Por que é tão difícil aceitar?

Giovanni Alecrim
Oct 17 · 4 min read

Precisamos confessar nosso pecado da homofobia

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O que torna a questão LGBT tão difícil que as igrejas têm dificuldade em aceitar quem não é heteronormativo? São muitas as respostas a essa pergunta e eu quero aqui lançar luz sobre algumas que considero relevante

Desconhecimento

Uma das maiores dificuldades é abordar essa temática nas comunidades de fé sem o viés discriminatório. Olhar para as questões sexuais e de afeto saindo da norma estabelecida há pelo menos dois séculos e olhando para as relações familiares e amorosas numa perspectiva mais bíblica do que social conservadora. Explico: a maneira como a imensa maioria das igrejas cristãs concebe estrutura familiar é um modelo da era vitoriana, baseada num padrão que não é comum na Bíblia. Pense rapidamente: com exceção de José, Maria, Jesus e seus irmãos, que outra família “padrão” você encontra nas escrituras? Agora pense nas estruturas familiares diferentes. Todos os patriarcas foram poligâmicos. Temos o relato de inúmeros profetas que, aparentemente, foram celibatários. No Novo Testamento encontramos uma família de irmãos, Marta, Maria e Lázaro. Com a irmã mais velha como chefe da casa, caso contrário, o nome de Lázaro ou Maria viria primeiro. Temos ainda uma família de vó, mãe e filho: Loide, Eunice e Timóteo. Esses são alguns exemplos de como o que nos foi entregue como norma, na verdade é um padrão, que pode ou não existir e pode ou não ser realidade. Precisamos romper com a norma e entender que é um modelo padrão, mas não o único, existem outros e eles são bíblicos. O conceito que temos como norma de padrão familiar determina, e muito, na visão que construímos de relações afetivas e o que é ou não aceitável para nós enquanto igreja.

Terror injustificado

Ao longo das últimas três décadas fomos bombardeados com informações falsas que foram semeadas na igreja por pessoas de “moral ilibada”, porém com intenções questionáveis. A quem interessa semear falsidades como “se aprovar o casamento gay as igrejas serão obrigadas a celebrar as cerimônias”? Ou ainda “vão ensinar seus filhos a serem gay na escola”? A resposta é uma só: interessa a quem quer manter o poder de manipular mentes e corações. Onde há evangelho, ali há liberdade. Inclusive de pensamento. Você pode pensar, questionar e até mesmo se opor ao que seu pastor ou pastora ensina. Havendo respeito e diálogo, o evangelho está sempre aberto a ser perguntado, provado e experimentado. O que não há é razão para um terror injustificado por conta de uma causa legítima do movimento LGBT em buscar direitos civis que deveriam ser naturalmente concedidos, e não ter que lutar por eles

Transformar primeiro

Outra grande dificuldade que os cristãos enfrentam é que, geralmente, quando envolve questões de gênero, a comunidade quer primeiro transformar a pessoa para depois acolher. Este é um princípio antibíblico. Em nenhum texto dos Evangelhos lemos sobre Jesus primeiro transformando o pecador e depois acolhendo. Ele acolhe primeiro e a transformação vem com o tempo. Para alguns é mais rápida, para outros, mais demorada. Para Zaqueu, foi num encontro, após ouvir os ensinos do mestre, que ele teve sua mente transformada e deixou de ser um explorador para ser uma pessoa generosa. Fico imaginando o quão difícil deve ter sido para ele cumprir o voto que fez perante Jesus e os demais. Já, para o apóstolo Pedro, levou cerca de três anos de convivência diária com o Mestre para compreender, após a morte e ressurreição, o que é ser discípulo. E levou mais um bocado de tempo para ele entender que o Evangelho é para toda humanidade, e não apenas para os judeus. Foi preciso uma visão dos céus!

Por que é tão difícil aceitar?

A resposta é simples: porque somos preconceituosos. Ninguém gosta de admitir. “Tenho até amigos que são” é a pior resposta à constatação de que fazemos sim diferenciação de pessoas. Pior, diferenciamos o que é ou não pecado e, sendo pecado, os categorias de pecado. Somos homofóbicos e precisamos confessar esse pecado. Homofobia é pecado. Aliás, uma legião de pecados: acepção de pessoas, julgamento condenatório, rebaixamento da condição humana, se achar superior. Isso apenas para listar alguns. Ok. Vimos por que é tão difícil aceitar, então, o que podemos fazer? Isso veremos na próxima aula.

O presente texto foi escrito para a aula de Escola Bíblica da Igreja Presbiteriana Independente de Tucuruvi, São Paulo, SP, em 17 de outubro de 2020

Índice das aulas

O índice é atualizado no artigo da primeira lição.

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Giovanni Alecrim

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💻 Escritor | ✝️ Pastor | 🖥️ Design | Mais informações: https://cafecomalecrim.com.br

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