cristãos.

Creio que este esquema é limitante e tenta colocar em uma ordem algo a partir da perspectiva das estruturas de poder eclesiásticos existentes. Deveríamos pensar em outra direção, propor uma caminhada muito mais de diálogo com os movimentos LGBTIA+ dentro da igreja do que propor que eles se encaixem em um sistema ou norma que nem mesmo os héteros se propõem a cumprir, a saber, as constituições e leis de uma igreja. Neste quesito há muita hipocrisia e se recorre às leis e normas de uma igreja sempre para legitimar e preservar estruturas de poder, nunca para dialogar, incluir e celebrar.

3. Quem tem medo do movimento LGBTIA+?

Conhecendo a história para derrubar os temores e mudar a tônica ao falar do assunto. Há, em nossa cultura, tamanha rejeição em se adentrar no assunto da homossexualidade e questões de gênero que se assemelha ao medo. Mas quem tem medo? Essa pergunta é importante, porque estabelece um ambiente de terror sobre os filhos e filhas do cristão e que ronda o imaginário religioso, criando fantasmas e alimentando um discurso de ódio, não de amor.

No Brasil essa retórica foi profundamente explorada pelos movimentos conservadores na política e religião. A cultura do assassinato de LGBTIA+ precisa ser extirpada em nosso país. Não dá mais para se matar por diferenças de identidade e gênero. Para que isso mude, precisamos conhecer melhor o movimento. A combinação religião e movimentos LGTBIA+ é um convite a posicionamentos ferrenhos e acusações de todos os lados.

O que poucos sabem é que na primeira parada do orgulho estiveram presentes, na organização do evento, dois pastores: Rev. Troy Perry e Rev. Bob Humphries. Pode parecer estranho para os dias atuais imaginar que a Igreja esteve na vanguarda da luta pelos direitos LGBTIA+. De fato, esteve e com um pastor assumidamente homoafetivo. Fundador da Igreja da Comunidade Metropolitana, Rev. Troy deu os primeiros passos para a concretização da consolidação do movimento LGBTIA+ em Los Angeles e entre o cristianismo.

A Igreja é um organismo, não uma organização. Esta afirmação precisa ser compreendida na medida que o Cristianismo, enquanto religião, não possui um porta-voz oficial. Existem diversas comunidades, que dialogam com o sagrado de diversas formas diferentes, e se posicionam socialmente de maneiras até mesmo contraditórias entre si. Neste contexto há, como em toda religião, conservadores e progressistas. Os conservadores sempre criarão meios para manter o status quo e as estruturas de poder que legitimam sua existência. Os progressistas deveriam lutar para quebrar as estruturas de poder e romper com o status quo.

Quando estudamos os profetas, no estudo do Antigo Testamento, percebemos uma clara diferença entre os profetas do Templo e os que não são ligados ao Templo. Os profetas do Templo eram ligados não só ao local de adoração, em Jerusalém, mas principalmente ao palácio, servindo de validação religiosa do poder político.

Já os que não eram do Templo, eram os profetas do campo. A maioria deles são os que temos os textos na Bíblia Sagrada. Estes profetas, à margem da religiosidade oficial, produziam o contraponto de denúncia e chamada ao arrependimento para o povo que, iludidos pelo discurso do Templo em associação ao Palácio, caminhavam distantes do que seria a vontade de Javé.

Rev. Troy Perry é, como tantos outros e outras atualmente, um profeta fora do Templo. Não que ele não tenha uma Igreja, pelo contrário, pastoreia aos oitenta anos. Mas precisou romper, lá na década de 1970, com a religiosidade oficial para chamar a atenção da Igreja que sua atitude discriminatória, agressiva e homofóbica estava, e está, distante do que seja a vontade de Deus para a humanidade.

No Brasil, dos anos 2010–2020, assistimos o puro suco da homofobia sendo destilada por igrejas que possuem como agenda, única e exclusiva, estarem associadas ao poder político da nação. Para tal, relativizam qualquer erro de seu mitômano salvador e ignoram suas ações contra a vida. Mais que isso, vendem-se para uma agenda que privilegia a morte e o lucro. Os profetas do Templo, e do palácio, não se cansam de gritar, esbravejar e semear mentiras.

O meu convite para você é para virar a cabeça e tirar os olhos da Igreja oficial, da Igreja do Templo e do Palácio, e olhar para a Igreja ao seu redor, a Igreja da periferia, da margem, daqueles que são perseguidos, “entregues aos tribunais, açoitados nas sinagogas” (Evangelho de Marcos 14.9). Quando a religiosidade cristã dominante se incomoda, remexe-se e sente seu poder ameaçado, pode acreditar que o Cristianismo está reagindo. A fé que o homem de Nazaré pregou, há dois mil anos, é a do acolhimento e entendimento, da vida e da comunhão. Se a fé exclui, não é fé cristã e deve ser vista como uma das muitas ferramentas de manipulação e manutenção do status quo.

Prezados e prezadas amigas LGBTIA+, saibam que na Igreja de Cristo há sim, lugar para vocês, que a agenda moralista e homofóbica de muitas igrejas não é a agenda de Cristo para nossas vidas. Queremos comunhão, amizade e sinceridade entre nós. Queremos ser quem somos, como estamos, independente de nossa situação atual, para juntos lutarmos por um mundo de justiça e amor. Precisamos repetir aquele 28 de junho de 1970, quando a Igreja caminhou ao lado dos que eram mortos e perseguidos. No país que mais mata travestis no mundo[7], precisamos parar de proclamar a morte e passarmos a lutar pela vida.

Mas, afinal, de onde surgiu o medo dos evangélicos em relação às lutas LGBTIA+? Poderia aqui fazer uma lista de suposições que vão do extremo conservadorismo religioso à falta de amor cristão para com o próximo, seja quem for esse próximo (vide parábola do bom samaritano). No entanto, prefiro apostar minhas fichas numa teoria: discurso político somado à influência conservadora religiosa estadunidense. O preconceito para com os LGBTIA+ na Igreja não é de origem brasileira, mas sim estrangeira.

Os movimentos conservadores políticos foram os que mais militaram para barrar pautas LGBTIA+ no Congresso, amparados pela forte influência religiosa de católicos e evangélicos, estes amparados por uma visão equivocada de sociedade dos evangélicos estadunidenses. Percebam que as pautas LGBTIA+ não agridem e não tiram os direitos religiosos. O casamento a que eles têm direito é na esfera civil, o religioso ninguém obriga ninguém a fazê-lo, nem os noivos, nem os oficiantes. O direito à saúde, segurança e educação é o mínimo que todo cidadão brasileiro deve ter acesso, independente de gênero, raça e condição social.

Ser reconhecido por ser quem se é, é algo que todos nós queremos. Os movimentos conservadores político-religiosos semearam, através de notícias falsas, um temor que não existe. Associar a prática LGBTIA+ a crimes como pedofilia, por exemplo, é desconhecer que 70% dos casos no Brasil são praticados por parentes[8] da criança e imensa maioria são de heteronormativos. Esse é só um exemplo do quanto se articula diabolicamente para encontrar motivos para excluir da religião a presença LGBTIA+.

Encerro aqui o primeiro bloco de nossa caminhada. Nele, busquei apresentar conceitos do que é gênero, identidade e o movimento LGBTIA+. A partir do próximo capítulo irei abordar textos bíblicos que tratam da homossexualidade e relação com o mesmo gênero.

4. O que diz a Bíblia

4.1. Gênesis 19: O que diz o texto que deu nome à relação homoafetiva, por anos, no imaginário popular.

O texto de Gênesis 19 apresenta a história de Ló, de Ur dos Caldeus, sobrinho do patriarca Abraão, que morava em Sodoma. A história da destruição de Sodoma no texto bíblico começa em Gênesis 18. Ló havia se estabelecido naquela região e pastoreava por ali. Enfrentou guerras, foi prisioneiro e agora vivia naquela cidade. Ao que parece, havia grande oposição entre Sodoma e as cidades do entorno, e pelo que o texto bíblico nos indica, a cidade resumia os pecados do mundo em si, sendo a principal oposição ao pensamento de Abraão.

Aqui é necessário abrir parênteses. Precisamos nos lembrar, antes de entrar no texto que nos interessa, que o livro do Gênesis não foi escrito enquanto os fatos aconteciam, mas sim, séculos mais tarde. Somente quando a elite de Judá retorna do exílio da Babilônia é que os textos do Pentateuco vão ganhar sua redação final. Há, portanto, além do distanciamento histórico, a influência do tempo em que viviam os redatores finais do livro.

Retomando a história da destruição de Sodoma, em Gênesis 18, temos os anjos do Senhor visitando Abraão e levando a promessa de que Sara ficaria grávida. Enquanto lá estavam, decidiram não esconder de Abraão o que estava por vir. Os acontecimentos de Sodoma haviam chegado aos ouvidos de Javé e ele exerceria seu juízo sobre a cidade. Abraão intercede pela cidade, tendo em mente a presença de seu sobrinho nela. “Suponhamos que haja apenas trinta justos”. Abraão começa sua súplica com trinta e termina com dez. Em todas elas, Javé afirma que sim, pouparia os justos. Porém, não há trinta justos e é o que nos revela o capítulo 19.

O relato começa com a chegada dos anjos a Sodoma. Ló, que estava na entrada da cidade, convida-os para ir para sua casa. Eles preferem dormir na praça. Ló insiste e eles acabam seguindo para residência dele. Eles se acomodaram, jantaram e, ainda não tinham ido dormir, quando os homens de Sodoma bateram à porta de Ló, gritando:

Onde estão os homens que vieram passar a noite em sua casa? Traga-os aqui fora para nós, para que tenhamos relações com eles! (Gênesis 19.5)

No hebraico, literalmente, é “para que os conheçamos”. Conhecer no sentido pleno, ou seja, ter relações sexuais. O cenário apresentado é de que Sodoma era uma cidade profundamente libertina e sem padrões de preservação das relações. A entrega aos prazeres era incentivada e ensinada dos mais jovens aos mais velhos. No Antigo Testamento, a homossexualidade é profundamente atacada e condenada. Em Sodoma se praticava, aos olhos do Antigo Testamento, a pior forma de homossexualidade, a grupal.

Interpretar o texto de Gênesis 19 é um tanto quanto complexo. Por isso, lanço aqui algumas pistas ou propostas que devem nortear nossa leitura do texto para que não caiamos numa literalidade sem considerar o contexto do evento narrado e de seu tempo de escrita.

A primeira pista é a de que a visão judaica do século IV a.C. apontava para a necessidade de se preservar a integridade da Lei e das recomendações do Pentateuco. Em busca da unidade e uniformidade do culto a Javé e impactados pelas experiências que a invasão e o exílio causaram em sua perspectiva de como eles saíram de povo escolhido para povo disciplinado, agora, precisavam reerguer a teologia e a história de seu povo. Desta maneira, o povo judeu olhava para suas raízes em busca de referências para a construção de sua identidade. Fazia parte desta identidade acreditar que a prática da homossexualidade era abominável.

A segunda pista é o contexto de Gênesis 19. Sodoma é a antítese de tudo o que Abraão foi chamado a viver, a saber, justiça e hospitalidade. Ló não era lá um santo. Praticou incesto com suas filhas, era alcoólatra e, segundo o Apóstolo Pedro, fruto do ambiente maldoso em que vivia. Olhando para essa antítese de Abraão, é natural que os fatos sejam narrados visando revelar a crueldade e maldade de Sodoma em contraste à fidelidade e espírito misericordioso de Abraão.

A terceira pista é entender que Gênesis 19 é uma forma de apontar para o perigo de se render as práticas excessivas. A intensidade com que viviam suas vidas fazia com que suas relações com os diferentes fossem resumidas à satisfação pessoal.

Seja qual for a direção que tomemos para interpretar Gênesis 19, o resumo do ensino deste capítulo é:

  1. A luxúria — comportamento desmedido em relação aos prazeres sexuais — é condenada
  2. A fidelidade e obediência a Javé são o caminho para a vida
  3. A moralidade de Sodoma não deve ser imitada

A partir da leitura de Gênesis 19 e análise das pistas que aponto, podemos concluir que o judeu do século IV a.C. tinha profundas dificuldades em aceitar a homossexualidade e essa condenação se deve ao contraste da formação de sua identidade enquanto povo em relação a outros povos e nações. Gênesis 19 condena a homossexualidade. O judaísmo parece ter superado essa questão. A maioria dos judeus aceita e realiza o casamento homoafetivo. Ainda há os mais ortodoxos que condenam, mas reconhecem a atração entre dois homens e a existência da homossexualidade, não permitindo o ato sexual e incentivando o controle do desejo. Ao que parece, o judaísmo atual consegue reler Levítico 18 e encontrar caminhos para conviver e aceitar, se não plenamente, parcialmente, a prática homossexual em seu meio.

4.2. Levítico 18: Entendendo o texto que condena mais que a prática homossexual

Talvez o título devesse ser: O que diz a Lei? Lei, assim, com “éle” maiúsculo, no meio cristão, aponta para os mandamentos e palavras de Deus. Com o passar do tempo, passou a significar a Torah, conjunto de livros que trazem a história fundante e os ensinos fundamentais para a fé judaica. Originalmente, a Torah era uma instrução oral. Com o passar do tempo, passou a designar o Pentateuco, ou, a Lei de Moisés. No Novo Testamento, sempre que o termo aparece — sendo a maioria das vezes no singular –, aponta para o Pentateuco.

No caso específico do nosso tema, o texto de Levítico 18 é um dos mais apontados como condenando a prática homossexual. O livro do Levítico, de autoria desconhecida, mas tradicionalmente atribuída a Moisés, pode ser identificado como o livro do código de santidade. O texto do capítulo 18 parece, numa primeira leitura, estar solto no meio de todo o ambiente do texto, mas não está. Se você ler o livro do Levítico, notará que lá no capítulo 11 se inicia um grande bloco onde se trata das impurezas. Aliás, o termo impureza e purificação é repetido à exaustão no livro. Vejam que sequência interessante está inserido nosso texto:

  1. Animais impuros (11);
  2. Purificação após o parto (12);
  3. Doenças (13–14)
  4. Secreções (15)
  5. Expiação (16)
  6. Culto indevido (17)
  7. Impureza sexual (18)
  8. Santidade (19)
  9. Castigos relativos às impurezas sexuais (20)

Todos esses temas abordam aspectos do dia a dia do povo que estava para entrar na terra prometida. A chave de leitura de todos eles é o que está no versículo 3 do capítulo 18 e é repetido por seguidas vezes ao longo do livro:

Portanto, não se comportem como o povo do Egito, onde vocês viviam, nem como o povo de Canaã, para onde os estou levando. Não imitem o estilo de vida deles. (Levítico 18.3)

É preciso entender a leitura de Levítico 18 a partir dessa premissa, pois ela nos coloca diante da construção da identidade do povo em contraste à identidade de outros povos.

A estrutura do capítulo 18 é bastante didática. Abre com uma introdução ao tema (1–5), segue para as questões de moralidade sexual no âmbito familiar (6–18), passa para a relação com mulheres (19–20), passa para o sacrifício dos filhos (21), passa para a relação sexual entre homens (22) e depois de homens e mulheres com animais (23), encerrando com as consequências gerais e aplicações acerca da lei (24–30)

O capítulo 18 possui uma complementação: o capítulo 20. Há uma relação de causa e consequência entre eles. No 18 temos as causas, no 20 as consequências de quem as pratica. Caso queira conferir, segue a lista:

Note, nessa relação, a ausência de condenação ao verso 18 do capítulo 18. Há alguma intencionalidade nisso? Seria mais uma recomendação que uma determinação? Não sabemos, mas o que nos interessa na conversa de hoje é a relação entre os versos 18:22 e 20:13.

A prática da homossexualidade é condenada e sua consequência é a pena de morte. Onde a tradução Nova Versão Transformadora traduz como “práticas homossexuais”, o texto hebraico apresenta algo como “com homem não te deitarás”. A tradução para homossexuais é uma atualização da expressão. Pode soar discriminatória, numa primeira leitura, mas compreendo a escolha dos tradutores. Voltando ao sentido do texto, é exatamente esse: quem praticar a homossexualidade deve ser morto. E aqui cabe a pergunta: se a lei condena, a lei ainda é válida para os cristãos? Se é válida, devemos matar quem pratica a homossexualidade?

Esta discussão vai além da questão da homossexualidade em si. Estamos questionando se todos os temas abordados pela lei devem ou não ser cumpridos. Há cristãos que fazem a distinção da Lei cerimonial e moral. A cerimonial deve ser ignorada, a moral seguida, mas seguida até que ponto? Se for até as últimas consequências, deveríamos matar uma série de pessoas. Mas há saída para isso? Sim, há, e reside na boa interpretação do Novo Testamento. Jesus de Nazaré não admite que a lei possa constituir, sob qualquer título, meio de salvação[9]. A salvação, que nos constitui como povo de Deus, dá-se pela graça.

Portanto, a Lei foi cumprida e não pesa mais sobre nós. Isso significa que tudo nos é permitido, mas nem tudo nos convém, para citar Paulo. Aliás, o apóstolo aponta para a Lei como aquela que dá o conhecimento do pecado e a certeza de que o homem não pode justificar-se a si mesmo[10]. Diante da Lei, a tendência neotestamentária é radicalizar e relativizar. J.-L Leuba, no verbete Lei no Vocabulário Bíblico da ASTE afirma:

Radicalizadas porque são reconduzidas, pela obediência perfeita só de Cristo, à própria fonte de toda a vida: a vida divina. Tendo perdido toda a significação autônoma, elas se cumprem no amor ao próximo (Gálatas 5.14, 6.2 e Romanos 13.10), fundamentado no amor a Deus… Por este mesmo fato as exigências concretas da lei são relativizadas. O crente é livre em relação às prescrições da Lei (Romanos 7.1–6 e Gálatas 5.1). A plenitude do amor atualizará — ou, em caso contrário, suspenderá — para ele a validade das disposições concretas da lei (1Coríntios 7.18–24, 9.19–23).

Da leitura de Levítico 18 podemos concluir que o judeu/hebreu do Antigo Testamento tinha profundas dificuldades em aceitar a homossexualidade e essa condenação se deve ao contraste de sua identidade enquanto povo em relação a outros povos e nações. Levítico 18 condena a homossexualidade sentenciando com morte (Levítico 20) quem a pratica. Como dissemos no item anterior, o judaísmo parece já ter superado essa questão.

4.3. Juízes 19: Toda perversidade conduz à morte, independente do gênero da pessoa

Naqueles dias, Israel não tinha rei. Esta sentença aparece quatro vezes no livro de Juízes, todas elas após a história de Sansão, já no final do livro. O período dos Juízes não deve ser interpretado como de um governo jurídico, mas sim, no sentido de que o Juiz era alguém que exercia o poder que era conferido por Javé. Ao longo do relato não vemos muito laços entre as tribos. É constante a sentença Os filhos de Israel fizeram o que era mau aos olhos de Javé, e ele os entregou nas mãos dos…”, o que revela que o Juiz era, em última análise, alguém levantado pelo Espírito do Senhor para conduzir o povo ao caminho bom diante de Javé. O livro se concentra em combater os cultos cananeus, muito mais que em prover um relato histórico.

Estruturalmente falando, a sociedade era composta pela “bet-’ab” — a casa do pai — que englobava o avô, os filhos e os netos, todos com as respectivas famílias, na qual se acrescentam os parentes próximos e servos. Basicamente uma estrutura patriarcal. O conjunto de famílias, vinculadas entre si por algum grau de parentesco, formavam os clãs. Os clãs que viviam num determinado território e formavam a tribo, uma entidade independente, ligada às demais tribos por um elemento único unificador, no caso de Israel, Javé. A presença das tribos de Israel em Canaã vai gerar uma série de conflitos que, com o tempo, causarão desgastes e levarão as doze tribos a se unirem no surgimento de uma monarquia.

É essa estrutura que permeia Juízes 19. Capítulo este que não pode ser lido em separado da sua consequência, o capítulo 20, onde eclode a guerra. Os acontecimentos do capítulo 19 são profundamente marcantes. Um homem, levita, tomou como amante uma mulher de Belém de Judá. No entanto, a relação não foi lá muito bem e ela retornou para casa de seus pais. Depois de cerca de quatro meses, o marido vai para Belém, com intuito de trazê-la de volta. O pai da moça ficou feliz com a visita e o segurou por cinco dias, então, ele partiu com sua mulher de volta para sua casa, em Efraim.

Quando estavam perto de Jebus, o servo daquele homem insistiu para que não entrassem na cidade. Assim, seguiram para Gibeá. Lá, não sendo hospedados por ninguém, alojaram-se na praça. Ao cair da noite, um senhor de idade que voltava do campo os viu e, compadecido e temeroso pelo que poderia acontecer aos forasteiros, acolhe-os em sua casa. No meio da noite, enquanto todos se alegravam na casa, homens da cidade vieram para abusar dos estrangeiros. Resistindo, o senhor de idade e o homem de Efraim, colocaram para fora uma concubina, que foi abusada a noite toda e jogada, após o terror, na porta da casa onde estivera hospedada.

De manhã, o homem a chamou, ela não respondeu, e ele a jogou em seu jumento e seguiram viagem até sua casa. Lá chegando, ele a cortou em doze pedaços e enviou um para cada tribo de Israel. O capítulo termina com uma sentença um tanto quanto enigmática: “Desde que os israelitas saíram do Egito, nunca se cometeu um crime tão horrível. Pensem bem! O que vamos fazer? Quem vai se pronunciar?”. Juízes 19.30

Explicar este capítulo é um exercício e tanto. Existem algumas pistas que nos ajudam a entender. O homem de Efraim, ao norte, que vive em Gibeá, é o único a hospedar os forasteiros. A ausência de hospitalidade com os viajantes é um dos sinais de que a sociedade daquela cidade estava com certa disfunção em relação aos seus vizinhos. O ar de perversidade com que é narrado o episódio do abuso contrasta com a alegria e festividade do sogro do viajante e do hospedeiro dos estrangeiros.

Todo esse cenário é construído para mostrar que havia grande tensão entre a tribo de Benjamim e as demais tribos de Israel. Uma tensão que levou à guerra. Pode-se dizer que, considerando que o narrado em Juízes 19 é fato, o que aconteceu naquela noite em Gibeá foi a gota d’água de uma relação já conflituosa. Por outro lado, podemos interpretar como uma história contada para se demonstrar a imensa diferença das demais tribos em relação a Benjamim. Seja qual for o caminho que tomemos, o fato é que acabou em guerra.

Outro ponto interessante dessa narrativa, que corroboraria com a tese de que é uma história contada posteriormente para fundamentar a guerra, é sua semelhança com Gênesis 19:

  1. Viajantes chegam a uma cidade
  2. Estão na praça esperando por hospitalidade
  3. Um morador, que não é nativo da cidade, acolhe-os
  4. Os homens da cidade querem ter relações com os estrangeiros
  5. Mulheres são oferecidas em troca
  6. Em Gênesis, a intervenção divina salva a casa; em Juízes, a mão do homem leva à atrocidade
  7. No fim, o que resta é destruição (Gênesis) e guerra (Juízes)

Tais semelhanças, com certeza, não são ao acaso. Somam-se a elas a ausência de nomes e indicações, além das tribais. O relato quer revelar, aos leitores mais atentos, como Javé age diante da atrocidade.

Olhando para a temática de nossos estudos, o que percebemos é que este texto é usado como justificativa de maneira um tanto equivocada. O centro dele não é a questão da relação homossexual, que aqui é um dos muitos sintomas de uma sociedade perversa, a ponto de fazer o que fez com uma mulher.

Juízes 19, portanto, condena a prática homossexual na perspectiva que a apresenta como sintoma de uma sociedade doentia. O cristianismo tem tomado rumos diversos nessa discussão. Da aceitação total a rejeição total. Os evangelhos não tratam desse tema diretamente. Quem o aborda são Paulo e João, no Apocalipse. Optamos pela via paulina para interpretar o assunto no Novo Testamento. A exclusão de Apocalipse se justifica por ser repetição das condenações paulinas. É o que veremos a seguir.

4.4. Romanos 1: Quando a condenação à prática homossexual encontra uma saída

A carta aos Romanos é considerada uma obra-prima teológica. A estrutura da carta e a forma como apresenta o histórico sistematizado a respeito da salvação em Cristo é singular. O encadeamento do pensamento e a conclusão com a glória de Cristo revelam como o autor se esmerou na escrita e composição. Logo na abertura da carta, temos uma seção que apresenta como Deus se ira contra o pecado e como aqueles que não são judeus não podem ser dispensados da justiça diante do pecado.

Segundo o autor de Romanos, os judeus tinham acesso à revelação de Deus por meio de seu poder na criação e escolheram trilhar outros caminhos. Por três vezes, nessa seção, o autor diz que “Deus os entregou”, na primeira aos desejos pecaminosos de seu coração, na segunda, aos desejos vergonhosos e, na terceira, a um modo inútil de pensar. O que essa seção, que vai dos versos 18 a 32, nos mostra é como, ao longo da história, a ira de Deus se acendeu contra o pecado.

É singular que em cada uma das “entregas de Deus” tenhamos um resultado diferente na vida dos seres humanos. Quando entregues aos desejos pecaminosos, a humanidade praticou coisas desprezíveis e degradantes com o próprio corpo e adoraram coisas que Deus criou. Quando entregues aos desejos vergonhosos, as mulheres e os homens se entregaram a práticas sexuais não naturais, segundo o autor. Quando entregues ao modo inútil de pensar, a humanidade se encheu de perversidade, pecado, ganância, ódio, inveja, homicídio, discórdia, engano, malícia e fofocas. O que esta seção, escrita como se fosse uma peça jurídica de acusação, revela-nos é como a humanidade, se guiada pelos seus próprios princípios, resulta em coisas deploráveis.

A semelhança com os textos de condenação profética do Antigo Testamento é proposital, visa despertar nos leitores judeus o sentimento de que o juízo de Deus se manifesta em seu tempo. O ato de entrega, tanto no Antigo, quanto no Novo Testamento, significa ser abandonado por Deus, que retira deles sua proteção e os expõe às consequências do pecado. Temos aqui um retrato sobre o paganismo no primeiro século. Retrato, aliás, muito parecido com o relatado no livro Sabedoria de Salomão, que é datado do Século I a.C, e que o autor de Romanos com certeza leu, por fazer uso de termos idênticos ao do livro.

O trecho que nos interessa são os versos 26 e 27, que contém a segunda entrega de Deus.

²⁶Por isso, Deus os entregou a desejos vergonhosos. Até as mulheres trocaram sua forma natural de ter relações sexuais por práticas não naturais. ²⁷E os homens, em vez de ter relações sexuais normais com mulheres, arderam de desejo uns pelos outros. Homens praticaram atos indecentes com outros homens e, em decorrência desse pecado, sofreram em si mesmos o castigo que mereciam. (Romanos 1.26–27)

O autor coloca diante de nós uma das práticas mais comuns no mundo greco-romano. O contraste dessas sociedades com a sociedade judaica é gritante. A prática da homossexualidade sempre foi um dos muitos elementos distintivos pelos quais o povo hebreu e judeu fazia separação entre eles e os demais povos, por isso, profundamente condenada nos textos bíblicos. O ponto-chave para interpretarmos esse texto de Romanos é o próprio contexto da carta. Notem que, ao longo desse trecho, o autor usa o verbo no tempo passado. Ele está começando uma contextualização que vai desembocar na graça de Deus manifesta em Jesus de Nazaré.

Ao introduzir o tema da entrega de Deus da humanidade, o autor, no preâmbulo dos versos 16 e 17, evoca o profeta Habacuque e a noção de justiça ligada à fidelidade. Porém, o próprio autor vai jogar por terra a exigência de fidelidade do ser humano ao afirmar que “Pois todos pecaram e não alcançam o padrão da glória de Deus, mas ele, em sua graça, nos declara justos por meio de Cristo Jesus, que nos resgatou de nossos pecados” (Romanos 3.23–24). Em outras palavras, pela fidelidade de um, temos o perdão e a isenção da justiça: “Portanto, somos declarados justos por meio da fé, e não pela obediência à lei” (Romanos 3.28).

O que concluímos da leitura de Romanos 1 é que a prática homossexual é condenada ali como uma das práticas dos gentios do Século I e que, uma vez que Deus abriu mão do cuidado, em Cristo, ele reúne para si toda a criação, oferecendo graça e perdão. Portanto, não podemos fazer referência a tal condenação sem fazer alusão ao contexto e ao que o autor da carta apresenta como saída para todo o pecado.

O questionamento, que não consigo responder, é: a prática da homossexualidade é condenada na perspectiva sempre do outro, do estrangeiro, mas e quando uma pessoa, com fé genuína e sincera, declara-se homoafetivo, como interpretamos? A saída é a graça de Deus em Cristo Jesus. A graça nos garante que nossa infidelidade não nos condenará, na mesma medida que nos convida a uma prática da fidelidade a Deus como gratidão. A seguir vamos tratar da imoralidade sexual e como o que é permitido nem sempre convém.

4.5. 1 Coríntios 6: Moral ou imoral, que diferença faz?

Um dos argumentos utilizados para confrontar a questão homoafetiva é o da pureza sexual. Firmados no que escreve o apóstolo Paulo em 1 Coríntios 6, muitos têm discriminado e excluído homoafetivos da convivência comunitária. A seguir, vamos olhar detidamente para este texto, tentando compreender o que Paulo diz e em qual contexto ele escreve tais palavras. Já adianto que ele não condena explicitamente a homossexualidade no texto abordado.

A primeira carta aos Coríntios apresenta uma série de ensinos para que a comunidade pare de se debater em torno de questões fundamentais e passe a considerar a vida com Cristo como prioridade. Ela ensina como lidar com ensinos falsos. A partir do capítulo 5, o autor começa a condenar a impureza e a imoralidade. Dentro desse contexto, fala da imoralidade que é o conflito judicial entre irmãos da mesma fé e, em seguida, chega ao trecho em que fala do pecado sexual.

¹²“Tudo me é permitido”, mas nem tudo convém. “Tudo me é permitido”, mas não devo me tornar escravo de nada. ¹³“Os alimentos foram feitos para o estômago, e o estômago para os alimentos.” É verdade, mas um dia Deus acabará com os dois. Vocês, contudo, não podem dizer que nosso corpo foi feito para a imoralidade sexual. Ele foi feito para o Senhor, e o relacionamento que o Senhor tem conosco inclui nosso corpo. ¹⁴Portanto, Deus nos ressuscitará dos mortos por seu poder, assim como ressuscitou o Senhor.

¹⁵Vocês não sabem que seu corpo é, na realidade, membro de Cristo? Acaso um homem deve tomar seu corpo, que faz parte de Cristo, e uni-lo a uma prostituta? De maneira nenhuma! ¹⁶E vocês não sabem que se um homem se une a uma prostituta ele se torna um corpo com ela? Pois as Escrituras dizem: “Os dois se tornam um só”. ¹⁷Mas a pessoa que se une ao Senhor tem com ele uma união de espírito.

¹⁸Fujam da imoralidade sexual! Nenhum outro pecado afeta o corpo como esse, pois a imoralidade sexual é um pecado contra o próprio corpo. ¹⁹Vocês não sabem que seu corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vocês e lhes foi dado por Deus? Vocês não pertencem a si mesmos, ²⁰pois foram comprados por alto preço. Portanto, honrem a Deus com seu corpo.

O texto começa evocando dois ditos que parecem ser comuns para o povo de Coríntio. Sabemos disso, pois o autor da carta o repete em 10.23: “Tudo é permitido”, mas nem tudo convém. “Tudo é permitido”, mas nem tudo traz benefícios. Ao que parece, “tudo é permitido” seria um argumento para justificar qualquer atitude entre os coríntios. O segundo dito, “os alimentos foram feitos para o estômago, e o estômago para os alimentos” parece querer nos dizer que assim como comemos para saciar a fome, fazemos outras coisas para saciar outros desejos ou necessidades. O autor faz uso destes dois ditos para introduzir a questão do uso do corpo para satisfação de desejos sexuais. Ele vai conduzindo sua linha argumentativa até eclodir numa sentença imperativa: “fujam da imoralidade sexual!”. O trajeto até chegar a esse imperativo é curioso.

O que passo a dizer aqui é fruto de uma percepção minha, na leitura do texto e dos comentaristas que consultei. Ao que me parece, o autor ao citar o estômago, provavelmente estivesse fazendo referência ao intestino, ao ato de defecar em si. O alimento entra, satisfaz, depois o eliminamos. Se lermos nessa perspectiva, a sentença: “mas um dia Deus acabará com os dois” não soaria tão contraditória em face à linha argumentativa de que o corpo ressuscitará e, portanto, o estômago também. Sistema digestivo à parte, o autor tece uma linha argumentativa mostrando como o corpo é componente do todo do ser humano. A salvação não é só para a alma, mas para nossos corpos e, o que fazemos com nossos corpos testemunha acerca de Cristo.

Ao evocar os ditos conhecidos pelos coríntios e contrapô-los à vontade de Deus, o autor não cita a Lei. Percebam que a resposta é Cristo e não a Lei. Nem mesmo as palavras do sexto mandamento, “Não cometa adultério” (Êxodo 20.14), são evocadas pelo autor da carta. A resposta para todo pecado é Cristo. O que temos de claro, até o momento, é que a moralidade dos coríntios diferia da moralidade que o autor da carta recomenda. Satisfazer os desejos do estômago e do corpo parecem não ser problemas morais para os cristãos de Corinto. O que o trecho todo apresenta é a necessidade dos coríntios entenderem que o corpo é parte do todo do ser humano, e por isso, deve ser honrado e preservado. A pergunta agora é como podemos entender tais palavras para os nossos dias?

Primeiro precisamos compreender o conceito de moralidade, que é relativo. O que é imoral para um, pode não ser para outro. Segundo, precisamos compreender que tais palavras possuem um destinatário específico: a Igreja de Corinto. Se tivermos que trazer estas palavras para os nossos dias, teremos que entender que elas são ditas para os cristãos. Os não cristãos não têm nada com isso. E aqui é que somos confrontados com nossos desejos, quer por comida, quer por sexo. Aquilo que desejamos como prática sexual fere o nosso corpo a ponto de considerarmos que estamos destruindo o santuário do Espírito Santo? Como podemos definir o que é ou não imoral diante das afirmações da carta aos coríntios?

Não me arriscaria aqui a definir, pois as diversas comunidades de fé, espalhadas pelo mundo, interpretam de formas diferentes a moralidade cristã. Apenas para ilustrar, algumas consideram imoral a mulher usar saia, outras, o homem usar bermuda. Se formos para a prática do sexo no casamento, já ouvi pessoas dizerem que determinadas posições são proibidas e impuras, sem indicar referências bíblicas que deem suporte para tal apontamento.

O que concluímos da leitura de 1 Coríntios 6 é que a prática da imoralidade sexual é condenada ali como uma das práticas dos gentios de Corinto no Século I. A saída para o pecado da imoralidade não está na lei, mas na graça de Cristo. Não há sequer menção à prática da homossexualidade e, portanto, tal texto deveria ser repensado quanto ao uso do mesmo para a condenação de pessoas homossexuais. Aliás, deveríamos parar de condenar. Não é nossa função. Até aqui caminhamos por textos que são usados constantemente para tratar do assunto da homossexualidade. No próximo, trataremos de uma passagem onde Jesus trata de um assunto que se aproxima da nossa temática. O que tentaremos mostrar é como Cristo e o Evangelho podem nos ajudar a tratar um tema tão polêmico para a igreja.

4.6. Mateus 19: Seria a abstinência o caminho para os LGBTIA+ dentro da igreja?

Os discípulos de Jesus disseram: “Se essa é a condição do homem em relação à sua mulher, é melhor não casar!”. “Nem todos têm como aceitar esse ensino”, disse Jesus. “Só aqueles que recebem a ajuda de Deus. Alguns nascem eunucos, alguns foram feitos eunucos por outros e alguns a si mesmos se fazem eunucos por causa do reino dos céus. Quem puder, que aceite isso.” (Mateus 19.10–12- NVT)

O Evangelho de Mateus pode ser chamado de Evangelho do Reino. As ideias e fundamentos acerca do Reino de Deus estão expressas neste livro, que visa mostrar como Jesus é o Filho de Deus e veio para inaugurar o seu Reino. No capítulo 19, encontramos Jesus na região da Judeia, a leste do Rio Jordão, quando um grupo de fariseus aparece para questionar maliciosamente o mestre se um homem pode se divorciar de uma mulher por qualquer motivo. O resumo desse diálogo entre Jesus e os fariseus é que o coração duro dos fariseus não consegue compreender a Lei: “E eu lhes digo o seguinte: quem se divorciar de sua esposa, o que só poderá fazer em caso de imoralidade, e se casar com outra, cometerá adultério”. (Mateus 19.9 — NVT) É aí que nosso texto, ali em cima, entra.

O termo que destacamos em nosso texto é o “eunuco”. Jesus apresenta aqui três categorias de eunucos. A primeira, os que nascem eunucos, ou seja, aqueles que nascem sem o órgão sexual. A segunda, os que foram tornados eunucos por outros, castrados por outras pessoas. Geralmente funcionários de palácios e membros de estruturas administrativas ou religiosas. A terceira, Jesus toma o termo eunuco para fazer uso metafórico dele, referindo-se aos que escolhem calar seus desejos sexuais, mantendo-se celibatários. A estes terceiros, Jesus apresenta a causa de suas escolhas: por causa do Reino dos Céus.

Dentro do cenário em que nos dispomos a conversar neste artigo, os homoafetivos que tomam a decisão pelo celibato estão inclusos na terceira categoria dita por Jesus e, a nós, cristãos, não nos cabe julgar ou exigir que eles tenham posturas e ações similares aos heteronormativos que estão na mesma comunidade de fé. De igual modo, ainda dentro do nosso cenário e do contexto do texto, podemos apontar a primeira categoria de eunucos como sendo, metaforicamente, aquelas que nasceram sem desenvolver desejos sexuais, não apenas os que nasceram sem poder exercer tal prática. Ainda dentro de tudo que estamos conversando, podemos apontar, metaforicamente, os transexuais como sendo parte do grupo da segunda categoria dos eunucos.

Quando iniciei este livro, o subtítulo era “Um caminho possível: Mateus 19”. Quando sentei para escrevê-lo, fui impelido a trocar os dois pontos por uma interrogação. Seria de fato um caminho possível? O que mudou? Entre outras coisas fui confrontado pelos conteúdos pesquisados e lidos para a escrita deste curso e, muito particularmente, fui levado a uma canção de Trey Pearson que me fez parar para pensar.

Hey Jesus can you hear me out
I just want to love like everyone else
I was wonderin’ since you made me this way
Do you want me to fall in love?
To know what it’s like to love someone else
In the most intimate way
[11]

Numa tradução livre:

Hey, Jesus, você pode me ouvir
Eu só quero amar como todos amam
Estava pensando, já que me fez assim,
Você quer que eu me apaixone?
Para saber como é amar outra pessoa
De maneira mais íntima

Quando leio os Evangelhos, ao contrário das cartas do Novo Testamento, não encontro condenação à prática LGBTIA+. Jesus não abordou esse tema por ele não ser relevante em seu tempo? Não havia homossexuais nos tempos de Jesus? De certo que havia e estavam ali, circulando entre os judeus do Século I. Não apenas gentios, mas judeus homossexuais. O fato é que Jesus, o Mestre e Senhor de Paulo e João que condenaram a homossexualidade no Século I, nosso Senhor e mestre, não deu nenhuma palavra sobre o assunto. Vinte e um séculos depois, aqui estamos nós, Igreja do século XXI, tentando encontrar uma resposta para qual Jesus não fez questão de responder, de falar dela.

Quando eu observo o texto de Mateus 19 na perspectiva da abstinência sexual para homoafetivos, devo fazê-lo tão somente firmado na sentença de Jesus “alguns a si mesmos se fazem eunucos por causa do reino dos céus”. É correto que todos os homoafetivos que estejam na igreja sejam privados de um relacionamento amoroso? É humanamente possível arder o coração em busca de amor e afeto e se negar a tê-lo? Jesus não está falando, no texto, dos homossexuais, mas sim dos heteros que se fizeram eunucos. É digno negar o afeto genuíno e sincero de duas pessoas do mesmo sexo? Por que é tão difícil aceitar? Tantas perguntas com tão poucas respostas. Estamos caminhando para o final de nosso curso e, até agora, o que temos são mais perguntas que respostas. Está tudo bem, tudo dentro do cronograma que traçamos lá no primeiro encontro.

A abstinência sexual é um caminho possível aos homoafetivos? Sim, se a pessoa for vocacionada ao celibato, seja ela hetero ou homoafetivo. No entanto, a comunidade de fé terá que ter a maturidade de compreender que nem todo mundo foi feito para o casamento e que certas “brincadeiras inocentes”, de inocentes não têm nada e certos comentários sobre a intimidade de uma pessoa são inconvenientes. Muitos tratam desse assunto de maneira leviana e simplista. Não podemos reduzir os sentimentos e decisões de uma pessoa a padrões normativos que achamos ser os melhores. É preciso sabedoria. Por que é tão difícil aceitar? É sobre isso que falaremos em nosso próximo capítulo.

5. Por que é tão difícil aceitar?

Precisamos confessar nosso pecado da homofobia. O que torna a questão LGBTIA+ tão difícil que as igrejas não conseguem aceitar quem não é heteronormativo? São muitas as respostas a essa pergunta e eu quero aqui lançar luz sobre algumas que considero relevante.

5.1. Desconhecimento

Uma das maiores dificuldades é abordar essa temática nas comunidades de fé sem o viés discriminatório. No entanto, o objetivo deveria ser olhar para as questões sexuais e de afeto saindo da norma estabelecida há pelo menos dois séculos e olhando para as relações familiares e amorosas numa perspectiva mais bíblica do que social conservadora. Explico: a maneira como a imensa maioria das igrejas cristãs concebe estrutura familiar é um modelo da era vitoriana, baseada num padrão que não é comum na Bíblia. Pense rapidamente: com exceção de José, Maria, Jesus e seus irmãos, que outra família “padrão” você encontra nas escrituras? Agora pense nas estruturas familiares diferentes. Todos os patriarcas foram poligâmicos. Temos o relato de inúmeros profetas que, aparentemente, foram celibatários.

No Novo Testamento encontramos uma família de irmãos, Marta, Maria e Lázaro, com a irmã mais velha como chefe da casa, caso contrário, o nome de Lázaro ou Maria viria primeiro. Temos ainda uma família de avó, mãe e filho: Loide, Eunice e Timóteo. Esses são alguns exemplos de como o que nos foi entregue como norma na verdade é um padrão, que pode ou não existir e pode ou não ser realidade.

Precisamos romper com a norma e entender que é um modelo padrão, mas não o único. Existem outros e eles são bíblicos. O conceito que temos como padrão familiar determina, e muito, a visão que construímos de relações afetivas e do que é ou não aceitável para nós enquanto igreja. Este modelo imposto torna a possibilidade de inclusão e celebração mais difícil.

5.2. Terror injustificado

Ao longo das últimas três décadas fomos bombardeados com informações falsas que foram semeadas na igreja por pessoas de “moral ilibada”, porém com intenções questionáveis. A quem interessa semear falsidades como “se aprovar o casamento gay as igrejas serão obrigadas a celebrar as cerimônias”? Ou ainda “vão ensinar seus filhos a se tornarem gays na escola”? A resposta é uma só: interessa a quem quer manter o poder de manipular mentes e corações.

Onde há evangelho, ali há liberdade. Inclusive de pensamento. Você pode pensar, questionar e até mesmo se opor ao que seu pastor ou pastora ensina. Havendo respeito e diálogo, o evangelho está sempre aberto a ser perguntado, provado e experimentado. Contudo, não há razão para um terror injustificado direcionado à causa legítima do movimento LGBTIA+, em sua busca de direitos civis que deveriam ser naturalmente concedidos.

5.3. Transformar primeiro

Outra grande dificuldade que os cristãos enfrentam é que, geralmente, quando envolve questões de gênero, a comunidade quer primeiro transformar a pessoa para depois acolher. Este é um princípio antibíblico. Em nenhum texto dos Evangelhos lemos sobre Jesus primeiro transformando o pecador e depois acolhendo. Ele acolhe primeiro e a transformação vem com o tempo. Para alguns é mais rápida, para outros mais demorada. Para Zaqueu, foi num encontro, após ouvir os ensinos do mestre, que ele teve sua mente transformada e deixou de ser um explorador para ser uma pessoa generosa. Fico imaginando o quão difícil deve ter sido para ele cumprir o voto que fez perante Jesus e os demais.

Já para o apóstolo Pedro, levou cerca de três anos de convivência diária com o Mestre para compreender, após a morte e ressurreição de Jesus, o que é ser discípulo. E levou mais um bocado de tempo para ele entender que o Evangelho é para toda humanidade, e não apenas para os judeus. Foi preciso uma visão dos céus. E ainda encontramos tantos outros exemplos, como o de Paulo, que declarou publicamente em uma carta que conviveu com seu pecado o tempo todo, o famoso “espinho na carne” (2 Coríntios 12.7), presente e sem restauração, para que ele compreendesse que “minha graça te basta” (2 Coríntios 12.9). O evangelho da transformação está distante de ser o evangelho de Jesus Cristo. A transformação é uma consequência, não a razão de ser do evangelho.

5.4. Por que é tão difícil aceitar?

A resposta é simples: porque somos preconceituosos. Ninguém gosta de admitir. “Tenho até amigos que são” é a pior resposta à constatação de que fazemos sim diferenciação de pessoas. Pior, diferenciamos o que é ou não pecado e, sendo pecado, os tipos de pecado. Somos homofóbicos e precisamos confessar esse pecado. Homofobia é pecado. Aliás, uma legião de pecados: acepção de pessoas, julgamento condenatório, rebaixamento da condição humana, achar-se superior. Isso apenas para listar alguns.

Aceitar significa dar dignidade, reconhecer que o outro é igual a você. Seja você hétero ou não, você é pecador. Acontece que a teologia da transformação leva a igreja a concluir que não há pecado nos crentes. Uma mentira. Todos somos pecadores e, imperfeitos, somos chamados a viver sob a graça de Deus. Quem somos nós para dizer não aos que Jesus diz sim?

Vimos por que é tão difícil aceitar, então, o que podemos fazer? Isso veremos no próximo capítulo.

6. O que podemos fazer?

Quais os passos para mudar a relação da igreja com o movimento LGBTIA+? Não é difícil constatar que há muitos erros na relação entre a Igreja e a comunidade LGBTIA+. Erros de ambos os lados. É preciso reconhecer os erros para que haja perdão e aproximação. Nossas diferenças não devem jamais ser motivo para o afastamento um do outro, mas sim a razão de nossa aproximação.

Fico feliz em chegar aqui com muito mais perguntas que respostas. Respostas são pontos finais, perguntas são caminhos a serem trilhados. Respostas são, geralmente, “imexíveis”. Perguntas são a expressão da fé: certeza do que não se vê. Se não vemos, como podemos ter certeza? Perguntando, agindo pela fé.

Precisamos trilhar o caminho das perguntas. Ter a coragem de fazê-las. Não podemos mais cair no discurso mentiroso de quem quer manipular a Igreja de Cristo a agir de maneira homofóbica. Por isso apresento a seguir três atitudes que nos aproximarão da população LGBTIA+. Com certeza existem outras, e convido você a me dizer quais faltaram nessa lista.

6.1. Aceitar e entender

Aceitar é pré-requisito para qualquer relação. Aceitar quem a pessoa é, em qualquer situação, é o primeiro passo para nos relacionarmos com ela. Se você deseja construir uma amizade sincera com alguém, você precisa ser aceito e aceitar essa pessoa. Jesus agiu assim. Ele primeiro aceita Nicodemus, Zaqueu, Levi, Pedro, todos do jeito que estão e no momento de vida em que se encontram.

Exigir mudança antes de caminhar ao lado da pessoa é fechar as portas para a construção de uma amizade. Você pode ter argumentos para ser contra a homoafetividade? Pode, mas guarde-os para si e peça a Deus sabedoria e discernimento para aceitar a pessoa como ela é. Jesus tinha todo o poder nas mãos para fulminar seus adversários e os pecadores que se aproximavam dEle, mas Ele agiu com misericórdia.

Uma vez que você aceita a pessoa como ela é, você pode procurar entender sua forma de viver. Não se trata de estabelecer um interrogatório. Diz respeito a se aproximar e caminhar ao lado, procurando entender como ela age nas mais diversas situações e quais as maneiras que podemos contribuir para que o Evangelho de Jesus seja vivenciado por ela. Entender passa por reconhecer que somos iguais. Todos pecamos. O pecado é passado, está na cruz. O presente é perdão, reconciliação e acolhimento. O presente é Jesus.

6.2. Acolher

Acolher é mais que aceitar e entender, é permitir que a pessoa faça parte de nossa vida. É repetir o gesto de Jesus com as crianças. Deixar vir a nós os pequeninos. A caminha de vida de um LGBTIA+ numa sociedade estruturalmente machista já é dolorosa por demais para colocarmos peso extra em suas mentes e corações. Seja amigo ou amiga. Aproxime-se, permita que a outra pessoa encontre em você um lugar de confiança e partilha. Somente assim podemos entender e acolher de fato a pessoa LGBTIA+ em nossas comunidades.

6.3. Dar voz e espaço

Precisamos ainda romper com o preconceito e entender que a pessoa é como é. Isso significa dar voz e espaço a todos em nossa comunidade. Não permitir que a homofobia seja presente. É preciso respeitar. Para isso é preciso olhar, ouvir, deixar falar, calarmos nossos argumentos e darmos espaço para que a pessoa LGBTIA+ se manifeste e se sinta segura em nossa comunidade.

Abrir esse espaço significa incluí-la em ministérios e atividades da Igreja? Por que não? Se trabalharmos com a comunidade, se procurarmos um caminho viável de diálogo, aceitação, entendimento e acolhimento, não vejo por que não. Mas isso requer maturidade cristã da nossa parte, em compreender que o diferente é diferente, que somos todos pecadores e dependentes da graça e misericórdia de Deus.

Conclusão: Incluir e celebrar

Como ser corpo de Cristo com pessoas LGBTIA+ na comunidade? A resposta simples para a pergunta é: como se é com todo mundo que faz parte de nossa igreja. Só que esta resposta é simples e ao mesmo tempo complexa. Conforme vimos ao longo de todo livro até aqui, há uma extensa jornada na construção do que é ser Igreja e o que é ser uma comunidade sem preconceitos. O que proponho aqui é uma caminhada de construção comunitária.

Um passo de cada vez

A melhor maneira de se quebrar preconceitos é enfrentando o preconceituoso que habita em nós. Precisamos reconhecer que não apenas a homofobia, mas também o machismo, o sexismo e tantos outros pecados fazem parte da construção de uma identidade eclesiástica que nada tem a ver com o Evangelho de Jesus Cristo. O convite do evangelho é para que todos venham e se juntem à mesa, participem da vida que só Jesus pode dar.

Buscar reconhecer o próprio pecado é um exercício que todo cristão deve praticar. Não deveria nem haver instrução quanto a isso pois, ser cristão é ser um pecador em constante arrependimento. Para tal, é preciso compreender que só é possível o rompimento com práticas pecaminosas quando as reconhecemos em nós. Por isso, é urgente a necessidade de parar com comentários, fofocas e reclamações que separam pessoas em lugar de promover a reconciliação e a fraternidade.

Além de enxergar nosso pecado, é preciso buscar o vínculo da paz. Existem questões para as quais nós não temos respostas. Quem pode dizer qual tipo de batismo é o correto? Batistas, Romanos, Presbiterianos, Luteranos, Pentecostais, cada um tem uma teologia e uma forma de pensar e exercer o batismo. Se em questões cruciais da teologia, que envolvem compreensões como salvação e Reino de Deus, somos diferentes, o que nos impede de continuarmos sem respostas para algumas dúvidas que se colocam diante de nós?

A dúvida conduz ao questionamento, o questionamento à reflexão, a reflexão à construção comunitária do que é ser igreja. Esse é o temor de quem manipula comunidades ao invés de conduzi-las nos caminhos do Evangelho. Buscar o vínculo da paz é justamente reconhecer que não teremos respostas para perguntas complexas e até para as simples. Ainda assim, continuaremos caminhando unidos, sem ninguém ficar de fora, já que o Evangelho é o convite para a inclusão dos que são rejeitados pelos poderes deste mundo e a celebração da vida com o Senhor da vida.

Incluir

Uma vez que reconhecemos nossos pecados e avaliamos nossas vidas, buscando o vínculo da paz, podemos chegar à compreensão de que o outro possui sua identidade e ela é importante para ele e para nós. Unidade não é identidade. A Trindade Santa são três identidades — Pai, Filho e Espírito Santo — em perfeita unidade. A igreja de Cristo são diversas identidades — você, eu e um tanto de gente — em unidade uns com os outros e com a Trindade Santa.

Respeitando a identidade, podemos valorizar os dons e talentos daqueles que se aproximam da comunidade. Ensino, diaconia, pregação, recepção, música… Quais são as áreas da sua igreja que carecem de pessoas para servir? Em todas elas cabe alguém vocacionado por Deus, chamados conforme sua identidade, para servir, com sua identidade, ao Senhor e Salvador da Igreja.

Celebrar

Uma vez incluído no Corpo de Cristo, membro ativo e atuante da comunidade, cada cristão é chamado a celebrar. Celebramos a união em Cristo Jesus. É o que fazemos quando cultuamos, dividimos um prato de comida, repartimos nossa roupa com o necessitado ou atendemos a causa do órfão e da viúva.

A celebração como comunidade só é possível quando eu reconheço que a pessoa com quem divido o espaço que chamamos de templo é tão indigna quanto eu de estar ali, mas que pelo sangue do Cordeiro de Deus, temos a liberdade de nos ajuntarmos.

Temos a falsa ideia de que a Igreja é um lugar de pessoas que pensam exatamente igual, com as mesmas ideias e atitudes. Não, a igreja é lugar de celebração da diversidade, onde os diferentes se unem, com suas identidades diferentes, para formar um Corpo que luta e serve ao Senhor da Igreja. Em nossas comunidades somos todos sujeitos ao Rei de Amor, que nos liberta das prisões da alma, do corpo e da mente e nos garante vida em abundância.

Concluindo

Trilhamos um caminho de escavação e reconhecimento do texto bíblico acerca das questões homoafetivas. Procuramos mostrar que não devemos anular a identidade, mas sim aceitar e entender que os homoafetivos fazem parte da humanidade e são reféns do pecado e carentes da graça libertadora de Jesus Cristo, tal qual os heteronormativos.

Procuramos mostrar que não estamos preocupados em converter da prática homoafetiva, mas sim em reconhecer que eles existem, possuem uma identidade e fazem parte do Corpo de Cristo. Há um longo e difícil caminho pela frente. Não podemos mais afastar e estigmatizar pessoas que são filhas e filhos de nossas comunidades de fé. É preciso agir como cristãos, ou seja, como Jesus nos ensina a agir.

É preciso entender e acolher. Transformação? Mudança? Deixa que o Espírito Santo se encarregue disso. Nós fazemos nossa parte: entender e acolher, ensinando-os a guardar tudo quanto Jesus nos tem ensinado em nossa jornada.

[1] Todo esse parágrafo é fruto da leitura do artigo “Gênero, o que é isso?”, de Maria Eunice Figueiredo Guedes, consultado em 29 de julho de 2020: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98931995000100002

[2] Para uma lista bem completa de gêneros, recomendo o perfil @termos no Mastodon: https://colorid.es/@termos

[3] Fonte: http://ow.ly/FqnB30apdMu

[4] https://open.spotify.com/episode/7JTK0c0jZxorQhegyKwSET?si=o9kybYJbQq6e1Ol20jLf8g

[5] https://livinvinil.wordpress.com/2020/02/29/lados/

[6] Livre tradução da imagem original publicada pelo Conflictu Podcast através do endereço: https://uploaddeimagens.com.br/imagens/whatsapp_image_2020-03-19_at_14-34-31-jpeg, acessado em 08/10/21.

[7] Fonte: https://brasil.un.org/pt-br/110425-brasil-e-o-pais-que-mais-mata-travestis-e-pessoas-trans-no-mundo-alerta-relatorio-da, acessado em 08/10/21.

[8] Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2019-05/mais-de-70-da-violencia-sexual-contra-criancas-ocorre-dentro-de, acessado em 08/10/21.

[9] J.-L Leuba, em Vocabulário Bíblico, ASTE, verbete Lei.

[10] Ibid

[11] Você pode ouvir a canção completa aqui — https://youtu.be/5im_tBINf80.

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Giovanni Alecrim

Giovanni Alecrim

Aprendendo com Jesus a leveza de viver. Pastor apaixonado pela Bíblia e as áreas de conhecimento que a cercam | giovannialecrim.com.br

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