Reconhecido internacionalmente

Giovanni Alecrim
Dec 31, 2020 · 8 min read

Lições da Epifania para nós

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Se existe algo que em nossos dias é um desejo de muitos, é o de ser reconhecido pelo que faz. Se o reconhecimento for nacional, melhor ainda. Se for internacional então, nem se fala. Pessoas fazem loucuras por isso. Outras “dão sorte”. Outras, ainda, pagam um preço caro para tal. As redes sociais estão aí, inflando nossos egos e nos jogando na cara o sucesso de todos para que tenhamos inveja e desejemos o sucesso também.

Reconhecimento é algo que desejamos, mas ele chegou inesperadamente na pousada onde um casal se encontrava, em Belém da Judeia. Vamos ler Mateus 2.1–12 para ver essa história.

O texto de Mateus 2.1–12 é um prenúncio do que Jesus enfrentaria em seu ministério. Ousaria apontar ser um resumo de sua vida. Digo isso, pois nele encontramos referências ao Primeiro Testamento, o desejo de adorar e reconhecer Jesus como Rei, o reconhecimento por parte de pessoas de fora de Israel, o desejo de matar Jesus, intervenção divina em momento propício, o nome “Rei dos Judeus” dito pelos viajantes e posteriormente posto na cruz. Todos esses elementos, como vemos, perseguem Jesus desde o início de sua vida.

Erroneamente, muitos pensam que os fatos narrados em Mateus 2 aconteceram na mesma noite que a visita dos pastores. Não, há um intervalo de ao menos dois anos entre um e outro. Por isso a igreja reserva, em sua história e tradição, um dia para celebrar os três viajantes vindos do oriente, o Dia de Santos Reis, Epifania, entendimento, revelação do significado do que acaba de acontecer. Mas quem eram eles? Reis, magos, sábios, astrólogos? Com exceção de “reis”, creio que todas se encaixem para definir o termo grego “μάγοι”. Nesse sentido, gosto da tradução Nova Versão Transformadora, que usa “sábios da terra do Oriente”

Aliás, bem curioso o fato de grafar “Oriente” aqui com inicial maiúscula, não? Isso se dá pelo entendimento que o termo grego “ἀνατολῇ” deva ser entendido como o local de onde eles vieram, e foi de onde saiu a estrela, ela veio do Oriente em direção ao ocidente, guiando sábios de uma terra distante para adorarem Jesus. Onde no Oriente? Aqui vamos ter que entender que a astronomia e a astrologia caminhavam juntas, e, vejam só, astrólogos observando as estrelas encontram nela uma direção que bate com escritos antigos que eles possuíam. Quem dominava bem tal técnica era os Babilônios. É muito provável que os sábios babilônios, tendo tido contato com o conhecimento e cultura hebreia, consigam olhar para o texto do Primeiro Testamento e identificar ali a curiosa estrela que lhes aparece no céu. Que impressionante, a nação que levou Judá para o exílio consegue entender o que estava acontecendo. A profecia acerca do rei dos Judeus se cumpriu!

Eles então viajam para Jerusalém e, chegando lá, se deparam com o fato de que ninguém estava sabendo de nada. Como assim? Quem é esse rei? Que profecias? Havia medo no ar e não podia ser diferente. Herodes, o Grande, poderia muito bem ter entrado para a história como Herodes, o cruel. A matança que este idumeu, nomeado e protegido pelo Senado Romano, impôs a Jerusalém para “apaziguá-la” foi tão marcante que ele passou a ser profundamente temido. Tendo destronado os Macabeus, retirado um hebreu do trono de Jerusalém, Herodes tornou-se poderoso, a ponto de enviar o último rei Macabeu para morrer nas mãos de Roma.

Com esse temor do povo, não seria nada difícil algum cidadão de Jerusalém ter dito aos viajantes: pergunta lá no Palácio de Herodes. E aqui entra em cena a diplomacia da época. Sábios de uma terra distante se apresentam como uma comitiva e indagam ao rei sobre o nascimento do Rei dos Judeus. É interessante como o relato de Mateus diz que não apenas Herodes ficou perturbado, mas também todo o povo de Jerusalém. O nascimento era uma ameaça para ambos. Para Herodes, poder dos deuses envolvido no nascimento de um rei significaria sua morte. Para o povo de Jerusalém, o medo de que Herodes promovesse uma nova matança, dessa vez em busca da criança.

É esse temor que leva Herodes a reunir os principais sacerdotes e os mestres da lei. Aqui alguns acreditam que Herodes mandou reunir o Sinédrio. Não sei se podemos cravar que foi mesmo, mas podemos afirmar que sacerdotes e mestres da lei eram os detentores da religião judaica e foram os principais adversários de Jesus em sua jornada. São eles que vão evocar os textos de Miqueias e 2 Samuel para afirmar que era de Belém que viria o governante, o descendente de Davi. Ao ouvir a conclusão dos mestres da religião, Herodes manda chamar os magos e indaga quando surgiu a estrela no céu. Por quê? Para ter uma ideia da idade da criança. É o que vai levar o rei, mais pra frente, a matar as crianças abaixo de dois anos na cidade de Belém. Herodes estava se cercando de possibilidades. E ele não deixa de demonstrar sua astúcia e gentileza, pedindo aos viajantes que passem novamente, na volta, pelo palácio, para dar a localização exata da criança.

Assim, partem do palácio, os três viajantes. Provavelmente era o entardecer de mais um dia, pois avistam a estrela no céu e a seguem. Ao chegar na casa, viram o menino com a mãe e se prostraram e adoraram. Você sabe o que é se prostrar? Ajoelhar e colocar a testa na terra, no chão. Tal postura indicava submissão absoluta. Após se prostrarem, entregam seus presentes: ouro incenso e mirra. Aqui precisamos viajar pela história e tradição da Igreja. Gaspar, Melquior e Baltazar é o nome dado aos três viajantes pela tradição, por volta do século VIII. Antes disso, porém, os Pais da Igreja apontaram que o ouro simboliza a realeza de Jesus, o incenso a presença da divindade digna de ser cultuada e a mirra, vejam só, além de possuir um gosto amargo, ela era usada em incensos para celebrações fúnebres. Interessante pensar nesse simbolismo: a realeza, o culto a morte. Por fim, ao saírem dali, os três viajantes são advertidos por Deus a não passarem por Jerusalém, e seguem por outro caminho.

Conclusão

O que podemos aprender para nós, no século XXI, num mundo pandêmico, sobre esse episódio da epifania? Separei quatro lições para nós:

  • A crueldade nos ronda, mas não somos obrigados a nos rendermos a ela. Os viajantes não fizeram o jogo do palácio, seguiram adiante, sem se renderem aos apelos do poder. Há muita crueldade ao nosso redor e, por mais absurdo que seja, nos acostumamos a ela. O caos que é a pobreza na nossa cidade, as populações em situação de rua, os que moram em barracos de papelão na cidade mais rica do país. Os que pensam só em si mesmos, sem se importar com os outros. Os que não conseguem ver além do próprio desejo e não são capazes de enfrentar as dificuldades e conviver com as diferenças.
  • A salvação é para todos, não para um grupo exclusivo. Você imagina uma pessoa lendo o horóscopo e chegando a Jesus? E alguém lendo um texto não religioso, de sabedoria, e chegando a Jesus? Os viajantes não eram judeus, mas reconheceram e se submeteram ao Rei dos Judeus. Ao longo de seu ministério, Jesus vai apontar para uma mulher siro fenícia como exemplo de fé, sem igual em todo Israel. Aprendemos, por sermos Reformados Calvinistas, que somos predestinados. O interessante é ler João Calvino e encontrar nele expressões que apontam para o entendimento de que a predestinação é para vivermos em Cristo Jesus, não uma separação de pessoas. O discurso sectarista de alguns setores que se dizem calvinista em nossa nação é puro preconceito. Cristo nos chamou para viver sua vontade. A salvação é pela graça, não pela igreja que você frequenta. Não somos chamados a converter pessoas, somos chamados a proclamar o evangelho, é bem diferente. Conversão é um processo conduzido pelo Espírito Santo.
  • Quem adora o Filho de Deus não se associa com assassinos cruéis. A postura dos viajantes em obedecer à ordem de Deus e não voltar para o palácio revela que eles, divinamente advertidos da maldade de Herodes, não poderiam se associar e colaborar com a maldade de um assassino. De igual modo, em nossos dias, muitos têm se levantado contra a postura assassina e cruel dos poderosos. São chamados de “comunistas”, “esquerditas”, “ditadores”, mas não são nada disso. Muitos sequer possuem preferência política, vivem o Evangelho e denunciam as injustiças. São os que o livro de Hebreus se refere: “Alguns foram alvo de zombaria e açoites, e outros, acorrentados em prisões. Alguns morreram apedrejados, outros foram serrados ao meio, e outros ainda, mortos à espada. Alguns andavam vestidos com peles de ovelhas e cabras, necessitados, afligidos e maltratados. Este mundo não era digno deles. Vagaram por desertos e montes, escondendo-se em cavernas e buracos na terra” (Hebreus 11.36–38). A maldita dicotomia política semeada entre nós, cristãos, só fez com que os bons se escondessem nos buracos e cavernas da vida e, ao saírem, serem perseguidos por aqueles a quem um dia chamaram de irmãos.
  • Pare de buscar reconhecimento público, busque Jesus. Mas saiba que isso vai te custar enfrentar os poderes deste mundo, que transformam Jesus em mercadoria, que preferem salvar a economia a salvar vidas, que pensam nas liberdades individuais e não amam o próximo como a si mesmos.

Quanta lição podemos tirar de um episódio tão rico como esse. A visita de estrangeiros em Judá, que reconhecem como Rei uma pessoa que não era de seu povo. Que contraste com Herodes, que não era Judeu, e foi imposto por Roma a Jerusalém. Não aceite a imposição de poderosos sobre sua vida, saiba quem é o seu Rei e Senhor. Não há outro nome que não o de Jesus para governar nossa vida. Ele não precisa de intermediários. Nem eu, nem nenhum outro pastor ou pastora, muito menos os que transitam nas esferas de poder deste mundo tenebroso e cruel em que estamos vivendo. Reconheça a realeza, a divindade e o sacrifício de Jesus, pois ele é o Nosso Senhor e Salvador!

Texto adaptado do sermão pregado em 3 de janeiro na Igreja Presbiteriana Independente de Tucuruvi

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