O que diz a Bíblia: Juízes 19

Giovanni Alecrim
Sep 9 · 5 min read

Toda perversidade conduz à morte, independente do gênero da pessoa

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Evoco aqui o trecho do curso Panorama da História de Israel, para mostrar o contexto de Juízes 19:

Naqueles dias, Israel não tinha rei. Esta sentença aparece quatro vezes no livro de Juízes, todas elas após a história de Sansão, já no final do livro. O período dos Juízes não deve ser interpretado como de um governo jurídico, mas sim, no sentido de que o Juiz era alguém que exercia o poder que era conferido por Javé. Ao longo do relato não vemos muito laços entre as tribos. É constante a sentença Os filhos de Israel fizeram o que era mau aos olhos de Javé, e ele os entregou nas mãos dos…”, o que revela que o Juiz era, em última análise, alguém levantado pelo Espírito do Senhor para conduzir o povo ao caminho bom diante de Javé. O livro se concentra em combater os cultos cananeus, muito mais que em prover um relato histórico.

Estruturalmente falando, a sociedade era composta pela “bet-’ab” — a casa do pai — que englobava o avô, os filhos e os netos, todos com as respectivas famílias, na qual se acrescentam os parentes próximos e os servos. Basicamente uma estrutura patriarcal. O conjunto de famílias, vinculadas entre si por algum grau de parentesco, formavam os clãs. Os clãs que viviam num determinado território formavam a tribo, uma entidade independente, ligada às demais tribos por um elemento único unificador, no caso de Israel, Javé. A presença das tribos de Israel em Canaã vai gerar uma série de conflitos que, com o tempo, causarão desgastes e levarão às doze tribos a se unirem no surgimento de uma monarquia.

É essa estrutura que permeia Juízes 19, que não pode ser lido em separado da sua consequência, o capítulo 20, onde eclode a guerra. Os acontecimentos do capítulo 19 são profundamente marcantes. Um homem, levita, tomou como amante uma mulher de Belém de Judá. No entanto, a relação não foi lá muito bem e ela votou para casa de seus pais. Depois de cerca de quatro meses, o marido vai para Belém, com intuito de trazê-la de volta. O pai da moça ficou feliz com a visita e o segurou por cinco dias, e então, ele partiu com sua mulher de volta para sua casa, em Efraim. Quando estavam perto de Jebus, o servo daquele homem insistiu para que não entrassem na cidade. Seguiram para Gibeá. Lá, não sendo hospedados por ninguém, se alojaram na praça. No cair da noite, um senhor de idade, voltando do campo, os viu e, compadecido e temeroso pelo que poderia acontecer aos forasteiros, os acolhe em sua casa. No meio da noite, enquanto todos se alegravam na casa, homens da cidade vieram para abusar dos homens que entraram na cidade. Resistindo, o senhor de idade e o homem de Efraim colocaram para fora a concubina, que foi abusada a noite toda e jogada, após o terror, na porta da casa onde estivera hospedada. De manhã, o homem a chamou, ela não respondeu, e ele a jogou em seu jumento e seguiram viagem até sua casa. Lá chegando, ele a cortou em doze pedaços e enviou um para cada tribo de Israel. O capítulo termina com uma sentença um tanto quanto enigmática: “Desde que os israelitas saíram do Egito, nunca se cometeu um crime tão horrível. Pensem bem! O que vamos fazer? Quem vai se pronunciar?”. Juízes 19.30

Explicar este capítulo é um exercício e tanto. Existem algumas pistas que nos ajudam a entender. O homem de Efraim, ao norte, que vive em Gibeá, é o único a hospedar os forasteiros. A ausência de hospitalidade com os viajantes é um dos sinais de que a sociedade daquela cidade estava com certa disfunção em relação aos seus vizinhos. O ar de perversidade com que é narrado o episódio do abuso contrasta com a alegria e festividade do sogro do viajante e do hospedeiro dos forasteiros. Todo esse cenário é construído para mostrar que havia grande tensão entre a tribo de Benjamim e as demais tribos de Israel. Uma tensão que levou à guerra. Pode-se dizer que, considerando que o narrado em Juízes 19 é fato, que o que aconteceu naquela noite em Gibeá foi a gota d’água de uma relação já conflituosa. Por outro lado, podemos interpretar como uma história contada para se demonstrar a imensa diferença das demais tribos em relação a Benjamim. Seja qual for o caminho que tomemos, o fato é que acabou em guerra.

Outro ponto interessante dessa narrativa, que corroboraria a tese de que é uma história contada posteriormente para fundamentar a guerra, é sua semelhança com Gênesis 19:

  • Viajantes chegam a uma cidade
  • Estão na praça esperando por hospitalidade
  • Um morador, que não é nativo da cidade, os acolhe
  • Os homens da cidade querem ter relações com os estrangeiros
  • Mulheres são oferecidas em troca
  • Em Gênesis, a intervenção divina salva a casa; em Juízes, a mão do homem leva à atrocidade
  • No fim, o que resta é destruição (Gênesis) e guerra (Juízes)

Tais semelhanças, com certeza, não são intencionais. Somam-se a elas a ausência de nomes e indicações, além das tribais. O relato quer revelar, aos leitores mais atentos, como Javé age diante da atrocidade.

Olhando para a temática de nossos estudos, o que percebemos é que este texto é usado como justificativa de maneira um tanto equivocada. O centro dele não é a questão da relação homossexual, que aqui, é um dos muitos sintomas de uma sociedade perversa, a ponto de fazer o que fez com uma mulher. Juízes 19, portanto, condena a prática homossexual na perspectiva que a apresenta como sintoma de uma sociedade doentia. E o cristianismo? O cristianismo tem tomado rumos diversos nessa discussão. Da aceitação total a rejeição total. Os evangelhos não tratam desse tema diretamente. Quem o aborda são Paulo e João, no Apocalipse. Optamos pela via paulina para interpretar o assunto no Novo Testamento. A exclusão de Apocalipse se justifica por ser repetição das condenações paulinas. É o que veremos no próximo encontro.


O presente texto foi escrito para a aula de Escola Bíblica da , São Paulo, SP, em 9 de setembro de 2020


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