E se os políticos brasileiros estudassem design?

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Jan 20 · 6 min read

Mudanças, mudanças, mudanças. Esse é um dos períodos de maior transformação política da última década, envolvendo não só a mudança na presidência do país (para melhor ou pior, a escolha deixamos por conta do leitor), mas também uma maior conscientização da população sobre a importância de melhores instituições e políticas públicas bem desenhadas. Aqui na Wylinka já estamos há alguns anos trabalhando com políticas públicas, especialmente com a nossa ênfase para inovação e desenvolvimento de ecossistemas de empreendedorismo. Um dos maiores exemplos do nosso trabalho foi o SEED, programa do Governo de Minas Gerais de aceleração de startups e desenvolvimento regional, no qual a Wylinka foi a entidade gestora das duas primeiras rodadas (colocaremos um link com aprendizados no fim deste post).

Mas eis que em 2018 fomos levados a um novo patamar em termos de política pública para o Brasil: fomos selecionados pelo NESTA (National Endowment for Science Technology and Arts — United Kingdom) para sermos os parceiros locais que cuidariam de um programa de aceleração de políticas públicas que está sendo realizada em 11 países diferentes. O projeto está em andamento, envolvendo a realização e participação de diversos agentes importantes das políticas públicas brasileiras (MDIC, FINEP, SEBRAE, MCTIC e outros) e workshops nacionais espalhados pelo Brasil — e até mesmo imersões no Reino Unido para o entendimento de boas práticas britânicas em políticas públicas. A provocação central desse programa? Policy makers precisam dominar design. E por isso esse post: compilar um pouquinho dos aprendizados e ferramentais principais para melhor auxiliar nossos leitores que atuam ou influenciam políticas públicas do Brasil nesses próximos anos de mudanças :)

E por que design? Primeiro, à definição.

Design vem do latim designare, que significa “dar significado”. No fim do dia, designers possuem uma série de ferramentas e frameworks, bem como bagagem crítica, para construir coisas, espaços, processos e muito mais. Não, Design não é só sobre criar arte. Muito dos processos criativos vem de uma orientação centrada no usuário, na qual utiliza-se diversos exercícios para coletar dados e um maior entendimento sobre o usuário de modo a projetar algo para o mesmo. Daí temos práticas ligadas à etnografia (método que vem da antropologia para coletar dados sobre etnias) e também uma orientação a construir e iterar diversas vezes as soluções até chegar em um conceito final de impacto. Steve Jobs, por exemplo, tinha uma ligação profunda com o design por sempre querer construir coisas que tivessem profundo significado para seus usuários — com um resultado que se assemelhasse a uma obra de arte (recomendamos muito a biografia do Jonny Ive, chefe de design da Apple que trazia a formação de designer para os sonhos de Jobs).

E isso funciona para a política pública?

A boa notícia é que sim, funciona. E esse é o elemento central do programa de aceleração de políticas públicas que estamos executando: utilizar ferramentas do design para que o desenho de políticas públicas seja mais assertivo em sua orientação às populações, modernizando e capacitando decisores públicos para um país melhor. Alguns elementos interessantes do processo, em 4 fases:

Definindo com clareza o desafio a ser resolvido.

Uma etapa importante de processos de design é a definição formal do “design challenge”, que é o entendimento das diversas possibilidades e a escolha de uma a se concentrar. Geralmente, são realizados exercícios de apresentação de desafios e, especialmente para políticas públicas, organização sistemática dos mesmos e dados que explicitam os problemas. No framework do governo britânico, há uma montanha de ferramentas interessantes, tais como o Evidence Safari e o Policy Canvas.

Descobrindo e compreendendo as dores dos usuários

Dado que o desafio já está definido, é hora de mergulhar nas dores do usuário para entendê-las com maior profunidade. E aí entram as diversas ferramentas emprestadas da antropologia, como entrevistas em profundidade, captura de dados por meio de redes sociais e observação in loco. O governo do Reino Unido organizou uma lista com 11 ferramentas e técnicas super úteis para o contexto de desenho de políticas públicas, como o Guerrilla Testing e os Idea days and policy jams.

Traduzindo as dores do usuário em políticas e serviços

Esse é um momento de ideação. Com as diversas informações em profundidade coletadas na etapa anterior, são exploradas diversas possibilidades. A ideia aqui é coletar o máximo de ideias possíveis — tentando trazer pessoas diferentes para o processo e colocando ferramentas que auxiliem a pensar fora da caixa, tais como os change cards, que são perguntas propositivas que adicionam restrições em alguns momentos de ideação (exemplos: e se tivéssemos um terço do orçamento atual? e se isso fosse desenhado no futuro, como no ano de 2119?). Essas atividades, com uma série de outras, ajudam a pensar em novas soluções e estimular a criatividade do processo.

Melhorando as ideias por meio de prototipagem e iteração

Como falamos anteriormente, designers se beneficiam muito de exercícios de prototipagem iterando soluções até chegar em uma ideal. Muitos se perguntam: mas dá para prototipar políticas públicas? Existem duas respostas confirmatórias aqui. A primeira, é do modelo britânico: como em todo processo de design de serviços, você pode prototipar com simulações e outros exercícios — em um exemplo, conta-se como foi desenvolvida uma solução de notificação de crimes com base em bonecos de lego + produção de um vídeo simples para a demonstração de como seria a solução. Hoje, o serviço já foi implementado nas grandes cidades britânicas de Sussex e Surrey. A segunda é uma que tem ficado famosa pelo mundo, que são os sandbox de políticas públicas — ou seja, políticas realizadas em pequenas escalas para validar se funcionam. A China tem se especializado nisso e a América Latina tem tentado explorar uma coisa ou outra, como pode ser visto no estudo “Sandbox regulatório na América Latina e Caribe para o ecossistema FinTech e o sistema financeiro”.

Conclusão? Políticos precisam estudar mais design — e nós estamos aqui para ajudar :)

Esse programa GIPA (Global Innovation Policy Accelerator) está sendo único para a Wylinka e estamos conseguindo aprender muito com o NESTA, que se destaca por ser uma das principais organizações do mundo para esse tipo de trabalho. No caso brasileiro, dois grandes primeiros impactos são notáveis: (i) uma alteração no mindset dos decisores públicos, que passam a considerar a ideia de “prototipagem de políticas públicas”, com pequenos testes em vez de grandes projetos que acabam nunca saindo como o esperado; (ii) a maior conexão entre esses agentes, que geralmente eram vistos como capilarizados e pouco sinérgicos. Colocar as instituições para trabalharem e pensarem soluções juntas, com papéis claros e objetivos em comum permite um grande compartilhamento de recursos (humanos, gestão de conhecimento, financeiros, estruturais etc) e participação mais clara no sistema de inovação nacional. Em uma época de crise financeira e institucional, essa otimização foi apontada com um dos grandes resultados iniciais.

Estes e outros resultados nos deixam muito empolgados, e acreditamos que os próximos meses serão incríveis para o GIPA e para a Wylinka. A ideia é que possamos disseminar ao máximo isso pelo Brasil, então se você atua com o desenho de políticas públicas e quiser conversar com a gente para conhecer mais a fundo toda a metodologia e tudo que está sendo feito, mande um email para a Anna Bolívar (anna.bolivar@wylinka.org.br) , que podemos pensar em coisas juntos! =)

Alguns textos e materiais que podem ser úteis para quem quiser se aprofundar:

  1. Esses dois artigos que escrevemos sobre políticas públicas para startups no Brasil e o aprendizado com o SEED, do Governo de Minas: (i) aprendizados do SEED-MG; (ii) contribuições do SEED-MG.
  2. O Toolbox completo do Governo Britânico para inovação em políticas públicas: veja clicando aqui.
  3. Report do NESTA sobre transformação digital e desenho de políticas públicas.
  4. Esse artigo que o NESTA escreveu sobre o panorama do desenho de políticas públicas no Brasil: Reaching through the tornado - reflections from a week with Brazilian innovation policymakers.

São muitas mudanças acontecendo, e estamos torcendo para que o Brasil melhore cada vez mais com políticos capacitados e abertos à inovação, inclusive inovação na maneira de se desenhar política. Acompanhe os avanços disso tudo pelo nosso Facebook, Instagram e, se quiser nos conhecer mais, visite nosso site — www.wylinka.org.br

Because when you rock, #wyrock!

Autor: Artur Vilas Boas

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A DEEP é uma plataforma de conhecimento criada pela Wylinka com o objetivo de estimular o desenvolvimento de ecossistemas de empreendedorismo e inovação por meio de conteúdos relevantes.

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