Como fazer com que o desenvolvimento da ciência e sua aplicação caminhem juntos no Brasil?

Estadão, 06/09/2017: "(…) Se você toma remédio para hipertensão, também deve um obrigado à ciência brasileira. O princípio ativo de um dos medicamentos mais usados no mundo para controle de pressão arterial, conhecido como captopril, foi descoberto no veneno da jararaca por um cientista brasileiro, Sérgio Henrique Ferreira, da Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão Preto, na década de 1960. A indústria brasileira da época não estava capacitada a fazer o desenvolvimento tecnológico necessário para transformar a tal molécula em fármaco, por isso a droga acabou sendo desenvolvida fora do país; mas a ciência básica que deu origem a ela foi 100% brasileira."

Os cortes de verbas governamentais para a ciência brasileira — que já somam mais de 70% nos últimos 3 anos — têm sido ponto de atenção de diversos artigos recentes. Esse fato pode ser visto como sintomático, evidenciando uma percepção distorcida da importância da ciência brasileira na geração de bem estar social e avanço tecnológico de uma maneira geral. Tal distorção não só permeia a política por trás de tais infelizes decisões, mas também empresários, acadêmicos e cidadãos em geral, que enxergam a relação entre ciência e aplicação como extremos opostos — e é por isso que resolvemos produzir esse post.

Louis Pasteur, o grande nome desse post!

Desmistificando a polaridade entre ciência básica e aplicada

Inicialmente, contextualizaremos com um pouco sobre a história da ciência. Embora a ciência tenha seus séculos de história, foi somente na segunda guerra mundial em que se pode vislumbrar o impacto do desenvolvimento científico no avanço de uma nação — não somente sob o ponto de vista armamentista, que realmente teve um grande pico na época, mas também em temas como saúde pública e telecomunicações. Tal percepção foi marcante o suficiente para que o presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, solicitasse a um dos líderes científicos do país, Vannevar Bush, uma melhor orientação sobre como continuar os avanços da ciência no país de modo a dar continuidade aos avanços tecnológicos para um bem estar social. O documento solicitado se tornou um dos principais textos do século XX, o relatório "Science: The Endless Frontier", que trazia diversos benefícios da ciência e defendia a necessidade de um investimento massivo em ciência pura para que suas aplicações naturalmente florescessem. O documento de Bush influenciou políticas de ciência e tecnologia no mundo inteiro, mas, infelizmente, algumas de suas premissas ganharam uma interpretação exagerada e a visão que polarizava uma "ciência pura" de uma "ciência aplicada" de maneira linear acabou por fazer parte da visão de boa parte das pessoas e decisores públicos.

Com os trabalhos sobre a filosofia da ciência avançando, novas interpretações questionando o modelo linear de ciência e aplicação começaram a surgir, como os trabalhos de Kline e Rosenberg e Donald Stokes. Stokes faz uma excelente construção sobre uma nova maneira de se olhar a lógica do desenvolvimento científico aplicado ao analisar os trabalhos de Louis Pasteur, o pai da microbiologia, em seu livro "O Quadrante de Pasteur". Segundo Stokes, Pasteur fez a ciência básica avançar ao tentar resolver grandes problemas industriais relacionados a fermentação e outros desafios, o que aponta um horizonte no qual a ciência básica e a ciência aplicada podem navegar juntas. Essa abordagem alimenta a provocação central de Stokes: o que antes era um eixo único com dois extremos (busca por um entendimento básico de um fenômeno natural x busca pela aplicação prática da descoberta) poderia ser lido como dois eixos, formando o que o autor cunhou como Quadrante de Pasteur da pesquisa científica:

Fonte: Ipiranga e Almeida (2012): O tipo de pesquisa e a cooperação universidade, empresa e governo: uma análise na rede nordeste de biotecnologia. Revista Organização e Sociedade.

Havendo dois grandes eixos, busca por entendimento fundamental x considerações de uso, podem ser explorados 3 quadrantes principais: (i) o da pesquisa básica pura, fundamental para os avanços tecnológicos a longo prazo (Neils Bohr é um dos grandes nomes da teoria quântica, que hoje está presente em diversas aplicações, como o GPS do seu celular); (ii) o da pesquisa aplicada pura, com a figura de Edison e seu corpo de inventores em Menlo Park, que eram orientados somente para o avanço das aplicações, devendo evitar a atenção às investigações científicas mais aprofundadas; (iii) o quadrante de Pasteur, onde há uma colaboração da orientação de uso no processo de descoberta e aprofundamentos referentes aos entendimentos fundamentais da ciência. O quadrante de Pasteur, portanto, nos traz uma importante mensagem: a necessidade de se parar de reproduzir uma mentalidade polarizada entre ciência e aplicação — mentalidade que tem consequências como falta de apoio à ciência por parte do governo, incapacidade de empresas em se relacionar com a pesquisa e falta de maturidade de cientistas para se abrir a uma aplicação de seus avanços.

Tudo bem, já filosofamos demais sobre a ciência — mas e a prática?

Na prática, o quadrante de Pasteur pode ser implementado em arranjos institucionais que possibilitam uma atenção à aplicação orientando o desenvolvimento da pesquisa, mas ao mesmo tempo não desprezando os avanços dos entendimentos fundamentais da ciência envolvida. Algumas premissas que consideramos chave para esse amadurecimento nos mecanismos brasileiros:

— Começar pequeno e construir uma plataforma de cooperação: sabendo que as lógicas institucionais (empresariado e academia) podem ser conflitantes, algumas universidades têm desenhado planos de implementação que começam com pequenos projetos e vão buscando maior alinhamento ao refinar a aproximação institucional. Nesses modelos, tem-se conseguido desenvolvimento aplicado e, ao mesmo tempo, investimento profundo em entendimento fundamental. Recomendamos esse trabalho sobre o desenvolvimento dessas plataformas na Finlândia.

—Apostar em mecanismos institucionais de catálise: para minimizar o insulamento das universidades e centros de pesquisa em relação à aplicação da ciência desenvolvida, algumas organizações podem auxiliar, como o papel das incubadoras, aceleradoras e parques tecnológicos, bem como dos mais recentes Proof of Concept Centers e Translational Programs.

— Fortalecer as pontes e os tradutores: como muitas vezes os desafios são na aproximação de universos que não têm o costume de dialogar, temos visto alguns projetos interessantes de conexão e tradução. Aqui enxergamos dois movimentos interessantes no Brasil: (i) Programas de vitrine tecnológica, nos quais empresas apresentam seus desafios em uma vitrine, ao passo que pesquisadores apresentam suas pesquisas em outra e ambos navegam por tais (casos como o do Sistema Mineiro de Inovação, o da Inova Unicamp e da Embrapa podem gerar bons frutos); (ii) Programas de mestrado profissional, que tem formado mestres capazes de compreender as dinâmicas da pesquisa científica, mas que ao mesmo tempo conseguem navegar pelas lógicas institucionais empresariais (temos os exemplos de Mestrado Profissional em Empreendedorismo da USP e Mestrado Profissional em Inovação Tecnológica e Propriedade Intelectual da UFMG).

Conclusões

É importante compreender que o avanço tecnológico de uma nação desempenha um grande papel na sua melhoria econômica. Para quem quiser mergulhar mais em uma visão dos economistas sobre o assunto, recomendamos conhecer o modelo que deu um Nobel para Robert Solow (cujos trabalhos apresentam certa complexidade na econometria, mas são explicados de com uma didática excelente nesses vídeos curtinhos) ou os trabalhos de Schumpeter, que defendiam a importância das inovações na reinvenção e modernização de economias. E essa compreensão nos faz acreditar bastante na necessidade do investimento na ciência brasileira sem o preconceito da oposição linear entre ciência básica e aplicação que permeia a mentalidade de decisores públicos, de gestores e de cientistas.

Essa mudança de postura no Brasil deve orientar uma atenção a todos os quadrantes propostos por Stokes, não se limitando a uma visão de oposição conflitante que impede o diálogo e a cooperação. Nosso país tem um potencial intelectual enorme, mas ainda carece de maturidade por parte de todas as instituições para maior abertura a uma cooperação e desenvolvimento de uma ciência de impacto. Essa é uma das maiores crenças nossas na Wylinka e esperamos poder ter influenciado você, leitor, à melhoria do nosso país.

p.s.: um caso muito legal de melhoria nas relações entre ciência básica e aplicada é o realizado pelo pessoal da UFMG com o INCT Midas, que se volta para tecnologias de materiais e resíduos. Além de avançarem bastante nesse sentido (vejam o vídeo abaixo), o pessoal do Midas está junto com a Wylinka na criação do primeiro Proof of Concept Center no Brasil — especialmente voltado para essa atuação!

Sugestões para aprofundamento no tema:
 — Livro: O quadrante de Pasteur, Donald Stokes
— Artigo: Ipiranga e Almeida (2012): O tipo de pesquisa e a cooperação universidade, empresa e governo: uma análise na rede nordeste de biotecnologia. Revista Organização e Sociedade.
— Case Wylinka: Fiocruz e o desenvolvimento de uma vacina de DNA com apoio da Wylinka nos processos de transferência de tecnologia.

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