Boris Yeltsin e a Uber


Boris Yeltsin é uma figura que deveria receber mais atenção após uma viagem aos Estados Unidos, em que provou a verdadeira face de tudo aquilo que dizem e acreditam ser a União Soviética e o comunismo no século passado. Foi em 1989 quando Yeltsin visitou o Centro Espacial Johnson, que acabou conhecendo algo que mudou a sua vida para sempre. Alguns poderiam dizer que a surpresa nada mais era que alguma tecnologia de primeira e inovadora na estação espacial. Contudo, não era nada disso. O ex-presidente russo se empolgou com algo relativamente pequeno e normal em nossas vidas: um supermercado.

Imagem: Huffington Post.

Segundo a história então publicada pelo site Libertarianismo, durante a viagem, o ex-presidente russo acabou visitando um supermercado da rede Randall’s, ficando impressionado com a variedade de produtos que havia naquele lugar. Enquanto admirava a possibilidade de escolher o que desejava em diferentes gostos e cores, comparava tudo aquilo com o seu país, dizendo que os russos para ter o que comer, além de não terem vasta quantidade existente naquele estabelecimento comercial, tinham de enfrentar horas e horas em uma fila, aplicando ainda uma facada aos defensores dessa ideologia: se os russos tivessem a oportunidade de observarem como eram os supermercados dos Estados Unidos naquela época, “haveria uma revolução” — e , de fato, houve uma reação estrondosa quando o primeiro McDonald’s foi inaugurado em Moscou, havendo filas quilométricas.

Assim ele escreveu em sua autobiografia:

Quando eu vi aquelas prateleiras abarrotadas com centenas, milhares de latinhas, embalagens e produtos de todos os tipos possíveis, pela primeira vez eu me senti, francamente, bastante mal com o desespero do povo soviético. (…) Que um país potencialmente tão rico como o nosso foi levado a tal estado de pobreza! É terrível só de pensar.

Diferente do século passado, já não é necessário experimentar muitas coisas para percebemos que a tentativa de controlar a economia com mãos de ferro é um erro gravíssimo, porém, mesmo estando no século XXI, podemos notar países quebrando pelo mesmo motivos. Peguemos a Venezuela como exemplo. Parece piada, mas papel higiênico é um item de luxo por lá, valendo mais que a moeda local. Em Cuba, para acessar a internet, item extremamente necessário na sociedade contemporânea, é necessário ter mais que a média salarial do país, e, assim como a URSS, a situação da fome não chega nem ao nível de dizer que é “satisfatória”.

Todavia, Boris Yeltsin nos deu uma lição, perpetuando-se aos dias atuais. Desde que nos conhecemos como gente, sabemos o que é um táxi. Pelo menos uma vez na vida, você deve ter entrado em um, e até mesmo reclamado dele. No Rio de Janeiro, é normal queixar-se sobre como o serviço é precário e especialista em encontrar rotas longas e demoradas fazendo a ida do Flamengo ao Centro levar cerca de trinta minutos somente para beneficiar o bolso do motorista. Sabemos também como a grande maioria pode ser de motoristas mal educados. Felizmente, não são todos, mas preocupa-me quando a maioria acaba agindo dessa maneira, prestando um serviço extremamente caótico.

Reivindicando as mesmas coisas que nós, seu fundador teve a ideia na Europa quando, ao esperar um táxi, não obteve muito sucesso, tanto pela demora, quanto pelo serviço. Vendo assim, sabemos que o problema não é de escala nacional: é mundial. Basta abrir o jornal para vermos taxistas franceses agindo da mesma maneira que os brasileiros. E basta procurar os comentários de usuários da Uber no país da baguete sobre os taxistas que veremos uma enorme similaridade nos casos.

Assim como a rede Randall’s atiçou o pensamento do ex-presidente russo pois oferecia diversas opções alimentícias ao cliente final, a Uber, inovadora e pioneira em enfrentar um mercado protegido por estatistas assim como a economia russa era, tornando-o um monopólio de décadas, acabamos por ter a mesma reação de Boris Yeltsin ao instalarmos o aplicativo e percebermos que, além do táxi — no exterior, pelo aplicativo da Uber, podemos pedir um táxi amarelinho, clássico, como o 99Taxi e EasyTaxi fazem — , existem diversas opções (até melhores, inclusive) de carros, valores e tratamento, visto que os motoristas da modalidade UberBlack são instruídos a serem formais com os passageiros a ponto de abrir a porta ao mesmo.

Porém, atentem-se a um fato: o consumidor, assim como não é obrigado a utilizar somente os carros da Uber após fazer o seu cadastro, não é obrigado também a utilizar somente os amarelinhos, e nem deve ser. Mesmo que haja uma legislação dizendo que somente táxis tenham o direito, a autorização, de praticar este serviço, se esquecem que a única lei que pode e deve atuar na sociedade são as inexoráveis leis do mercado, que concede o poder ao consumidor final, permitindo-lhe escolher o que melhor satisfaz a sua vontade — o que não é respeitado em muitas partes do mundo, especialmente no Brasil, visto que a economia brasileira está em completo controle estatal, pois há uma vasta quantidade de regulamentações e leis tanto querendo impor controle aos produtos, como querendo controlar a forma em que o empregador atua com o seu colaborador.

Assim como a história da Coca-Cola transparente, a rede Randall’s teve o seu impacto na sociedade mundial e soviética. Porém, um mercadinho pôde impactar mais que o refrigerante, mostrando o quanto é necessário prestarmos atenção a estas particularidades, fazendo com que a existência da Uber seja crucial para nos alertar alguns pontos, em especial, nos mostrar como a livre concorrência pode nos trazer além de diversas opções de consumo, melhorias tanto aos consumidores, como aos trabalhadores. Porém, infelizmente, o Brasil tem muito o que evoluir por conta das regulamentações (prefeituras administrando a fiscalização e concessão de licenças a taxistas), leis trabalhistas (impedindo a negociação entre empregado e empregador para melhores condições de trabalho), controle de preços (combustíveis com valores premeditados pelo governo) e leis protecionistas (exclusividade aos taxistas para cumprirem este serviço) existentes, atuando como ancoras, evitando a vinda de serviços com qualidade e eficiência às terras tupiniquins, impedindo a nossa “revolução”.