Em vez de reclamar, eles resolveram melhorar o Brasil investindo em TCCs de alta tecnologia.

Empreender no Brasil não é fácil, e a história de dois engenheiros da Escola Politécnica da USP poderia ter terminado na realidade de muitos que passam por uma escola de engenharia: ter um negócio que não deu certo, se deparar com as diversas dificuldades do Brasil e terminar todos os dias reclamando sobre como é difícil empreender por aqui. Porém, essa história não é sobre reclamação, essa história é sobre o encontro de duas frustrações de engenheiros que resolveram construir algo para melhorar o país.

Frustração #1: A primeira frustração é a do Prof. Dr. Marcos Barretto, do departamento de Engenharia Mecatrônica da USP, que após formado tentou montar alguns negócios e enfrentou alguns fracassos e sucessos. O Professor, apaixonado por tecnologia e interfaces, chegou a projetar em um de seus empreendimentos uma estrutura de fliperama com uma réplica de uma Ferrari na qual se jogava Need for Speed com uma experiência nunca antes vista — o problema? Além dos desafios naturais de se trabalhar com máquinas maiores, Barretto descobriu, após já ter construído toda a estrutura (lembrando: era uma Ferrari em tamanho real, sem cortes), que seus clientes (buffets) não teriam espaço para a Ferrari — e tudo foi por água abaixo. Um dos grandes aprendizados do professor foi: há de se ter muito cuidado em construir grandes coisas sem saber se as pessoas vão querer/conseguir comprar. Ao longo dos anos como professor, Barretto via ano após ano projetos de TCCs com um potencial enorme para se tornar negócios, mas sem nunca haver uma continuidade. Chegou a ver alunos empreendendo, inclusive com empresas de sucesso — como a Turi, de um aluno da engenharia mecatrônica, vendida por 200 milhões de dólares para a Apple. Enxergar tanto potencial em TCCs que não iam para o mercado era uma frustração profunda que se acumulou em sua vida como professor/orientador.

Frustração #2: A segunda frustração é a do pesquisador Ms. Diogo Dutra, também aluno da engenharia mecatrônica, que construiu em seu TCC um sistema de mobilidade individual semelhante a um Segway, gastando milhares de reais na construção — e, sem apoio para levar o projeto para frente, deixou o projeto na gaveta. Após formado, Diogo viu o mercado desse tipo de equipamento se agigantar e seus colegas de faculdade terem sucesso como empreendedores de tecnologia, como foi o caso do amigo Renato Freitas, fundador da 99taxis (atual 99). O incômodo que movia o pesquisador durante sua graduação era o de realizar projetos de tecnologia completos: envolvendo a programação, a mecânica e a eletrônica — era o sonho de fazer uma graduação em que se construía soluções completas e com alto grau de inovação embutidos. Diogo, que foi aluno do prof. Barretto (e posteriormente colega de laboratório), teve como frustração maior o fato de ter construído algo que o moveu durante toda a graduação, mas que no final não foi para a frente em termos de negócio por falta de conhecimento de mercado e de suporte para empreender. A frustração de ter grandes esforços colocados em um TCC que foi para a gaveta encontrou a frustração do professor Barretto, e como bons engenheiros a resposta foi pensar em uma solução para o problema.

(percebam a empolgação de terem construído um robô que se locomovia com equilíbrio pendular)

Como acontece com muitos empreendedores, a reclamação sem ação poderia ser um caminho, porém, escolheram outra via: começaram a se perguntar o porquê das coisas não darem certo e o que poderia ser feito para ajudar alunos de último ano a empreenderem com suas soluções tecnológicas — uma ideia que também interessava ao Instituto TIM. Instituto e professor — que já trabalhavam juntos — se uniram e, desta parceria, surgiu o programa AWC (Academic Working Capital). O sonho estava definido e a premissa era básica: precisamos oferecer, a alunos desenvolvendo TCCs nas engenharias ou ciências exatas de universidades de todo o país, (i) suporte financeiro para a prototipagem, (ii) orientação com mentores especializados, (iii) workshops com capacitação presencial e (iv) uma feira de investimento no final do programa de 1 ano. Com o AWC, conseguia-se um apoio que raramente se encontra no Brasil: financiamento para os projetos de modo a garantir aporte financeiro, sem equity envolvido, basicamente pensando em democratizar a ciência, tecnologia e inovação para a promoção do desenvolvimento do Brasil (missão central do Instituto TIM). Isso permitiu um dos grandes diferenciais do programa: projetos de alunos chegando a receber o apoio de cerca de 25 mil reais para desenvolvimento do protótipo e avanço do negócio.

Coordenado por um Professor Dr. da Poli-USP, um mestre pela Poli-USP, um mestrando do ITA, um doutorando da FEA-USP e um comunicador especialista em Publicidade de Propaganda da ESPM-SP, o programa se baseou em diversas metodologias (algumas de design de produto, outras de desenvolvimento de startups) e os coordenadores buscaram referências de programas do MIT, de Berkeley, SEED-MG, Stanford e outros, sendo o objetivo deste post mastigar alguns pontos-chave que possam vir a ser replicados em programas de diversos outros locais do Brasil.

Desdobramento #1: Flipped classroom com tecnologia

A experiência de Diogo como um aluno que desperdiçou um TCC e do prof. Barretto na reflexão de como criar dinâmicas de aulas mais focadas em ensino vivencial trouxe uma primeira premissa: o aluno precisa se tornar protagonista e podemos utilizar tecnologias para empoderá-lo. Nessa crença de aprendizagem vivencial, foi proposto o modelo de flipped classroom — alunos desenvolvem seus projetos e vão à frente apresentar, enquanto mentores sentam-se na posição de alunos e vão trazendo suas provocações individuais. Um dos ganhos usando a tecnologia foi a dinâmica dessa apresentação nos workshops presenciais: todos os participantes entram no Slack enquanto assistem aos pitchs e vão colocando feedbacks em um channel específico, o que faz com que os que estejam à frente apresentando possam depois consultar uma diversidade de devolutivas interessantes e indicações. O modelo com o slack amadureceu e hoje as equipes vivenciam uma flipped classroom a cada quinze dias via google hangouts, mas com o mesmo modelo de todos os participantes online ouvindo e colocando feedbacks no slack — sendo um passo avançado a expansão dessa participação convidando empresários, investidores e pessoas do mercado para participar da dinâmica.

Com essa estrutura semi-presencial, o AWC foi capaz de chegar no Brasil inteiro, tendo a mesma dinâmica online em tempo real envolvendo pessoas que moram a centenas de quilômetros de distância umas das outras. Para entender um modelo que muito inspira os horizontes dessa peça-chave, recomendamos a leitura do texto “Why Demo Days Have to Change”.

Desdobramento #2: ser ousado no projeto e só aceitar projetos ousados.

Como suprir o gap de um tcc para um negócio real? Como o projeto do Diogo poderia ter se tornado uma empresa? Quais processos e ferramentas devemos usar? O que consideramos como impacto baseado em alta tecnologia? Desses questionamentos surgiu uma obsessão do programa em pegar projetos de alta tecnologia que demandem o uso intensivo de conhecimentos técnicos (robótica, inteligência artificial, engenharia química, engenharia física, computação), sendo evitados os projetos mais superficiais — como apps mais simples ou plataformas sem muita intensidade tecnológica. Para isso, o programa se desdobra em trilhas diferentes de acordo com o perfil dos projetos (grandes máquinas, mecatrônica média e softwares, por exemplo) — assim orientando melhor os participantes e oferecendo conselhos melhor direcionados sem cair em uma formação genérica e mal desenhada (o que geralmente acontece em programas de aceleração intensivos em software/apps). Os participantes se apropriam, durante os workshops presenciais, de ferramentas que compõem um toolkit do programa, e são avaliados pela utilização dos mesmos (BM Canvas, matriz CSD, mapa de empatia, jornada do usuário, personas e outros).

Um dos argumentos mais fortes trazidos pra esse interesse do programa em alta tecnologia é a referência que um dos coordenadores traz da biografia do Elon Musk em uma crítica sobre apps superficiais:

“The technology industry had no idea what to do with itself. The dumb venture capitalists who had been taken during the bubble didn’t want to look any dumber, so they stopped funding new ventures altogether. Entrepreneurs’ big ideas were replaced by the smallest of notions. It was as if Silicon Valley had entered rehab en masse. It sounds melodramatic, but it’s true. A populace of millions of clever people came to believe that they were inventing the future. Then . . . poof! Playing it safe suddenly became the fashionable thing to do.
The evidence of this malaise is in the companies and ideas formed during this period. Google had appeared and really started to thrive around 2002, but it was an outlier. Between Google and Apple’s introduction of the iPhone in 2007, there’s a wasteland of ho-hum companies. And the hot new things that were just starting out — Facebook and Twitter — certainly did not look like their predecessors — Hewlett-Packard, Intel, Sun Microsystems — that made physical products and employed tens of thousands of people in the process. In the years that followed, the goal went from taking huge risks to create new industries and grand new ideas, to chasing easier money by entertaining consumers and pumping out simple apps and advertisements. “The best minds of my generation are thinking about how to make people click ads,” Jeff Hammerbacher, an early Facebook engineer, told me. “That sucks.” Silicon Valley began to look an awful lot like Hollywood. Meanwhile, the consumers it served had turned inward, obsessed with their virtual lives.”

Desdobramento #3: pensamento científico intensamente trabalhado.

Por fim, o pensamento científico, baseado em experimentação de hipóteses — que poderia ter salvo os recursos do professor Barretto com seu projeto que ninguém conseguia comprar — é talvez o elemento mais reforçado pelos coordenadores. Como há no AWC uma missão educacional, entende-se que capacitar os alunos no desenvolvimento desse pensamento científico é chave — e isso norteia todas as atividades do programa. Não é transformar o aluno em um acadêmico ou algo do tipo, é somente trazer o que Steve Blank tem chamado de “Scientific Entrepreneurship” — um processo de definição de hipóteses, realização de experimentos e formulação de conclusões baseadas em dados (que já falamos em outro texto sobre MVP’s — confira clicando aqui).

Na prática: o aluno vai entrevistar alguém para entender o problema do usuário? É forçado a levar as hipóteses e dúvidas para compreender melhor e validar. Recebeu algum feedback de um mentor/especialista? Deve tratar como hipótese e desenhar experimentos para validar. Não há um especialista (ou pseudo-especialista) que dite regras no programa, todos os pontos são hipóteses e somente os dados que você obtém de experimentos, protótipos, entrevistas e outros podem fundamentar sua decisão. Um dos pilares centrais do programa é o “observe, ask and try” — os alunos precisam mergulhar na rotina dos clientes observando tudo, precisam entrevistar dezenas de potenciais envolvidos no negócio (clientes, fornecedores, usuários, influenciadores etc) e precisam vivenciar na pele o problema do cliente. Com os dados levantados eles passam por uma bateria bastante rígida para aprofundamento do pensamento científico com mentores bombardeando — “O que você quis dizer com isso? Essa sua premissa é baseada em qual fonte de dados? Você acha que tem entrevistas suficientes para fazer essa afirmativa? O que esse tópico significa e como ele se relaciona com sua persona?”. Inclusive, a ficha de feedback que o mentor preenche para os alunos contém um item “hipóteses do mentor”, onde o mesmo traz hipóteses pessoais e força os alunos à validação/invalidação de tais hipóteses indo para a rua. Um dos coordenadores foi bem categórico ao falar sobre a estrutura das mentorias no programa:

“Um bom mentor nesse tipo de contexto precisa garantir que os alunos estejam: (i) falando com as pessoas certas, (ii) fazendo as perguntas certas para essas pessoas, e (iii) aprendendo com o processo, sendo que aprender significa transformar os dados para compreender comportamentos e conectar isso com a proposta de valor do negócio”.

Conclusões e resultados

Com somente 3 anos de existência, o programa AWC tem sido reconhecido como uma das melhores apostas de desenvolvimento de startups na universidade, com casos de sucesso e números que impressionam: startups graduadas com faturamento de centenas de milhares de reais no primeiro ano de operação; quase 200 clientes prospectados por edição; 45 mentores externos; 3500 pessoas entrevistadas anualmente nos processos de Customer Discovery; quase 500 early adopters testando as soluções; um Prêmio Santander de Empreendedorismo e um prêmio Odebrecht; alunos de cerca de 20 universidades participantes no Brasil inteiro e muito mais! Além dos números, casos de sucesso como a MVisia (cujo TCC era um projeto de seleção de produtos agrícolas utilizando mecatrônica e inteligência artificial) e a E-Sports (hardware de alta precisão para provas de corrida no mercado de concursos públicos) têm sido reconhecidos no Brasil. A variedade de tecnologias do programa também encanta — do AWC já saíram: um sistema de detecção de coloração para próteses dentais; um sensor para minimizar problemas de úlcera por pressão em hospitais; um nanoaditivo de plásticos para a cadeia de orgânicos; impressora 3D com metal clay para jóias; biodigestor para eficiência energética industrial; app para suporte terapêutico de enxaquecas baseado em inteligência artificial; hardware para otimização de amplificadores de guitarra com sistemas analógicos e muito mais! Os resultados refletem a crença de que TCCs podem virar negócios relevantes se bem apoiados e acompanhados, e que construir é sempre melhor que reclamar.

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O programa também tem obtido reconhecimento internacional, com um estudo sendo divulgado na Europa (clique aqui para ler) e outro artigo em um congresso internacional de aprendizagem baseada em problemas (clique aqui para ler).

A conclusão central apresentada pelos coordenadores veio de uma palestra dada por Paul Graham no MIT — a graduação é um excelente momento para você (i) mergulhar em novos conhecimentos técnicos com bastante liberdade, (ii) conhecer bons sócios e (iii) construir coisas variadas (seja em projetos de iniciação científica, em empresas juniores, em equipes de competição tecnológica e outros). E, para fechar o texto com a frase de Paul Graham que abre o programa, os coordenadores reforçam: “I now realize that something does change at graduation: you lose a huge excuse for failing”.

E aí, gostou do programa? Você pode se inscrever com seu TCC e entender mais no link: https://awc.institutotim.org.br/ . É um programa super alinhado ao StartupTech, que nós da Wylinka executamos na UFMG também com a crença de que soluções técnicas da graduação podem ser excelentes negócios de tecnologia.

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