Ecossistemas de Empreendedorismo: é hora de falar sobre termodinâmica

Tudo bem, trazer um termo que não é do cotidiano para a maioria dos leitores pode não ter sido uma boa ideia, mas a proposta de relacionar ecossistemas de empreendedorismo com termodinâmica é boa, prometemos.

E o que é termodinâmica?

"A termodinâmica (do grego θερμη, therme, significa “calor” e δυναμις, dynamis, significa “potência”) é o ramo da física que estuda as causas e os efeitos de mudanças na temperatura, pressão e volume — e de outras grandezas termodinâmicas fundamentais em casos menos gerais — em sistemas físicos em escala macroscópica. Grosso modo, calor significa “energia” em trânsito, e dinâmica se relaciona com “movimento”. Por isso, em essência, a termodinâmica estuda o movimento da energia e como a energia cria movimento. Historicamente, a termodinâmica se desenvolveu pela necessidade de aumentar-se a eficiência das primeiras máquinas a vapor, sendo em essência uma ciência experimental, que diz respeito apenas a propriedades macroscópicas ou de grande escala da matéria e energia." (Mestre Wikipedia)

Simplificando para qualquer pessoa entender: basicamente, a termodinâmica se concentra em estudar a maneira como energia/calor se transforma em movimento/trabalho.

E o que isso tem a ver com os ecossistemas de empreendedorismo? Como já falamos em outros textos, é muito comum deparar-se com diversos agentes de ecossistemas de empreendedorismo fazendo muito oba-oba: promessas de novos programas e projetos, esforços de mapeamento para possíveis contratações, discursos motivacionais, posturas muito críticas e pouco construtivas, reuniões de planejamento, discussões de novas práticas/metodologias e afins. O nome disso? Calor. É importante? Sim. O que muitos não entendem: é preciso saber converter calor em trabalho. Temos hoje nos principais ecossistemas brasileiros muito calor sendo gerado, muita empolgação e atmosfera vibrante — o que mostra que chegamos em um estágio em que há uma compreensão da importância do empreendedorismo. Porém, estamos aprendendo a converter esse calor em trabalho?

Foi pensando nessa crítica que nós, da Wylinka, resolvemos trazer algumas abordagens e ferramentas que podem ser úteis na reflexão sobre desenvolvimento de ecossistemas de empreendedorismo. O objetivo é que os agentes dos ecossistemas diversos do Brasil se apropriem dos conteúdos para que sejam desenhados esforços com maior diligência e organização.

Aspectos comportamentais no desenvolvimento de ecossistemas

Nos nossos trabalhos desenvolvendo ecossistemas de empreendedorismo no Brasil, consideramos três materiais relevantes no "como fazer" ao se desenvolver um ecossistemas de empreendedorismo: (i) os 9 pontos de Isenberg; (ii) a Boulder Thesis; (iii) a abordagem Rainforest. Os 9 pontos de Isenberg foram propostos em um artigo da Harvard Business Review e defendem que para se desenvolver um ecossistema, 9 boas práticas devem ser seguidas (recomendamos a leitura do artigo para compreender melhor, download clicando aqui):

  1. Parar de emular o Vale do Silício;
  2. Construir o ecossistema baseado nas potencialidades locais;
  3. Engajar o setor privado desde o começo;
  4. Priorizar os negócios de alto potencial;
  5. Tenha um big winner no conselho;
  6. Foque desde o começo nas mudanças culturais locais;
  7. Não dê tudo na mão, estresse as raízes;
  8. Não force demais o surgimento de clusters, apoie o crescimento orgânico;
  9. Reforme os marcos legais, burocráticos e regulatórios.

Se quiser entender melhor essas práticas apontadas em um contexto nacional, escrevemos há 2 anos um texto sobre o alinhamento do desenho do programa SEED do Governo de Minas com a proposta de Isenberg (leia aqui). Além disso, temos a Boulder Thesis — do livro Startup Communities — que se desdobra em poucos conceitos fundamentais, mas que tem se mostrado super aderente a muitos ecossistemas que têm dado certo. Os conceitos são: (i) ecossistemas de empreendedorismo devem ser liderados por empreendedores (não por governos, aceleradoras ou empresas — estes são os que dão suporte), (ii) deve haver compromisso de longo prazo (por mais difícil que seja, os líderes devem se manter consistentes na construção do ecossistema por anos/décadas — os resultados vêm com longo prazo), (iii) um ecossistema deve ser inclusivo (muitos têm medo desse elemento por conta da possível entrada de oportunistas, mas o autor defende que os oportunistas não sobrevivem a ambientes em que se exige consistência de trabalho e sacrifício de longo prazo), (iv) deve-se realizar eventos regulares para construir uma atmosfera vibrante.

O terceiro elemento é a abordagem Rainforest, do autor Victor Hwang. Esse é um livro que traz boas provocações (versão resumida do livro aqui), porém sentimos que o autor não soube desenvolver tão bem os tópicos. O que conseguimos extrair do livro foram os seguintes pontos: (i) ecossistemas são o fruto de relações entre pessoas, e isso exige confiança e auto-conhecimento; (ii) convide pessoas de diferentes ambientes para participar e force sua interação; (iii) espaços físicos importam, proximidade física entre as pessoas gera colisões, e colisões geram inovações; (iv) transforme grandes ideias em pequenas etapas, o processo de execução é o que faz a diferença. Além dos aspectos comportamentais, o livro traz boas ferramentas — e essas serão exploradas no tópico seguinte.

Tenha um framework em mãos e o utilize em um plano de ações

Uma boa ferramenta visual apresentando os diversos atores do seu ecossistema, as atividades, as relações etc. é uma maneira de trazer atenção a possíveis pontos cegos, a elementos que precisam ser trabalhados. Babson College trouxe um framework visual com 6 grandes grupos a se atentar em um ecossistema: mercados (as empresas estão abertas às startups? há uma boa cadeia de fornecedores? o networking é eficaz?); políticas públicas (há uma boa estrutura regulatória/legal? há políticos advogando em causa?; finanças (há maturidade de estruturas financeiras para os diversos estágios do processo de empreender?); cultura (a cultura local é aberta ao risco? valorizam os empreendedores? há ambição de crescimento?); mecanismos de suporte (existe infra-estrutura básica? os apoiadores, como escritórios de advocacia, consultoria, coworkings, ONGs e organizadores de eventos, são ativos e alinhados ao contexto de empresas nascentes?); capital humano (há instituições para formação de mão-de-obra? há universidades gerando riqueza intelectual em forma de pesquisadores e tecnologias? há formação de pessoas específicas para atuar em startups?). Transformar essas questões em um plano de ações é fundamental para um ecossistema se desenvolver. Outro modelo comumente utilizado é o da Up Global — download aqui. Há na abordagem Rainforest, um framework interessante foi um canvas criado pensando nessas possibilidades de um ecossistema:

Defina métricas para o ecossistema e saiba enxergar sob a ótica de maturidade

Embora seja perigoso definir métricas para um ecossistema (Lei de Campbell), ter o que medir ajuda a ter (i) para onde olhar e (ii) o que valorizar. O mais importante é compreender que ecossistemas são ambientes em evolução — e comparar ecossistemas em contextos diferentes é injusto e perigoso (por isso o recado do professor Isenberg é reforçado: pare de emular/comparar o Vale do Silício). Um ecossistema nascente tem características diferentes de um ecossistema maduro, e precisa ter métricas proporcionais para que seja avaliado de maneira prudente. Uma boa visão de ecossistemas é uma leitura feita pela equipe da Compass (antiga Startup Genome) sobre ecossistemas pelo mundo na ótica dos modelos de maturidade (leia o estudo completo aqui):

É possível perceber que alguns indicadores foram utilizados nesse modelo — capacidade de atrair recursos, capacidade de atrair know-how e crescimento (no arquivo completo você encontra diversas outras métricas para utilizar). Outros estudos foram bem fundo no contexto de métricas para um ecossistema, como a equipe da Kauffman Foundation que trouxe excelentes métricas para se avaliar a atmosfera vibrante de um ecossistema de empreendedorismo (recomendamos a leitura completa aqui):

Conclusão

Iniciamos a leitura com a provocação de que é necessário transformar o calor dos ecossistemas de empreendedorismo em trabalho — e esperamos ter cumprido com o objetivo trazendo (i) aspectos comportamentais a se atentar, (ii) ferramental prático para desenvolver planos de ações e (iii) modelos para avaliar o desenvolvimento do seu ecossistema. Agora o nosso convite é ver os agentes de empreendedorismo das diversas regiões brasileiras implementando ações e construindo pilares sólidos para o desenvolvimento de startups. Reforçamos a crítica: não vivam no excesso de calor sem geração de nenhum trabalho. Para melhor guiar esse processo, recomendamos o material "Entrepreneurial Ecosystem Diagnostic Toolkit" — já utilizamos bastante quando desenhamos programas de desenvolvimento de ecossistemas de empreendedorismo aqui no Brasil.

Nós da Wylinka estamos dispostos a contribuir sempre que precisarem, é só entrar em contato conosco pelo site www.wylinka.org.br e marcar um café! =)

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