Coldwater Crown — um jogo de pescaria pra todo tipo de pescador

Combine iscas e espere pelo momento adequado para pegar os melhores peixes neste euro super temático

Anderson Butilheiro
Jul 25, 2017 · 10 min read

Sabe aquelas histórias de pescador que você ouvia do seu tio? Chegou a hora de mostrar quem é realmente bom de anzol em Coldwater Crown, um jogo para pescadores amadores e profissionais — e também pra quem nem é muito ligado em pescaria. No jogo, somos pescadores profissionais numa disputa pela coroa de Coldwater, um torneio de pesca mundialmente famoso, só para os melhores, em busca dos peixes com maior peso, mas também atrás da maior variedade de espécies. Mas não precisa entender nada de pesca profissional para se divertir na mesa, basta ter paciência, umas boas iscas e fazer as jogadas certas.

Pescaria completa com com direito a anzol, molinete e aquele peixe fujão.

O jogo é do designer Brian Suhre, com um trabalho anterior não muito conhecido, o jogo Paradox. A arte, linda, vale destacar, é em grande parte da excelente ilustradora Beth Sobel, responsável também por Viticulture e Wolrd’s Fair 1893. Lançado através de campanha de financiamento coletivo no Kickstarter pela Bellwether Games, o jogo arrecadou singelos 16 mil dólares, não fazendo muito barulho a princípio, mas com ótima crítica da mídia especializada. Coldwater Crown acabou chamando bem mais a atenção na Origins Game Fair em junho de 2016, já na reta final da campanha.

WORKER-PLACEMENT COM PUZZLE

Detalhe do tabuleiro central com peixes disponíveis na Costa e os espaços para alocação.

O tabuleiro central do jogo é a área de pesca, representada por três localidades diferentes: o Lago, o Rio e a Costa. Cada uma dessas regiões tem seus peixes característicos. Por exemplo, somente no Lago é possível pegar a truta, ao passo que o linguado só está disponível na Costa. Cada localidade também está dividida em 4 diferentes zonas, numerada de 3 a 6, que serão importantes mais a frente. E em cada localidade existem 2 áreas de alocação de cores distintas, totalizando 6 espaços de ação. Existe ainda um sétimo espaço, o do Porto, para alocar o marcador de ação que irei explicar mais adiante.

O que mais chama a atenção no jogo sem dúvida alguma é a forma como suas mecânicas funcionam. Cada jogador começa com um único marcador de ação (seu trabalhador), com duas faces: uma com um número 1 e outra com o número 2. Outros 3 marcadores iniciam já no tabuleiro central ocupando três espaços de ação distintos, divididos entre as três localidades: um no Rio, um no Lago e um na Costa. Em cada turno, o jogador deve colocar seu mercador no tabuleiro, num espaço disponível, realizando a primeira ação e, em seguida, retirar um marcador que já estava no tabuleiro em outro local, realizando a segunda ação. Essa mecânica em si não é totalmente inovadora, estando presente, por exemplo, em jogos como Raiders of the North Sea, mas a maneira como foi implementada é que é sensacional.

Tabuleiro do jogador com as iscas.

Cada jogador tem um tabuleiro próprio que é, basicamente, sua caixa de iscas, dividida em 4 espaços distintos, representando 4 diferentes zonas (combinando com a zonas presentes no tabuleiro, numeradas também de 3 a 6). No começo do jogo preenchemos alguns desses espaços com iscas, dando algumas opções iniciais aos jogadores de forma aleatória. As iscas são pedras coloridas e podem ser azul, amarela, preta, roxa, verde e vermelha, as mesmas das localidades. As combinações dessas cores é que dão o charme ao jogo. A Costa é o local para se usar as iscas roxa e verde, e as iscas vermelha e azul podem ser usadas no Lago. No Rio, usamos as iscas preta e amarela.

Cada vez que o jogador coloca ou retira o marcador de ação de algum dos seis espaços do tabuleiro destinados aos locais de pesca, ele retira uma ou mais pedras de iscas de seu tabuleiro, da cor do espaço utilizado. Por exemplo, se o jogador colocar seu marcador no espaço azul do Lago, ele poderá usar as iscas azuis de seu tabuleiro. Se o lado do marcador usado for o 1, ele retira uma isca de cada zona, mas se tiver usado o lado 2 do marcador, ele poderá tirar todas as iscas dessa cor de seu tabuleiro. Quando a última peça de isca é retirada de uma das zonas, deixando essa zona vazia, você fisgou um peixe. Então, o jogador pode pegar o peixe visível na localidade onde ele realizou a ação, na zona que corresponde ao número da zona liberada no tabuleiro.

Área do Rio com um trabalhador alocado com o lado 2: o jogador pode realizar a ação com um bônus.

Aí é que está toda a estratégia do jogo. Não basta colocar o marcador, mas é preciso ter as cores correspondentes para maximar o uso daquele espaço. Retirar as iscas das cores certas no momento certo permitirá ao jogador fisgar o peixe que ele precisa para completar um set, dos vários possíveis para ganhar pontos no jogo. O jogo se torna um puzzle e é muito desafiador tentar combinar suas jogadas com as iscas restantes.

DOIS LADOS DO MESMO PEIXE

Tem muito peixe. Mas o jogo não fica fedido não.

Os peixes ficam dispostos no tabuleiro com o primeiro lado visível apenas, deixando para o jogador poucas informações, mas o suficiente para que ele saiba em qual localidade e zona investir sua estratégia. Se o jogador quiser buscar espécies diferentes, por exemplo, basta ele correr atrás dos peixes pelos nomes. Porém, ao pegar o peixe, as informações do outro lado, como a cor da etiqueta e o peso, permitem ao jogador elaborar suas próximas jogadas. Isso dependerá da estratégia de cada um, conforme as diferentes formas de se pontuar no jogo, explicadas a seguir.

FAÇA SEU SET COLLECTION DE PEIXES

5 ponto por ser o primeiro a ter um linguado, uma perca e um roach.

Existe ainda a possibilidade de pescar um peixe que tenha exatamente o peso de um marcador que fica virado sobre o tabuleiro, dando 1 ponto ao jogador. Ao realizar essa conquista, o jogador pega o tile para si e vira um novo na mesa, indicando o próximo desafio.

Existe ainda outro desafio que é o de tentar pegar peixes cuja cor da etiqueta de tempo seja a mesma do desafio proposto no começo da partida, durante o setup. Esses pontos só serão distribuídos aos jogadores no final da partida, quando eles deverão enviar um peixe de cada espécie para o comitê de avaliação de cada localidade, como será explicado mais adiante.

O DESAFIO DO MESTRE PESCADOR

Desafios do Mestre sendo completados com as iscas.

A segunda opção do Porto é pegar uma carta de Desafio do Mestre Pescador, que são cartas com outras espécies de peixes como a enguia, ou ainda raias e caranguejos. Essas cartas acrescentam um desafio ao jogo pois a forma de pontuação com elas se dá de maneira diferente. Ao realizar uma ação normal no tabuleiro e descartar uma isca de seu conjunto, o jogador poderá, ao invés de descartar, adicionar a isca retirada à essa carta, de acordo com os pré-requisitos da mesma.

Quando o jogador conseguir cumprir todos os pré-requisitos da carta, que variam de 3 a 4 iscas, ele adiciona a carta à sua coleção. Um conjunto de 3 iguais ou 4 diferentes espécies do deck de Desafio dão ao jogador um marcador de dois pontos. Os jogadores podem completar diversos sets de cartas, juntando vários desses tokens para a contagem final da partida.

A CONTAGEM FINAL

Esses vários peixinhos aí vão virar pontos no final.

Depois de escolhidas as cartas, os jogadores revelam, para cada localidade, a soma de seus peixes. O jogador com a maior soma é o vencedor e leva o prêmio de 5 pontos. Os demais prêmios de 4, 3 e 2 pontos são distribuídos aos demais jogadores em ordem. Isso é feito para cada uma das 3 localidades.

Após a avaliação, é feita a contagem final de pontos. Cada carta de Mestre Pescador que teve seus pré-requisitos preenchidos vale 1 ponto. Os jogadores somam os bônus por carta de peixes e são adicionados também os marcadores de pontos dos desafios conquistados ao longo do jogo como os de variedade de espécies e conjuntos de cartas de Mestre Pescador. O jogador com maior pontuação leva pra casa a coroa de Coldwater.

20 pontos para o jogador 1.

POR QUE VOCÊ DEVERIA CONHECER ESSE JOGO?

O melhor de tudo é que você não precisa realmente gostar de pescaria para curtir o jogo. Trata-se de um euro bastante temático em termos de arte, com um fator sorte até certo ponto elevado (exatamente como seria numa pescaria de verdade), mas que você tem diversos caminhos para pontuar e isso acaba mitigando os reveses que podem acontecer. No entanto, o desafio das cores das iscas torna o jogo um puzzle muito bacana, divertido e que te permite construir suas jogadas pensando no que deseja buscar.

Tiles de bônus de um lado, as iscas coloridas do outro.

Claro que vão existir momentos em que a sorte realmente não estará a seu favor, como na hora de buscar as iscas de forma aleatória — que pode não sair nenhuma da cor que você precisa — ou ainda dar azar nos pesos dos peixes, mas você ainda pode pontuar por outros critérios e ir bem na partida se conseguir espécies diferentes ou se focar nos desafios do Mestre. Ou seja, como um bom euro, você pode trilhar vários caminhos e, se contar com uma boa estratégia, mitigar o fator sorte.

Eu gostei demais do jogo e foi uma surpresa super agradável colocá-lo na mesa e descobrir que se trata de um jogo com regras fáceis, jogabilidade divertida e muita rejogabilidade, além de ser um jogo rápido: em 2, o jogo não dura mais do que 40 minutos. Fora que o fato de que as jogadas são realmente rápidas, há muito pouco downtime e quase não há chances para um jogador ter AP. Coldwater Crown é bonito, charmoso e chama a atenção pelos componentes de qualidade, mas brilha ainda mais na mesa por si só, com mecânicas muito bem encaixadas e partidas muito disputadas e interessantes.

Deathmatch

Board games levados a sério!

Anderson Butilheiro

Written by

Designer, board gamer, metido a escritor.

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