Raio-X: Adílio

“Em dezembro de 81 botou os ingleses na roda, 3x0 no Liverpool. Ficou marcado na história”

A primeira metade da década de 80 é festejada e cantada por flamenguistas ao redor do Brasil e do mundo até hoje — e com muitos méritos. A seleção vestida de rubro-negro e liderada por Zico alcançou feitos históricos entre 1980 e 1983: venceu três Campeonatos Brasileiros, uma Libertadores e um título mundial. A torcida do Flamengo enche a voz para celebrar o feito toda vez que entra em um estádio — e tem todo o direito para tal. E enquanto os gols de Zico e Nunes não saem da cabeça e o público geral conheça outros nomes importantes daquela conquista como o goleiro Raul Plassman e os laterais Leandro e Júnior, não há um torcedor do Flamengo que não se lembre com afinidade do motorzinho do time, de imposição física mas também passe preciso e até goleador quando era necessário: Adílio, categoricamente credenciado como o maior camisa 8 da rica história da Gávea. E, adivinhe? Sem ele, talvez a torcida flamenguista cantasse até hoje: “2 a 0 no Liverpool….”

Início de carreira

Adílio nasceu no Rio de Janeiro em um 15 de maio de 1956 e foi morador da Cruzada São Sebastião. Na infância, já tinha o hábito de pular os muros do Flamengo para ver os jogadores de perto e acompanhar os treinos. Será que já naquela época ele sonhava em vestir rubro-negro? Não se sabe, mas é certo que Adílio chegou ainda criança ao Flamengo. Foi Dominguinhos, outro importante ex-jogador flamenguista, que encontrou e se impressionou com o talento do franzino menino. Aos seis anos, já jogava futsal, onde desenvolveu a habilidade nos pés e a paixão pelo “Mengão” no coração. Fez parte, então, de uma geração de ouro criada ali mesmo, na Gávea, que contou com o falecido Geraldo, o companheiro de meio-campo Andrade e o grande amigo Arthur Coimbra, também conhecido como galinho Zico.

O amor entre Adílio e o Flamengo foi sempre recíproco (Foto: www.colunadoflamengo.com)

Adílio fez sua estreia no profissional em 1975 e, aos 21 anos, já era o dono da camisa 8 que o consagraria. Adílio era o ponto de equilíbrio em uma equipe que contava com a genialidade de Zico e o refino de Andrade. Hoje em dia, comentaristas diriam que Adílio fazia o box-to-box: dono de uma potência física impressionante, saía com velocidade e aparecia como elemento surpresa dentro da área. E isso tudo sem abrir mão da técnica, capaz de passes milimétricos e domínios geniais. Com esta trinca de respeito no caroço do jogo, era claro que os títulos não demorariam a vir.

Eterno camisa 8

Flamengo e o início do auge

Adílio e seus companheiros conquistaram o terceiro tricampeonato estadual da história do Flamengo, ao vencer as competições de 78, 79 e o Campeonato Especial realizado também em 79. Era a entrada para o que seria um banquete de alegrias flamenguistas nos próximos anos.

O ano de 1980 trouxe ao Flamengo o primeiro título nacional de sua história, com Adílio em seu elenco. É verdade que o meio-campista não jogou a primeira partida da final e entrou apenas no decorrer do jogo no decisivo (e polêmico) 3–2 contra o Atlético-MG, mas é de se imaginar que Adílio pouco se importou com isso ao levantar a taça.

Adílio pra Zico, de Zico pra Adílio: parceria inesgotável (Foto: livroanacao.blogspot.com)

1981: o ano que jamais vai acabar

Então veio 1981. Adílio e o Flamengo chegaram ao ápice de sua glória, conquistando a Libertadores, o Mundial e até o Campeonato Carioca, em cima do rival Vasco. Foram três títulos em 21 dias e Adílio foi fundamental, marcando gols na finalíssima do Carioca e do Mundial. Não restavam mais dúvidas: Adílio já tinha garantido seu nome nas memórias rubro-negras para toda a eternidade. O menino da Cruzada São Sebastião se tornou dono do mundo e tem recordações carinhosas daquele que foi o maior título de sua carreira.

O esquadrão do Mundial, com Adílio como ponto de equilíbrio (Foto: www.imortaisdofutebol.com)

“Recordo toda aquela realização que foi conseguida por nós, pelo nosso clube,” ele contou ao site oficial do Flamengo, em seu aniversário de 58 anos, em 2014. “Foi algo muito bom participar daquele grupo, uma coisa mágica para todos nós. Foi algo do destino; estávamos lá no dia certo e no clube certo. Se fosse por outro time, não conquistaríamos o troféu, era o Flamengo”, lembrou.

Nos próximos anos, Adílio ainda conquistaria para o Flamengo dois Brasileiros seguidos, em 82 e 83 (neste, com uma atuação de gala na final contra o Santos, com direito a mais um gol), e mais um estadual em 1986. O casamento com o clube rendeu três Campeonatos Brasileiros, quatro estaduais, um título da Libertadores e o Mundial Interclubes. A camisa flamenguista — a qual ele defendeu por 611 jogos e marcou 128 gols — se tornou a segunda pele de Adílson. Ele é, até hoje, o 12º maior goleador da história do clube.

Fim de uma era e aventuras por outras quadras

Adílio deixou o Flamengo após todas as glórias em 1987, para jogar no Coritiba. Após discretos dois anos, tomou um avião e foi jogar no Barcelona de Guayaquil, onde sagrou-se campeão equatoriano em 1989. No mesmo ano, voltou às quadras de futsal e chegou à seleção brasileira, onde conquistou a Copa do Mundo na Holanda, derrotando os anfitriões na final.

Adílio ainda voltaria ao Flamengo em 1990, mas sem o mesmo sucesso. Passou então a pular de clube em clube, entre eles o Alianza Lima, no Perú, o Avaí e o Friburguense, até encerrar a carreira em 1997 jogando pelo modesto Barra Mansa Futebol Clube, no Rio de Janeiro.

O ex-camisa 8 ainda trocaria as chuteiras de jogador pelo apito de técnico: comandou o Bahain, na Arábia Saudita e as categorias de base do seu querido Flamengo, onde conquistou títulos estaduais sub-17 e sub-20.

O Adílio dos apitos e do boné (Foto: adiliocamisa8.blogspot.com)

Seleção Brasileira

Adílio não teve muita sorte — ou sequer oportunidades — pela seleção brasileira. Foram apenas dois amistosos: um deles, no Maracanã, em 1982, contra a Alemanha. Neste dia, o Brasil venceu por 1 a 0, com gol de Júnior e assistência de Adílio. Há quem diga que o esquadrão brasileiro que disputou a Copa de 1982 estaria melhor servido com Adílio. Esta discussão, porém, deixamos para as mesas de bar.

O menino da Gávea vestindo a amarelinha (Foto: www.historiadordofutebol.com.br)

Dias atuais

Adílio já não é mais treinador das categorias de base do Flamengo, mas seu amor pelo clube continua em evidência. Hoje em dia, ele empresta todo seu talento para o Fla Master, equipe de veteranos do clube. A dupla Flamengo e Adílio é uma que foi cultivada desde o nascimento do jogador e não terminará nem mesmo quando ele nos deixar.