Clássicos na mesa — jogos lançados no Brasil antes dos anos 2000 que você deveria conhecer

Conheça 5 jogos lançados no Brasil antes do boom dos board games modernos

Jogos de tabuleiro não são coisa recente. Lá nos anos 1980 já tinha muita gente jogando e empresas como a Estrela e a GROW traziam muitas coisas interessantes, mesmo que de forma não oficial. Alguns desses jogos ficaram consagrados, caso de Banco Imobiliário, Detetive e War, porém muitos outros acabaram esquecidos e não tiveram reedições. Conheça alguns desses jogos, lançados no Brasil antes do recente boom dos jogos modernos.

CONTATOS CÓSMICOS (COSMIC ENCOUNTER) — 1977

Lançado no Brasil em 1983 pela GROW, Contatos Cósmicos era praticamente um plágio do jogo Cosmic Encounter, da Eon, algo como o que a empresa brasileira vez com o Risk, ao lançar seu jogo War. O jogo é de um grupo de designers formado por Bill Eberle, Jack Kittredge, Bill Norton e Peter Olotka.

Capa da versão não-oficial da GROW.

No jogo, cada jogador representa uma raça alienígena que pretende colonizar outros planetas para estender seus territórios. O problema é que os planetas estão em regiões habitadas pelas demais raças, ou seja, para expandir é necessário entrar em conflito com todos na mesa. Mas é permitidor negociar, blefar, trair e tudo mais, afim de convencer a todos na mesa que você está em “missão de paz”. O jogo se desenrola por várias rodadas até que um ou mais jogadores alcancem um total de X planetas colonizados.

Em cada turno, o jogador pode usar as cartas de sua mão, numeradas de 1 a 99, para demonstrar sua força durante uma tentativa de colonização. Ele pode convocar outros jogadores da mesa para se juntarem a ele com cartas, assim como o “dono” do planeta atacado. Ao final, todos mostram suas cartas e os que tiverem maior soma são os vencedores, colonizando o planeta com suas naves e retirando as naves do adversário.

Capa da edição de 2008 lançada pela FFG.

O charme do jogo está nos poderes variados das raças que vão de coisas simples como adicionar valores às cartas, facilitar um ataque ou dar poder à defesa, e ainda passando por coisas como poder mentir na mesa, ou roubar naves. A dinâmica das interações desses poderes é incrivelmente divertida.

Não sei ao certo se a GROW chegou a ser processada pelo plágio, mas o fato é que o jogo nunca mais deu as caras por aqui e nenhuma empresa se aventurou a buscar a licença oficial até hoje, o que torna a tarefa de conseguir uma cópia do jogo uma tarefa árdua — ou você pode optar por importar o jogo na sua versão mais recente lançada pela Fanstay Flight em 2008.

GRAPHOS — 1982

Graphos, talvez o jogo que mais joguei na minha infância, é um card game em que o objetivo é formar grupos e sequências de números, além de palavras, muito similar ao jogo de cartas Cacheta. Lançado pela GROW e, como de costume da empresa na época, sem autor creditado, o jogo teve duas edições, uma ainda nos anos 1980 e outra, com visual renovado, nos anos 1990.

Ao longo do jogo os jogadores poderão comprar cartas para sua mão afim de criar um grupo de 3 ou mais cartas de mesmo números, mas de cores diferentes; uma sequência composta por números a mesma cor com pelo menos 4 números; e ainda palavras, compostas por pelos menos 4 cartas, seguindo algumas regras — por exemplo, só é possível usar verbos no infinitivo e não são permitidos nomes próprios.

Versão original de Graphos à esquerda e a versão “renovada” dos anos 1990 à direita.

O jogo se desenrola ao longo de várias rodadas até que algum jogador atinja o objetivo da fase, que pode ser formar 1 grupo e 1 palavra, 2 grupos e 1 sequência, ou ainda 1 grupo, 1 sequência e 1 palavra. Ao todo são 7 fases com pré-requisitos distintos e o jogador com maior pontuação ao final das 7 fases é o vencedor.

Graphos é um jogo rápido, mas bastante desafiador e o jogador deve saber lidar com as cartas em sua mão e ainda observar as cartas usadas pelos adversários, o que pode mudar a sua estratégia de o que descartas ou de qual carta esperar. Um jogo de palavras muito divertido e que lembra o também clássico Scrabble.

O JOGO DO PODER (CARTEL) — 1973

Lançado pela GROW com o nome O Jogo do Poder, Cartel é um grande jogo da categoria dos Jogos Econômicos. O objetivo do jogo, como o nome sugere, é formar um cartel, controlando o maior número de empresas possíveis no tabuleiro e lucrando com a valorização de suas ações. À primeira vista, o jogo pode lembrar o famoso Banco Imobiliário, mas é um jogo bem mais robusto.

A primeira versão nacional, tal qual a original, evocava uma certa violência que não tinha nada a ver com o jogo, o que foi corrigido na versão seguinte da GROW.

Cada jogador assume o papel de um empresário e controla as ações de uma das quatro corporações do jogo. No tabuleiro central existem diversas empresas que estão disponíveis para compra através de cartas que, ou estão nas mãos dos jogadores ou foram viradas na mesa, durante o setup. Na sua vez, o jogador pode comprar uma das empresas nas cartas em sua mão, comprar uma as empresas disponíveis na mesa ou ainda abrir um leilão, permitindo que todos os jogadores tenham a chance de adquirir aquela empresa. Os jogadores também podem tomar empréstimos ou vender ações de sua empresa para angariar capital para novas aquisições.

Ao final de cada rodada os jogadores recebem lucros baseados nas empresas que compraram e garantem bônus se compraram empresas adjacentes ou ainda se fecharam um conglomerado de empresas do mesmo setor, criando um verdadeiro cartel.

Capa da segunda edição do jogo em inglês.

O Jogo do Poder foi meu primeiro contato com um jogo econômico que não era baseado em rolagem de dados. Aliás, o fator estratégico do jogo é justamente basear suas jogadas no pequeno fator sorte envolvido na compra de cartas e observar as jogadas das corporações adversárias, tentando maximizar seus lucros.

Vale destacar que a GROW também lançou por aqui um jogo com o nome Cartel, por volta dos anos 1970, mas que na verdade se tratava do jogo Acquire, de 1962. Uma das muitas confusões que a editora criou no período e que foi repetida, por exemplo, com os jogos Interpol e Scotland Yard.

POLARIS (ABALONE) — 1987

Abalone, ou como é conhecido no Brasil, Polaris, é um jogo abstrato da dupla de designers Michel Lalet e Laurent Levi hoje disponível numa versão retrô da Mitra (que relançou diversos outros jogos abstratos em madeira). No jogo, para dois jogadores, cada jogador movimentas suas peças afim de tirar do tabuleiro um número de peças do adversário, que podem ser 6 ou mais, de acordo com a versão jogada. Para isso, movimenta suas peças empurrando uma ou mais peças do adversário num grid formado por diversos buracos onde se encaixam as peças esféricas do jogador. O desafio é que para movimentar suas peças, o jogador não pode estar em minoria de peças, ou seja, ele pode fazer uma jogada empurrando duas peças suas e uma do rival, mas nunca uma sua pode empurrar duas do rival.

Capa de uma das versões do jogo com o nome original, Abalone.

Considero o jogo um dos abstratos mais interessantes lançados recentemente, muito por ele ter o clima de jogos antigos como Xadrez, Trilha ou Damas, mas com regras modernas. Eu costumo gostar muito de jogos abstratos, principalmente quando eles tem um visual bacana ou estão revestidos com um tema interessante (caso de jogos mais recentes como Quantum ou Santorini), mas Abalone abre mão disso, sendo um jogo muito simples e extremamente tático. Prever o movimento do adversário faz toda a diferença.

Versão totalmente em madeira da Mitra.

Anos mais tarde, já em 2003, o jogo foi reimplementado pelos mesmos autores para 3 e 4 jogadores em Abalone Quattro.

HERO QUEST — 1989

Talvez um dos clássicos mais cultuados no mundo dos board games, Hero Quest foi lançado no Brasil pela Estrela, não muito tempo depois do lançamento lá fora. O jogo é um dungeon crawler do designer Stephen Baker com heróis e monstros em que um jogador assume o papel do dungeon master, controlando todos os desafios do jogo, e os demais jogadores são heróis que devem vencer esses desafios. No lugar das populares miniaturas, hoje presentes em quase todos os jogos do gênero, o jogo vinha, na versão nacional, com marcadores de papel e com diversos itens de dobraduras que formaria as portas, móveis e demais objetos dos cenários.

Capa da versão nacional do jogo, dessa vez, mantinha as característica do jogo original.

Talvez o elemento mais popular do jogo fosse o movimento em grid e os ataques com rolagem de dados, antes elementos muito presentes no universo dos RPGs. Aliás, o jogo era muito similar ao universo de Dungeons & Dragons, o RPG mais famoso de todos os tempos, o que, muito provavelmente, ajudou a popularizar o jogo tanto lá fora quanto aqui.

Hoje, uma cópia de Hero Quest se tornou um item de colecionador. Isso se deve muito à nostalgia criada em torno do jogo, mas também ao fato de que a qualidade do material usado pela Estrela, diferente da edição lançada lá fora pela Milton Bradley, não era grandes coisas e muito jogos se perderam com o tempo. A caixa de papelão fino e as cartas e personagens de papel eram fáceis de rasgar, e algumas cópias até mofaram.

Uma dungeon montada com muitos desafios na versão americana com miniaturas.

Em 2015 foi lançada uma campanha de financiamento coletivo via Kickstarter para uma edição comemorativa de 25 anos do jogo original pela espanhola Gamezone. Essa versão traria miniaturas, material de melhor qualidade e novas campanhas para o jogo, porém a campanha violava os direitos de uso do nome do jogo que pertencem hoje à Moon Design Publications e foi cancelada.


E aí, quais desses jogos você conhece? Quais jogou quando era mais novo e quais você gostaria de jogar hoje?