Como o MIT ensina empreendedorismo (e como aplicamos isso no Brasil).

Quem nos acompanha, já sabe: somos um pouco obcecados por tudo que o MIT faz quando o assunto é empreendedorismo e inovação. Isso porque o nosso sonho grande na Wylinka dialoga muito com a missão do MIT — sonhamos em ver mais conhecimento científico sendo transformado em inovação tecnológica e melhoria social, enquanto o MIT nasce com a missão original de mens et manus, a mente e as mãos, a pesquisa e a aplicação, caminhando juntas. Com isso, temos gestores que já foram para lá realizar cursos, pesquisas e aprofundar mais o entendimento de como aumentar o potencial das universidades brasileiras no transbordamento de seus conhecimentos. O post de hoje é sobre uma pesquisa realizada por um dos gestores da Wylinka lá no MIT, e é também sobre um programa nosso de formação de líderes empreendedores.

Primeira pergunta: como o MIT ensina empreendedorismo? Hora de mergulhar fundo na resposta. E…ah…em paralelo, vamos contar sobre como implementamos aprendizados no nosso programa Wylinka Experience — um programa de formação de jovens líderes para o desenvolvimento de ecossistemas de empreendedorismo e inovação no Brasil.

Foto realizada durante a pesquisa para demonstrar os ambientes de criação do MIT.

O primeiro grande insight da pesquisa realizada foi que muito do que se fala no ambiente acadêmico sobre ensino de empreendedorismo hoje gira em torno dos professores. Um dos papers mais citados no mundo sobre ensino de empreendedorismo, por exemplo, reforça constantemente que essa é uma tarefa dos professores. A resposta do MIT? É muito além disso. Os professores são uma parte importante, mas as universidades desenvolvem seus ecossistemas na formação de um empreendedor — e isso passa por salas de aula, experiências extra-curriculares e conexões externas quando começando a empreender. No paper publicado pelo nosso gestor, três níveis ocorrem no processo de formação do aluno no MIT: (i) o aprendizado em sala de aula, (ii) a vivência extra-curricular na universidade e (iii) uma rede de mentores em programas bem desenhados. Permeando os 3 níveis, tem-se uma cultura de empreendedorismo sólida, fomentada por histórias de sucesso, mentalidade acadêmica aberta à inovação e constante interface com empresas e outras alavancas.

1. O aprendizado em sala de aula

Como toda instituição de ensino focada em alta tecnologia, o MIT têm muitas disciplinas técnicas e profundas (não, não dá para fugir das aulas de cálculo, álgebra linear, química, física ou outras fundamentais), porém, o Instituto se diferencia pelo seu grande volume de disciplinas baseadas em projetos (project based learning), nas quais os alunos aprendem construindo coisas ou desenvolvendo projetos de ponta a ponta. E mais: o nome das disciplinas práticas são super atrativos, como "How to build (almost) anything" ou "Science fiction to Science fabrication". Nas disciplinas, os alunos aprendem não só a construir como a refletir sobre os impactos das tecnologias na transformação da sociedade, como nas palavras de um professor ditas em uma das entrevistas: o importante é o aluno ter profundidade de pensamento, pois "o grande inovador não é o que pensa no carro, mas o que vislumbra o trânsito". Abaixo, um vídeo de uma das disciplinas mais famosas, a 2.009, que coloca desafios e competições para os alunos, tornando a atmosfera vibrante e, ao mesmo tempo, ultra exigente:

E como implementamos isso no nosso programa de formação de líderes? No Wylinka Experience (ou WYXP), criamos diversas atividades onde os participantes precisam refletir e trazer soluções inovadoras para problemas reais — realmente construindo coisas. Uma outra atividade que executamos, inspirada na disciplina do vídeo acima, foi o "product/service teardown", no qual os participantes tinham que desmontar hardwares (ex: um Kindle) ou serviços (ex: uma startup de BH) para entender cada parte do ecossistema que compunha a solução. Uma outra atividade foi a vivência hands-on de um dos maiores produtos da Wylinka, a Diligência de Inovação (análise de patentes/tecnologias de centros de pesquisa com foco em transferência e implementação real). Os participantes realizaram Diligências em 5 tecnologias desenvolvidas na UFMG, tendo que aprender com a mão na massa o dia-a-dia de fazer tecnologias de centros de pesquisa serem levados para o mercado. Com isso vamos trazendo uma visão mais profunda de soluções e aplicações, além de trazer um aprendizado vivencial e empolgante para os participantes.

2. A vivência extra-curricular importa muito

(em outro hack famoso, os alunos transformaram um prédio da Universidade em um jogo de tetris gigante)

Se engajar em atividades que inspiram é uma das grandes alavancas do ensino no MIT. Existem diversos grupos de competição, clubes de empreendedorismo e outras organizações auto-gerenciadas que trazem um grande amadurecimento sobre como é gerenciar tarefas por conta própria e trabalhar em equipes em longo prazo. Um dos exemplos famosos é o MIT Hacks, um grupo no qual os alunos "hackeiam" o MIT, fazendo intervenções inteligentes e provocativas no campus — o mais famoso Hack foi terem colocado um caminhão de bombeiros no topo do prédio central (já imaginaram a competência exigida para uma façanha dessas?). Com uma vivência real e engajada, o aluno se apropria da própria jornada de aprendizado — entrando em um ciclo onde a experiência vem primeiro e a reflexão sobre tal experiência vem depois, conectando pontos e conhecimentos que formam um aprendizado mais significativo (para mais, recomendamos ler os trabalhos de Kolb sobre aprendizagem baseada em experiências).

No WYXP, organizamos uma imersão real: os participantes deixam suas casas para mergulhar em uma "república", tendo que gerenciar as rotinas e as tarefas do programa. Além disso, são provocados pensar em soluções para problemas que estão vivenciando na cidade. Em um ano do programa, por exemplo, eles aproveitaram o Carnaval de Belo Horizonte com a tarefa de produzir soluções para problemas ocorridos, como taxis molhados com as chuvas do período. O aprendizado fica mais significativo quando envolve carnaval. :)

“The Media Lab focuses on ‘uniqueness, impact and magic’. What our students and faculty do should be unique. We shouldn’t be doing something that someone else is doing. If someone else starts doing it, we should stop. Everything we do should have impact. Lastly, things should induce us to be passionate and should go beyond incremental thinking. ‘Magic’ means that we take on projects that inspire us. In the Lifelong Kindergarten group, researchers often describe the ‘Four Ps of Creative Learning’ as Projects, Peers, Passion and Play. Play is extremely important for creative learning. There is a great deal of research showing that rewards and pressure can motivate people to ‘produce’, but creative learning and thinking requires the ‘space’ that play creates. Pressure and rewards can often diminish that space, and thus, squash creative thinking.” Joi Ito, chefe do MIT Media Lab

3. Construa algo de verdade e aprenda no caminho

Como muitos alunos têm uma orientação empreendedora, o MIT oferece diversos programas de apoio, como o Sandbox, que oferece pequenos valores (US$5.000, US$15.000 etc.) para alunos com ideias querendo começar. A partir desse start, o aluno é colocado em uma trilha de mentoria e suporte únicos que o alavancam bastante enquanto constrói seu negócio. Foi identificado na pesquisa o que chamam de "looping de feedback": o aluno aprende algo, vivencia, interage com um mentor e reaprende com mais profundidade a partir de conselhos e vivências pessoais. O papel do mentor é mostrar o caminho das pedras já vivenciado, de modo a orientar o aluno que está começando a trilhar caminhos mais seguros e com mais bagagem. Essa oportunidade de empreender e ter contato com mentores experientes é o que pavimenta aprendizados para caminhos futuros, sendo um aprendizado muito mais significativo que qualquer aula expositiva.

No Wylinka Experience, empurramos os participantes escada abaixo para executarem seus projetos. A ideia é tirar aquela ideia do papel e tentá-la transformar em algo viável — sendo que no caminho os participantes tem acesso a toda a rede de especialistas da Wylinka de modo a ir amadurecendo e melhorando a proposta. O último dia é um demo day, no qual os participantes sobem ao palco para mostrar tudo que evoluíram e seus projetos finais. Essa vivência prática é fundamental, e tivemos resultados super legais como 36 projetos realizados em 2018, envolvendo mais de 100 conexões diretas, 60 horas de mentoria, 23 visitas/pesquisas em ecossistemas e 68 horas de conteúdo aplicado :)

Conclusão

Um tópico de fechamento muito importante navega com a provocação inicial: qualquer um pode aprender a ser empreendedor, mas será que o ensino de empreendedorismo é possível? No modelo clássico, somente centrado em aulas expositivas no formato de sala de aula, achamos bem difícil. É importante compreender que não é sobre ensino de empreendedorismo, e sim sobre formação de empreendedores — e essa formação passa pelo ensino de (i) conceitos, como termodinâmica, linguagens de programação e nanotecnologia; (ii) procedimentos, como construir um sistema, desenvolver um plano de marketing etc.; (iii) atitudes, como resiliência, trabalho em equipe etc.. Em paralelo aos modelos clássicos de formação de competências, é um trabalho análogo aos (i) conhecimentos, (ii) habilidades e (iii) atitudes. Abordar o ensino de empreendedorismo com ênfase somente em conhecimentos é cair no erro que muitos estão caindo, que é achar que empreendedorismo pode ser ensinado somente dentro de salas de aula. No Wylinka Experience, o foco era bastante no “experience” — voltado para estimular essa vivência real que ia muito além da teoria. Como um dos participantes da edição de 2018 colocou em um depoimento sobre o programa:

“O valor de uma imersão real, onde as 10 pessoas não só moram juntas, mas dividem rotinas de trabalho e lazer, olhando agora para trás, é inestimável. Se a proposta do programa era não só capacitar, mas inspirar jovens já inquietos a aprenderem a mobilizarem redes e atacarem problemas com grande vigor, o objetivo foi alcançado. Talvez o mais sofrido do processo é todos voltarem para terra natal recém saídos de uma rotina intensa e ver que está tudo parado. (…) Espero que não só o Wylinka Experience continue, já que com só duas edições já conta com um grupo de alumni incrível, mas que se desenvolva e crie um modelo vencedor em formar lideranças para além da base teórica. Com muito foco em Soft Skills (Não é mensurável como melhoramos em apresentação e expressão corporal), Criação de redes, o processo de mentoria virtualmente Full Time (inclusive nas horas de folga), a integração com o ecossistema de BH e todas as outras coisas que só se aprende na prática.” Ernani Castro, UFRJ

Nós entendemos que quando se fala em MIT é sempre importante entender que o contexto é outro, mas ainda assim acreditamos muito no poder de estudar as boas práticas deles e tentar replicar no Brasil. E é por isso que escrevemos tantos textos sobre empreendedorismo nas universidades — porque temos visto bons exercícios de replicação no Brasil e temos participado e muitos esforços nesse sentido, vendo resultados incríveis surgindo do esforço de instituições que dão a alma para fazer do nosso país um lugar melhor. :)

Não poderíamos deixar de agradecer os patrocinadores e apoiadores das edições anteriores do nosso WYXP: CEMIG, SEDECTES-MG (Secretaria de Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Estado de Minas Gerais), Rádio 98FM, Adrena Hostel e Laboratório de Estudos sobre Trabalho, Sociabilidade e Saúde do Depatartamento de Psicologia da UFMG. E você, quer fazer parte desse movimento? Já estamos com os motores ligados para a edição de 2019 do Wylinka Experience, e queremos fazer muito mais no ano que vem! Se você é estudante e quer participar, é só nos acompanhar pelo facebook que vamos divulgando as novidades; e caso você seja uma instituição interessada em executar isso com a gente, ainda estamos fechando nossas estruturas de parceria e patrocínio para 2019 — é só mandar um email para contato@wylinka.org.br que a gente conversa mais!

E, ah…não poderíamos de deixar o link para conferir o artigo publicado sobre a pesquisa de um dos nossos gestores lá no MIT: Artigo sobre o ensino do MIT que baseou todo esse post (clique aqui para ler). Já escrevemos outros textos bem divulgados sobre empreendedorismo nas universidades, tais como:

  1. Universidades: a inovação mora na tradução.

2. Como fazer com que o desenvolvimento da ciência e sua aplicação caminhem juntos no Brasil?

3. Proof of Concept Centers: um novo mecanismo para o empreendedorismo nas universidades?

4. Os novos horizontes do ensino de empreendedorismo e inovação ao redor do mundo.

Esperamos que tenham gostado! Qualquer outro interesse em atuação conjunta é só mandar um email para o contato@wylinka.org.br ou mandar uma mensagem lá pelo nosso site (aproveita e conhece mais nossos cases de sucesso, como o desenvolvimento de um programa de desenvolvimento de startups na graduação da UFMG).

Because when you rock, #wyrock :)

Autor (do texto e da pesquisa no MIT): Artur Vilas Boas.