Unfair — crie um parque de diversões incrivelmente divertido (e não deixe seus adversário criarem os deles)

Card game, que relembra tempos de RollerCoaster Tycoon, deve ser lançado no Brasil em breve

Quando vi pela primeira vez a campanha de financiamento coletivo do Unfair no Kickstarter eu já sabia que queria o jogo. A arte era linda, o tema divertido e tinha tudo pra ser um jogo que iria conquistar meus amigos que não jogam jogos mais pesados. No jogo, somos empresários criando parques de diversões, competindo pelos turistas e visitantes com os demais parques, numa cidade pequena demais pra tanta diversão. Ou seja, para ser bem sucedido você deve não só ter o melhor parque, mas também prejudicar (e literalmente sabotar) os parques dos adversários. O jogo é um card game — ou seja, as cartas são os componentes principais — com mecânicas de construção de baralho, seleção e coleção de cartas, e take that (“toma essa”, na tradução oficial).

Como não se sentir atraído por essa caixa?

Uma das coisas que impressiona em Unfair, logo de cara, é a enorme competência da Good Games em criar um trabalho de design digno de prêmios. Vale lembrar que é apenas o segundo jogo publicado pela editora (que lançou, também via Kickstarter, o jogo Monstrous) e o primeiro do designer Jeff Finch. Ou seja, ambos com bem pouca experiência no mercado, mas que conseguiram uma campanha de financiamento louvável, adicionando coisas realmente interessantes ao jogo.

Setup inicial do jogo. | Foto: divulgação.

Em Unfair, começamos apenas com nosso portão de entrada do parque, algumas cartas na mão e algum dinheiro, e precisamos ir comprando cartas do baralho na mesa para preencher nossa mão com mais opções. Para descer as cartas da mão para a mesa e começar a construir nosso parque, precisamos pagar os custos de cada uma delas. Os valores variam bastante, com cartas simples de staff de 2 moedas, até super atrações que custam 23 moedas. Os temas das cartas também são variados: o jogo padrão vem com os temas de Piratas, Vampiros, Robôs e Selva, mas durante a campanha no Kickstater foram adicionados os temas Ninjas e Gangsters. Você não precisa seguir um tema para construir seu parque, mas pode mesclá-los e isso é bem interessante. Uma divertida mistura de temas como animais selvagens e robôs do futuro pode deixar seu parque mais original e atrativo para os turistas.

As “super atrações” de cada um dos 6 baralhos do jogo. | Foto: divulgação.
Uma divertida mistura de temas como animais selvagens e robôs do futuro pode deixar seu parque mais original e atrativo para os turistas.

Além de atrações como montanhas-russas super temáticas, salas de terror e navios piratas, o jogo conta com diversas cartas que compõem a equipe do parque, com habilidades únicas, criando um staff de primeira, e outras estruturas para seu parque como fast-foods, banheiros, e até melhorias para os assentos das atrações. Alguns combos podem ser feitos para deixar a atração mais interessante e chamar mais turistas e, claro, dinheiro para os seus cofres.

Algumas das atrações que podem estar no seu parque.

MUITAS CARTAS, MUITAS COISAS PRA FAZER

No tabuleiro existem 4 decks com os quais os jogadores vão interagir. O baralho de eventos contém cartas que podem servir tanto para o jogador quanto para prejudicar o adversário, mas também podem ser úteis contra as cartas de cidade. Por sua vez, as cartas de cidade são reveladas no começo de cada rodada e podem ter benefícios para os jogadores (as funfair) ou situações que prejudicam a todos na mesa (as unfair). Há ainda o baralho com as blueprints, que podem ser pegas como uma ação e contém uma espécie de planta de o que construir no seu parque. Se no final do jogo você tiver aqueles pré-requisitos, ganha os pontos de bônus que variam de 10 a 22, dependendo da dificuldade da planta. Caso contrário, perde 10 pontos.

Blueprints.

O baralho principal do jogo é o de parque, onde estão as estruturas como atrações, restaurantes, melhorias para o parque e também as cartas de upgrade (que permitem que seu parque tenha mais melhorias) e ainda as cartas de staff. São essas as cartas que você poderá descer na mesa, construindo o seu parque. Algumas dessas cartas são atrações básicas de cada um dos temas, outras são cartas que podem ser colocadas lado a lado, formando um belo cenário, quando forem do mesmo tema. Isso não te dá nenhum ponto extra, mas deixa seu parque bem mais bonito.

As cartas de staff, no geral, vão te ajudar a atrair mais dinheiro, que você irá precisar para construir mais atrações e melhorias, mas que também conta pontos ao final do jogo. Ter o staff certo combinado com a atração certa pode ser um poderoso combo.

Funcionários à espera de uma chance de trabalhar.
Ter o staff certo combinado com a atração certa pode ser um poderoso combo.

Ao todo, o jogador pode ter 5 atrações construídas no seu parque e quaisquer melhorias associadas a elas, além de poder ter também cartas de staff ilimitadas. Mas é importante observar se as suas atrações condizem com a blueprint que você precisa cumprir, ou será necessário demolir uma atração pra colocar outra em seu lugar. Além disso, para maximizar a sua pontuação ao final do jogo, o jogador deve tentar melhorar suas atrações ao máximo, uma vez que a “altura da atração” (na verdade a quantidade de cartas associadas a ela) multiplica os pontos. Ou seja, uma atração com 5 melhorias vai pontuar muito mais do que 5 atrações com uma melhoria cada.

Parque em construção: funcionários ficam de um lado e atrações do outro.

Ao final da rodada, os jogadores recebem dinheiro pelas atrações e melhorias construídas, como se o parque fosse aberto ao público neste momento. Caso exista alguma atração fechada (o que pode acontecer tanto pelas cartas de cidade quanto pelos eventos de outros jogadores usados contra você), você não recebe dinheiro por elas. Mas ao começo da próxima rodada aquela atração pode ser reaberta. A quantidade de rodadas do jogo é definida pelas cartas de cidade. Nas primeiras partidas recomenda-se jogar 6 rodadas. Mas o normal são 8, deixando o jogo bem intenso e dando tempo dos jogadores formarem vários combos em seus parques para pontuar bastante ao final do jogo. No fim da partida os jogadores vão pontuar por suas moedas (2 moedas = 1 ponto) e pelas atrações, além de cada blueprint completada (ou perder os pontos se não completou). Vence o jogador que fizer mais pontos, ou melhor, que tiver o parque mais legal da cidade.

JOGO REDONDO

Além de todo o trabalho de design, as mecânicas de Unfair realmente funcionam bem redondas. Os decks parecem ter mesmo sido bem testados, tendo uma ótima lapidação para não deixar nada que possa travar o jogo ou fazê-lo ficar muito lento. O jogo roda bem, com as cartas se encaixando e formando belos combos na mesa.

Moedas e marcador de primeiro jogador.

A forma como o jogo é escalonado também está perfeita: adiciona-se um deck para cada jogador a mais na mesa. Ou seja, numa partida com 2 jogadores, usamos apenas dois dos baralhos de temas. Com 3 jogadores, basta adicionar um tema qualquer e suas cartas. O jogo continua equilibrado, mas com muitas cartas diferentes surgindo. Ainda mais que cada baralho tem suas próprias cartas de eventos, cidades, blueprints e de parque, com novas atrações e novos funcionários.

UM EXCELENTE TRABALHO DE DESIGN

Não é de hoje que reclamo de jogos que são bonitos no quesito arte (leia-se aqui “ilustrações”), mas pecam no design em si, deixando ícones confusos, símbolos sem sentido ou mesmo posicionando os elementos em lugares nada informativos nas cartas, tabuleiros e manuais (minhas principais críticas são para o Race for the Galaxy e Terra Mystica, que, incrivelmente, são dois jogos super cultuados pelos fãs).

A quantidade de informações nas cartas é enorme, mas tudo tem seu lugar.

Porém, com uma arte de encher os olhos criada por um grupo de artistas sensacionais, e também com capricho nos elementos de design, Unfair chamou a atenção não só dos apoiadores da campanha, mas também da CoolMiniOrNot, que entrou como co-publicadora no lançamento do jogo. Os ícones são simples, as cores foram muito bem escolhidas e não brigam com as ilustrações; os elementos estão completamente imersos na atmosfera que o jogo se propõe, tornando o jogo muito claro. O manual então é um exemplo de como se ensinar jogos. Além de bonito, muito bem ilustrado, ele é claro, objetivo e bem humorado, com diversas intervenções dos “revisores” que comentam o manual à caneta (uma brincadeira, claro).

As cartas conversam entre si, com uma mesma estrutura, mesmo tendo cerca de 6 a 8 elementos importantes nelas como o nome, o tipo de carta (se atração ou staff, por exemplo), o custo, de qual categoria é, à qual tema pertence, os bônus e pontos que a carta dá, além de um texto explicativo da ação ou regra de uso da carta, quando necessário. Tudo isso sem poluir a imagem e nem se sobrepor à ilustração. Algumas cartas até mesmo se completam, formando uma paisagem ao serem colocadas lado a lado, mostrando que as ilustrações não foram jogadas ali de qualquer maneira. Aliás, falando em ilustrações, palmas para Nicole Castles, Lina Cossette, David Forest e Philippe Poirier pelo trabalho lindo. Os desenhos são de muito bom gosto, coloridos e divertidos, como um parque tem que ser.

E ainda dá pra fazer aqui um enorme elogio ao insert do jogo — aquele lugar onde você guarda as peças dentro da caixa. Uma das reclamações frequentes dos jogadores é que muitas vezes, depois de se guardar os componentes em ziplocks e as cartas em sleeves, os componentes não cabem mais na caixa. Esse é um problemas que a Good Games resolveu ainda na fase de desenvolvimento do jogo e já deixou o insert bacana pra conter diversas cartas, até mesmo as expansões, na caixa do jogo base e “sleevadas”. O espaço é realmente folgado e dá pra guardar tudo bem organizado, separando os diferentes decks de temas.

Unfair é um jogão, muito bem desenvolvido e trabalhado para ser um dos grandes lançamentos do ano.

Unfair é um jogão, muito bem desenvolvido e trabalhado para ser um dos grandes lançamentos do ano. Uma campanha de financiamento coletivo que, não só deu certo, como superou as expectativas. Daqueles jogos pra se manter na coleção e jogar com qualquer grupo, dos iniciantes aos mais experientes. O jogo agrada a todos, seja pela beleza das artes ou das mecânicas bem fluídas. Um jogo divertido e digno de levar alguma premiação este ano. Aposto alto em Unfair como melhor cardgame do ano. Seria injusto o jogo não levar essa!

Veja mais algumas imagens do jogo: