De rolê pelo Itaquerão
Minhas impressões sobre o time que torço e o estádio que eu nunca chamarei de Arena.
Eu me lembro de quando me tornei corintiano. Foi em uma tarde de 1998. Eu tinha 9 ou 10 anos e havia acabado de começar a acompanhar o Brasileirão. O Corinthians, em especial. Um dia, minha prima de visita pela nossa casa perguntou para qual time eu torcia, não hesitei e respondi “Corinthians”. Minha mãe ainda tentou devolver a honra à família “Você não é palmeirense? Igual todo mundo aqui em casa”. Não sei ao certo o que respondi, mas sei que gastei longas semanas pensando se eu era ou não um vira-casaca. A verdade é que futebol nunca circulou muito em casa, por isso escolher ser palmeirense ou corintiano era um dos menores problemas. Mas como tradição brasileira sempre houve o time da família. Herança do meu avô, herdada por 95% dos meus primos e tios. Meu outro avô era corintiano, mas eu nunca o conheci (genética talvez?). Aquele time de 98 era foda, não tinha como não gostar. Era o que o Santos de Neymar foi para quem nasceu em 1998. Aliás, aquela época era foda, eu poderia ter me tornado torcedor de qualquer time, mas o Corinthians tinha algo a mais, sobre o qual eu só fui entender quando eu já era mais velho.
Nessa mesma época encontrei uma biografia do Che Guevara em casa, um livro laranja com um dizer em negrito na capa “Contém um pôster”. Não consigo parar de pensar que aquela bagaça deve ter colorido os sonhos de algum proto-socialista como o que eu fui me tornando. Acredito ter sido o do meu pai. Dessa forma, ser corintiano era apenas parte do processo, se identificar com a ideia de “time do povo”, “guerreiro”, “que não desiste” e tantos outros adjetivos era apenas um fim circunstancial para quem ia aos poucos admirando as ideias mais à esquerda. Também entendendo melhor a sociedade brasileira, sabendo que só aos trancos e barrancos essa barca anda. Para mim, torcer para um time do povo e briguento em campo, era apenas um passo em direção a entender melhor diversas coisas. A principal delas é de que Futebol é transgressão. Torcer para um time diferente do que esperavam era a primeira transgressão e foi por meio do futebol que eu entendi melhor o significado dessa palavra.
Fiquei mais velho, esqueci o futebol por um tempo. Fiquei ainda mais velho e me vi assistindo futebol de novo, mas aquelas ideias à esquerda não mais me cativavam tanto. O Corinthians, sim. Aos poucos me vi um corintiano, versado apenas pelo Corinthianismo, sem nenhuma ideia a sua margem esquerda (muito menos à direita). Por isso, vibrei muito mais com a mordida que o Emerson deu na mão do argentino na final da Libertadores, do que com os gols dele em si. Porra, a tal da transgressão, aquele espírito de time guerreiro que não baixa a cabeça nunca estava lá! Se materializando no campo de jogo, pondo pra foder todo mundo que falou qualquer coisa de errado sobre ele, em todos os níveis. E enquanto eu via àquele jogo, podia ver como a torcida sentia orgulho daquele time, era como um patrimônio pessoal, uma parte de ti que não fenece, que não descansa, que não pára.
Pelo menos não deveria.
Penso que é por isso, que tem cara que vai lá meter a bica em carro de jogador preguiçoso. Para ele o Corinthians é um pedaço de si, espaço confuso que se perde entre a sua existência e o que ocorre no campo de jogo. Às vezes deve ser foda separar o que é o jogador no campo e o que tem que acontecer, como se você-espectador soubesse o que tem que ser feito, mas quem precisa fazer não o sabe. Por isso, Alexandres Patos, Rogers Flores não sobrevivem a pressão que é um time como o Corinthians, eles jamais serão capazes de compreender essa dimensão que atravessa o campo de jogo e desemboca nos desejos de um cara que mora lá no fundão e pega quatro ônibus para ir pro trampo. Para esses caras vencer não é opção, é a única opção e, muitas vezes, é apenas pelo que ocorre no campo de jogo que ele consegue atingir a sensação de uma vitória, qualquer que seja ela. Eu mesmo demorei muito tempo para ter essa dimensão, justamente por ser um torcedor de classe média meia-boca.
Eu também demorei muito tempo para ir ao Pacaembu e demorei ainda mais tempo para me misturar à galera. É uma das paradas mais foda que existe. Ali juiz e bandido estão lado a lado e quando sai o gol todo mundo se abraça em uma eterna certeza de que um dia essa bagaça que a gente chama de sociedade vai funcionar. A camisa do Corinthians camufla qualquer ego, qualquer traço de classe, qualquer diferença que existe e todos trabalhamos em um conjunto para um fim único: torcer pelo Corinthians, na vitória e na derrota. Embora, naquele dia em específico xingar o Alexandre Pato era muito mais interessante.

O Pacaembu, como casa do Corinthians, era, em meu entendimento, um espaço de confluência, em que a proto-pseudo-aristocracia de São Paulo tinha de ceder o quintal para os maloqueiros da Zona Leste por pelo menos duas vezes por semana. Claro que eles não curtiam, por isso que era loco ver aquela par de corintiano comendo com pão com linguiça em plena praça Charles Miller. Era um tremendo de um foda-se à qualquer convenção social. Uma transgressão a qualquer regra que qualquer aristocrata pé no saco tentasse criar. O estádio refletia muito daquilo, com ingressos a no máximo R$70,00, deixava as classes mais altas na numerada coberta e o resto era todo do bando de louco. Alguém uma vez disse que o Corinthians é o maior experimento sociológico do Brasil. E penso que o Pacaembu era o Congresso desse experimento, em que a vontade da maioria sempre se fez valer sobre os poderosos. Nessa linha, tivemos um presidente do congresso com pinta de socialista democrático, que nos iria dar uma casa. Uma em casa, em Itaquera.
Andrés Sanchez recheou o time de títulos. Ele não. Mas sua atuação como gestor foi importante. Ele soube motivar e cativar dirigentes e um líder experiente e moderno, o Tite, que motivou uma equipe e isso tornou o Corinthians multi-campeão. Ser campeão da Libertadores abriu um espaço nos desejos de qualquer torcedor. Obviamente essa lacuna deu margem para a intransigência e nesse espaço Andrés se tornou uma espécie de porta-voz dos desejos corintianos. Desejos esses que passavam necessariamente pela construção de um estádio. São Paulo também precisava de um estádio para a Copa e o final dessa história todos nós sabemos.
Andrés manteve um discurso coerente, dizendo que o estádio não seria para a Copa e, sim, para o Corinthians e, por consequência, para os corintianos. Era o que qualquer corintiano esperava. Porém, quando a tabela de preços saiu, o que se viu foi uma elitização indiscriminada daquele espaço, com preços chegando a R$450. O dirigente completou dizendo que o Corinthians pretendia criar “áreas populares” . Puta contrassenso do caralho. O Corinthinas é um time popular, deveriam se criar áreas de elites, como era no Pacaembu. Ainda mais em Itaquera, uma das regiões mais pobres de São Paulo. Não precisa lembrar da contínua insistência do dirigente em dizer “Arena Corinthians”, a despeito de todos chamarem de “Itaquerão” ou, simplesmente, “Estádio do Corinthians”. Uma renegação de nossa história popular, de time de operários.
Aquele espetáculo da invasão dos maloqueiros no centro rico ia fenecer, acabar. Agora teríamos o espetáculo eterno e contínuo da invasão dos mais elitizados no espaço do mais pobres, ditando como deve ser, como deve funcionar, quem pode e não pode, como ser, o que vestir, a eterna cagação de regras. A falta de lógica só não poderia ser maior porque recentemente algum dirigente falou que o Corinthians é “o time do povo e não do povão”. Faltou a aula 1 de Corinthianismo, quando ele foi fundado por operários, a casta mais baixa da sociedade naquela época: sem direitos trabalhistas, eram como escravos de luxo. Esqueceu também de quando o Futebol só era jogado por ricos e brancos e o Corinthians transgredindo junto com outros times ajudou a torná-lo o esporte mais POPULAR do mundo. Sim, popular tem dois sentidos complementares. Fonte inesgotável de renda para dirigentes como esses. Além de ser uma mina de ouro para empresários que insistem em ir nas favelas buscar jogadores pobres com promessas de fortunas, embora muitos não atinjam nem a reserva de um grande time profissional.
Compro os ingressos de R$150 da ARENA CORINTHIANS com esses pensamentos recortando minha empolgação em ver o jogo e conhecer o estádio.
Nos últimos meses, o time vem jogando um futebol esquisito, quando está em casa põe muita pressão e um grande volume de jogo nos primeiros 25 minutos, após isso uma retranca muito bem armada, em duas linhas de 4, trazendo o time adversário para o seu campo e tentando sempre sair no contra-golpe, faz isso até os 30 minutos da segunda etapa, depois inicia-se a retomada de um grande volume de jogo nos 15 minutos finais. É uma tática estranha, diferente do que outros grandes times internacionais têm feito, mas que tem muita chance de sucesso. Principalmente, se ataque e defesa forem eficiente nos tempos em que precisam. A Alemanha usou uma tática parecida, fechando em duas linhas de 4 e deixado Schweinsteiger ou Khedira livre para marcar ou sair com a bola, sempre procurando Toni Kroos ou Özil, porém a linha era mais adiantada, ainda antes do meio de campo. Mas era Copa do Mundo, ser ofensivo, marcar e segurar o resultado era um diferencial, continuar marcando um diferencial ainda maior. O grande problema é que no Corinthians esse jogo é um saco, dá sono, ver o outro time toda hora perdendo a bola na intermediária e o ataque do Corinthians, não conseguindo dar o contra-golpe por um erro de passe, por um erro de posicionamento ou pela falta de uma melhor articulação da jogada.
Os ingressos são para o jogo contra o Sport, um time de veteranos e eternas promessas do Brasil, como Diego Souza e Ibson. O Corinthians mostra uma desenvoltura melhor, Renato Augusto consegue colocar a bola mais vezes na grama e fazê-la rolar até os companheiros, enquanto Paolo Guerrero inspiradíssimo saí da área, arruma, ajeita e sempre consegue encontrar um Malcolm ainda afobado ou um Renato Augusto já cansado para finalizar. O Sport procura muito Diego Souza, um jogador sem inspiração há muito tempo, violento, ele se irrita com a marcação que Bruno Henrique impõe e isso afeta muito a forma como Sport joga, fazendo o time ficar nervoso. No primeiro tempo fica evidente que qualquer jogada de bola parada vai levar risco ao Sport.
Isso acontece enquanto eu ainda estou impressionado com o espetáculo à parte que é o estádio. Longe de estar terminado, ele tem uma imponência bastante particular. Mesmo em um lugar na parte superior da arquibancada consigo ver com perfeição os jogadores, sem nenhum obstáculo ou ponto cego a minha frente. Bizarrices arquitetônicas como o Tobogã do Pacaembu foram limadas, dando espaço para uma das tais áreas populares de Andrés Sanchez, onde ficam as organizadas, lugar o qual eu carinhosamente apelidei de GERAL, enquanto os dirigentes insistem em nomear de Arquibancada Norte, como se eu guardasse uma bússola junto comigo. O curioso é notar que a acústica favorece essa parte do estádio e qualquer grito que saia de lá recorta o estádio em um eco infinito, como se a Fiel fosse realmente um jogador do Corinthians. Não creio que o estádio tenha sido planejado se levando isso em conta, mas prefiro acreditar que sim.
O Sport continua seu jogo nervoso, fazendo muitas faltas e perdendo bolas na área de defesa ou na intermediária de ataque, enquanto o Corinthians administra o jogo por meio de um jogo vertical. Dominando na intermediária e pondo a bola para correr e fazendo a zaga cansada do Sport se perder concedendo uma série de faltas, laterais e escanteios. E é nesse cenário que sai o primeiro gol. Anderson Martins surge como elemento surpresa cabeceando certeiro.
A parte exterior do estádio é particularmente diferente de qualquer outro no Brasil. Por não ser redondo, como os mais antigos e não ter a forma de um cubo, como os mais modernos, cuja cobertura se esparrama para além das margens, a parede lateral se desdobra em um grande mural, que é um telão e, por isso, todas as pessoas desejam parar ali para uma foto. Aquele ponto é um espécie de área social, onde todos necessariamente se encontram para fotografias e a gentileza percorre o local. É curioso observar isso. Todos de alguma forma se sentem donos daquele espaço e, por isso, parecem cuidar. Não apenas isso, parece haver um sentimento comum de orgulho pela existência daquele prédio e, por isso, vejo famílias inteiras pedindo para que um completo desconhecido tire uma foto deles, ou mesmo quando um grupo de amigos me para, pedindo para que eu tire uma foto. Querem registar que estiveram ali.
O gol de Anderson Martins aos 26' marca o momento de começar a retranca e o Corinthians faz bem a lição e passa a administrar o 1 a 0, o Sport leva perigo uma ou duas vezes, mas Cássio e a zaga sempre bem posicionados conseguem tirar o perigo e o Sport começa a ficar ainda mais nervoso. No segundo tempo o Corinthians volta na retranca, mas aos 25' sai tocando e Paolo Guerrero inverte de lado com Malcolm, a inversão causa uma certa confusão na zaga que nitidamente tinha um marcador individual para o peruano, ninguém se movimenta para marcá-lo e ele sobra livre para finalizar uma bola rebatida.
O estádio quase desaba.
Paolo é um dos poucos jogadores candidatos a ídolo nessa temporada. O nome remete a ideia de ser um corintiano. GUERRERO. Além disso, Paolo tem uma identificação gigantesca com o público do Corinthians: pobre, nascido no fundão, mal encarado, teve que dar muita porrada para ser o cara dos gols do Campeonato Mundial. O seu grande momento para mim foi quando respondeu a um jornalista-apresentador-animador-de-festas da Rede Globo que logo após o título de CAMPEÃO DO MUNDO teve a estupidez de perguntar o que ele achou do jogo, ao que ele respondeu do modo mais sincero possível “O TIME JOGOU PRA CARALHO”. Raça não é o que falta para um cara que nem ele e quando ele faz um gol é como se todos os corintianos que moram no fundão ou que entendem o que é ser corintiano fizessem juntos; como se um dos seus, junto de ti atingisse algo que vocês queriam muito. O time corre para abraçá-lo, eu acho que ele deve ter chorado. Se não, quero imaginar assim.
O público que o estádio atrai para essas alas mais caras é muito variado. Existem aqueles que entendem de futebol e querem que a torcida vibre como se estivessem na geral, enquanto existem outros que também entendem, mas só querem sentar e ver o jogo, como em casa. Quando a Fiel começa a cantar o poropopó, uma garota a minha frente confessa a outra que não sabe nenhum grito da torcida. No fim do jogo me parece que esses são a maioria.
O foda é que o futebol é o bagulho mais democrático do mundo, se você é ruim, você vai pro gol, se você é ruim até pro gol, tem a zaga, se você tá fora de forma, você joga na banheira. A torcida tem a mesma lógica, ali entra todo mundo. Aos poucos começa a ficar nítido que os tais setores populares são os com as maiores lotações, não têm ingressos acima dos R$80 e atraem um grande público. O setor que eu estava atraia para si o torcedor de classe média, que se irrita quando minha companheira de jogo pede para que ele saia do lugar dela e se irrita quando eu começo a assistir o jogo de pé e se irrita com o pipoqueiro que passa na frente dele e da moça que se levanta para ir ao banheiro e quando o Corinthians faz um gol apenas levanta e bate palmas. Um mero sádico que vai se divertir se irritando, sempre com um livro de regras para aqueles que discordam dele. Muitos desses personagens preenchem os lugares nesse setor, a classe média paulistana, eleitora de Alckmin e que tende a dizer que só é pobre quem quer. Mas democracia é também aceitar o outro e por isso ligo o foda-se e começo a cantar e incomodar meu vizinho caga-regras. Embora ali ninguém cante. E ninguém se lembre dos operários que morreram durante a construção.
Luciano faz um terceiro gol, um golaço, no apagar das luzes, aos 47'. Grande parte das pessoas já havia deixado as arquibancadas. Embora a comemoração também seja grande, não supera a de Paolo Guerrero.
O estádio começa a ficar vazio e todos vão tirar fotos, segurando bandeiras, em família, com amigos, namoradas, namorados, querem mostrar o campo, a arquibancada. O estádio e o campo são as grandes estrelas do jogo. Passados alguns minutos, um steward vem pedir para que nos retiremos, aos poucos as pessoas obedecem e se retiram. Lá fora o telão ligado imprime um “Obrigado”. Diversas outras fotos são tiradas lá, estão todos felizes. Corintianos ou não, estão todos felizes. Não pela vitória, mas pelo espaço em si. Esqueço aos poucos da política de preços do Corinthians e penso em me tornar sócio-torcedor. Estou impressionado com o ambiente. A Gaviões passa carregando um bandeirão e fazendo um grande barulho. Todos param para ver aquela cena e depois voltam para suas fotos.
Os preços ainda são altos demais, mas fica claro que o estádio do Corinthians é um patrimônio dos corintianos e não do Andrés ou de qualquer dirigente ou empresa. Assim como era o Pacaembu. Aos poucos essa nova lógica começa a se tornar evidente, a retirada das cadeiras e a diminuição dos preços em alguns setores indicam que a torcida tem razão. O Palmeiras resolveu esse dilema de modo mais simples, o estádio é da Allianz e da WTorre, o Corinthians, não e, por isso mesmo, terá grande dificuldade em criar a lógica da ARENA INSIRA AQUI O NOME DO PATROCINADOR. Pelo menos assim espero. Acredito que esse é o último espaço de resistência da venda do Corinthians à dirigentes, jogadores pop-star e a lógica mercadológica do futebol moderno de jogo às 22h00 para dar tempo de passar a novela. Não chamar o ESTÁDIO de ARENA é para mim uma forma de resistência, de lutar contra esse sistema. Acredito ser esse um meio de defender a origem popular do time, algo tão amalgamado a história do Corinthians, que penso ser impossível alguém não defender isso.
Mas não é. Pelo contrário. Os dirigentes do Corinthians se esquecem disso. As aulas de Corinthianismo são ministradas agora em um telão, antes do jogo, que mostra os jogadores malhando durante a semana, enquanto toca Daft Punk ou coisa parecida. Muito longe da realidade do cara que eu encontrei no trem e que dizia curtir a “caravana”, um ônibus alugado que vai atrás do Corinthians para onde ele for. Ele terminava sua explanação sobre a caravana com um “você só precisa dar 20 conto pra ajudar na cerveja, se você beber é claro”.
Malhar ouvindo Daft Punk não faz parte dos planos dele. Penso. Aliás, penso que Daft Punk não faz parte dos planos dele. Nem mesmo malhar.
Por fim, pela primeira vez assisti um jogo sentado, embora ainda tivesse que ouvir milhares de vezes uma voz mimada atrás de mim que dizia “Seeeeeentaaaa ooooo transpareeeeeeenteeeee.” à qualquer menção de qualquer um se levantar. Quando me senti incomodado, apenas pedi por favor e sendo atendido, agradeci. O espaço democrático é cercado de cagação de regras, mas também tem suas convenções, as quais muitos estão dispostos a transgredir para construir um espaço social mais justo, mas muitos também querem transgredi-las, apenas por terem a plena certeza de que a sua opinião e desejos precisam ser atendidos. Daí nasce a lógica mercadológica do “Tô Pagando”.
Infelizmente, esses clientes nunca terão a medida do que é ser um torcedor, eles serão sempre apenas espectadores, chateados pela calibragem de cores da sua TV. E se não puderem ou não quiserem ir ao estádio, pagaram o PREMIER FC de R$90 por jogo. Infelizmente, são esses caras que povoam a mente da maior parte dos dirigentes, pois são fontes inesgotáveis de renda. Além de ser um torcedor pasteurizado que só irá reclamar da falta de papel no banheiro e do preço do Hot-Dog. Nunca do time.
O futebol moderno, com seus torcedores modernos, é de uma chatice do caralho.
Ao chegar em casa leio a notícia de que um grupo de torcedores teve uma faixa confiscada pela PM. Eles pediam a diminuição do preço dos ingressos. A tal da transgressão. Futebol é transgressão. Por posturas como essa que eu não arrependo de ter “virado a casaca”, de ter transgredido. Abrigar as camadas mais populares é uma obrigação do Corinthians, que construiu sua história em torno disso. Mas o time de operários, agora transgride para o lado errado.
Mas ainda há uma chance. E eu sei que o Estádio que eu nunca chamarei de Arena irá fazer como o time que ele abriga: NUNCA IRÁ DESISTIR. Porque ele também é Corinthiano e ser Corinthiano é isso.
Créditos da imagem de capa: Sem Firula. As demais foi eu mesmo quem tirei.