Yamataï — seja um construtor e navegador do antigo Japão num jogo magnífico

Bruno Cathala, Marc Paquien e a Days of Wonders trazem um excelente euro com tema oriental

Quando o designer Bruno Cathala anuncia que está trabalhando em um novo jogo, todas as atenções se voltam para ele. Autor de sucessos como 7 Wonders: Duel, Five Tribes e Cyclades, além do vencedor do Spiel des Jahres deste ano, o jogo Kingdomino, Cathala sempre apresenta jogos com temas diferentes, mecânicas interessantes e com produção impecável. Muitas vezes o trabalho é realizado em parcerias, como a com Antoine Bauza, e, dessa vez, com o desconhecido Marc Paquien.

Em Yamataï, jogo com bastante influência da cultura japonesa, os jogadores assumem o papel de construtores do arquipélago de mesmo nome, antigo país da região de Wa (ou Wu, dependendo da fonte), onde hoje é o Japão. A rainha de Yamatai, Himiko, a rainha do Sol, faz parte de diversos contos e lendas da história do Japão e também aparece em jogos como Tomb Raider. Não se sabe ao certo o quanto das lendas é verdade, mas Himiko é considerada a primeira imperatriz mulher da história do Japão.

Himiko, Rainha do Sol, em tela de autor desconhecido.

BEM-VINDO À YAMATAI

Yamataï é um jogo simples em termos de regras, mas bastante estratégico e com muita interação. Os jogadores, sob ordem da rainha Himiko, devem construir nas diversas ilhas do arquipélago, levando até lá os barcos com recursos necessários para edificar a mais bela cidade. Porém, cada recurso é transportado unicamente por barcos de uma determinada cor, ou seja, os barcos amarelos levam somente ouro, os pretos levam somente pedras e os verdes levam somente bambu, por exemplo. Os jogadores deverão fazer as trilhas pelo tabuleiro levando os barcos às ilhas distantes e, conforme o barco estiver adjacente à uma determinada ilha, considera-se que aquele recurso pode ser usado ali.

Bambu, madeira, pedra, argila e ouro: os barcos representam os recursos sendo levados às ilhas.

As construções, por sua vez, são tiles que ficam dispostos na mesa e cada um tem pré-requisitos de quais os materiais são necessários para sua construção. Existem construções simples, que precisam apenas de bambus, ou somente madeira, por exemplo. Por outro lado, existem construções mais complexas que irão precisar de um conjunto de todos os recursos, inclusive ouro, que é mais difícil de conseguir. Conforme a complexidade, as construções podem dar mais ou menos pontos e faz parte da estratégia focar nos barcos certos para conseguir construir as melhores.

Construções: do lado esquerdo estão os pré-requisitos e, na direita, acima, estão os pontos ganhos ao final da partida.

Porém, colocar barcos e fazer as construções não é uma tarefa simples. A principal mecânica do jogo é a da escolha da ação a se realizar na rodada e é através dela que todo o jogo se desenrola.

ESCOLHA SUA JOGADA

No início do jogo são colocados no tabuleiro 10 tiles com ações possíveis. Porém, somente 5 deles estão visíveis e podem ser utilizados a cada rodada e, à medida em que forem usados, eles saem do tabuleiro e dão espaço para tiles novos, com novas ações possíveis. Basicamente, a ação de um tile é colocar um ou mais barcos de determinadas cores no tabuleiro e também uma ação bônus. Na imagem abaixo, por exemplo, a primeira ação é pegar um barco de pedra e um de madeira e poder construir pagando um recurso a menos.

Os tiles de ações disponíveis na rodada.

Os barcos podem ou não ser colocados no tabuleiro, conforme a estratégia do jogador. Se ele decidir colocar, deve obedecer a regra de ou colocar à partir de um dos portos de saída (são 5, no lado esquerdo do tabuleiro), ou seguindo uma rota já iniciada, sendo que o primeiro barco colocado deve ser do mesmo recurso do último daquela rota. Ou seja, basicamente as rotas não pertencem à ninguém e podem ser usadas por todos os jogadores e devem ser bem pensadas para não favorecer a jogada do jogador seguinte.

O jogador da vez pode decidir, então, se coloca todos os barcos nesta rodada ou ainda se ele deseja adicionar mais barcos àqueles que ele adquiriu através da seleção da ação. Ele pode usar suas moedas para comprar mais barcos com recursos pagando os respectivos valores. O barcos de bambu custam uma moeda, os de madeira custam duas, os barcos de pedra custam três e os barcos que levam a argila tem um custo de quatro moedas. Os barcos com ouro só podem ser comprados com uma habilidade especial de um especialista, que vamos explicar mais à frente no texto.

Barcos em ordem de valor pelo recurso que carregam: ouro é mais caro e mais difícil.

Ao encerrar a colocação dos barcos o jogador pode retirar do tabuleiro um marcador de Cultura ou construir um edifício. Os marcadores de Cultura são fichas em 6 cores diferentes que podem ser usados, mais à frente, para se contratar especialistas ou realizar outras trocas, conforme as habilidades dos especialistas contratados. Essas fichas só podem ser retiradas de ilhas nas quais o jogador acabou de colocar um barco adjacente, não importando a cor do barco ou da ficha. As construções só podem ser feitas em ilhas desocupadas, ou seja, aquelas sem os marcadores de Cultura.

Área do jogador com uma construção “reservada”, dois marcadores de Cultura e as moedas do jogador.

Se uma ilha for contornada por 3 ou mais barcos, ela está disponível para uma construção. O jogador então observa quais são as construções disponíveis e se os pré-requisitos da mesma foram cumpridos. Se alguma ilha contém os barcos com os recursos necessários, a construção pode ser edificada ali. Por exemplo, uma construção que exige três barcos de madeira só poderá ser feita numa ilha contornada por três ou mais barcos de madeira.

No entanto, não basta sair construindo à torto e à direita. Existe uma estratégia muito interessante aqui que é a de que cada construção é feita usando um marcador da cor do jogador (pelo menos as construções básicas). A cada construção da sua cor que for feita adjacente à outra, você recebe uma bonificação em dinheiro. Um grupo de várias construções adjacentes rende mais dinheiro do que apenas 2. O desafio é conseguir colocar suas construções sempre adjacentes, uma vez que nem sempre os barcos com os recursos que você precisa estarão próximos.

As duas construções do jogador laranja rendem 4 de dinheiro, pois estão adjacentes.

TORIIS E PALÁCIOS

Além das construções básicas, os jogadores poderão edificar duas construções especiais — ou de prestígio, como são chamadas no manual — que são, em geral, mais difíceis de se construir. Os Toriis exigem um recurso de cada tipo e os Palácios precisam de duas pedras e dois ouros.

O Palácio construído na ilha que tem dois barcos de ouro adjacentes.

As vantagens de se construir esses edifícios, além dos pontos que são maiores (5 para o Torii e 6 para o Palácio), vão aparecer depois, quando os jogadores construírem seus edifícios nas rodadas futuras. Cada edificação ao lado de uma construção de prestígio vale 1 ponto extra. Esse ponto também pode ser conquistado quando o jogador constrói sobre uma montanha, que são tiles especiais em algumas das ilhas, posicionados aleatoriamente no começo da partida. Os pontos extras são marcados com um token em formato de leque e contados no final da partida.

OS ESPECIALISTAS

A decisão seguinte do jogador, após colocar os barcos e construir/pegar uma ficha de Cultura, será de usar as fichas para contratar especialistas. Os especialistas dão aos jogadores habilidades especiais para serem usadas durante a partida e pontos ao final do jogo. Alguns podem ser mais fortes que outros, dando mais pontos, mas tendo uma habilidade menos interessante, ou ainda podem não dar ponto algum, mas ter habilidade muito fortes.

A linda arte dos especialistas que podem ser “contratados” ao longo do jogo.

Acredito que esses especialistas são um elemento que remetem ao jogo Five Tribes para muitos jogadores, porém, na minha opinião, é justamente um dos fatores que mais diferencia os jogos. Aqui, em Yamataï, as habilidades desses personagens são bastante interessantes e realmente tem um impacto bem grande no planejamento da estratégia do jogador, tanto durante, quanto ao final da partida.

Alguns desses especialistas podem, por exemplo, permitir ao jogador usar seus barcos de forma mais interessante, trocar tipos de barcos por outros, ou ainda comprar o tão difícil barquinho amarelo do ouro. Outros podem dar bônus para pontuar ao final da partida com habilidades como cada leque de ponto valer por dois, ou ainda as moedas valerem uma conversão de três por ponto (ao invés do normal que seria um ponto por cada cinco moedas). Todas as habilidades são interessantes em certo ponto.

Pontos do jogador ao final da partida: suas construções, especialistas, moedas e leques conquistados ao longo do jogo.

No final do jogo, vence quem conseguir acumular mais pontos, ou seja, aquele que obtiver o favor da rainha Himiko por ter cooperado mais com a construção do arquipélago. O jogo acaba dando muitos caminhos para pontuar e permite muitas estratégias distintas, com um pouco de take that, mas não um confronto direto. É possível sempre mudar de estratégia, mas também muitas vezes será necessário mudar à força simplesmente porque não saíram as ações que você precisava, ou porque as construções disponíveis não coincidem com as cores dos barcos no tabuleiro. O jogo exige atenção dos jogadores nas jogadas dos adversários e também um planejamento de longo prazo — e talvez um plano B, C…

ARTE E QUALIDADE INCRÍVEIS

Toda a arte do jogo lembra a cultura oriental, ou, ao menos, como nós a temos no ocidente. A própria capa do jogo, que tem a rainha Himiko em destaque, é impressionante. Tudo isso é fruto do excelente trabalho do ilustrador Jérémie Fleury, que também ilustrou jogos como Oceanos, Histrio e Timeline. O traço do artista, inclusive, é bem similar ao de seus outros trabalhos.

A maravilhosa arte da caixa do jogo.

O tabuleiro do jogo também é lindo, bastante colorido e repleto de detalhes. Mas o brilho mesmo está na arte dos especialistas: todos são muito bonitos, tem uma leveza incrível, mas ao mesmo tempo parecem muito imponentes. Cada um tem detalhes em suas roupas e rostos com aspectos únicos. Vale a pena tirar um tempo só pra observar as peças do jogo.

Além da arte, os componentes do jogo tem ótimo acabamento, com boa espessura nos tiles e com as peças de madeira também com bom corte. Aquele refinamento na produção que a Days of Wonder sabe muito bem como fazer.

Yamataï é um excelente jogo, com brio próprio, mas que remete à outros trabalhos do mestre Cathala, como Five Tribes. Tem mecânicas originais, é mais profundo tematicamente que seu antecessor e é bem menos imprevisível. Além do apelo do tema, o jogo chama a atenção pela arte, cores e até mesmo por sua jogabilidade, que não é complicada e deixa o jogo até muito próximo de um gateway — talvez um segundo passo pra quem já tem experiência com jogos modernos.