Mentoria é um compromisso, não um playground.

Já estamos chegando em um ponto dos ecossistemas de empreendedorismo no qual “empreendedor palestrante”, ou o famoso “empreendedor de palco”, é visto como algo pejorativo. Parece que o Brasil começa a entender melhor que os empreendedores que cresceram sob esforços de holofotes, capas de notícias, palcos motivacionais e números inflados têm tempo de vida curto e impacto quase nulo — o que já é um grande avanço e direciona melhor o recurso dos que querem investir no desenvolvimento de ecossistemas. Mas há ainda um elemento que navega em águas cinzentas nos programas de empreendedorismo brasileiro: as atividades de mentoria. Já criticamos bastante a figura dos mentores de startup brasileiros nesse post aqui, então pouparemos esforços nessa contextualização. O post de hoje será sobre boas práticas que temos conhecido com nossas pesquisas e imersões em ecossistemas nacionais e internacionais, então vamos ao mergulho!

Photo by Mike Arney on Unsplash

É preciso compreender figuras e papéis em programas de mentoria

Como já falamos no outro post sobre mentores, o termo “mentor” vem da mitologia grega — Atena se personificava na figura humana de Mentor para direcionar Telêmaco em sua jornada. O significado original do termo aqui carrega consigo uma provocação importante: mentoria é um compromisso com uma longa jornada de alguém que está começando. E, infelizmente, seja por falta de recursos ou compreensão dos papéis, o que mais se faz em muitos programas de desenvolvimento de startups e enxer um balde de mentores e sair oferecendo curtas interações de direcionamento (muitas vezes contraditório ou puramente maluco mesmo) e reina o caos disfarçado de epifania que só faz as startups patinarem mais. O papel dos mentores é importante e muitas vezes os conselhos são úteis, mas o que chamamos a atenção aqui é a necessidade de uma melhor organização. Vimos alguns programas nos Estados Unidos com uma divisão interessante:

(a) Mentores: são experts da indústria que “adotam” poucas startups para acompanhar por um longo período de tempo. O grande propósito deles é oferecer direcionamento estratégico, ensinamentos comportamentais, contatos sólidos e abrir portas. O indicado é que o mentor já tenha uma relação com o mentorado e que a reunião tenha sempre uma pauta definida previamente para que não haja desperdício de tempo de ambas as partes. 
(b) Staff/fellow/monitor/agente de aceleração: especialistas no processo do desenvolvimento da startup (geralmente domina a metodologia do programa em que participa), acompanha um maior número de equipes e dá direcionamento mais ligado ao ferramental, com regras clássicas e conteúdos relevantes comumente utilizados.
(c) Especialista: é o que geralmente se pratica em todos os programas no Brasil com o nome de mentor. Esse possui alguma vivência e especialidade em tema específico, oferecendo direcionamentos pontuais e fazendo algumas pontes estratégicas. Não possui um compromisso de acompanhar a longo prazo e, por isso, atende a diversas startups sem problemas maiores (uma abordagem legal para essa figura é o uso de suporte via skype ou office hours, parece funcionar bastante).

Com essa estrutura, percebemos que os programas ficam melhor organizados e o direcionamento mais sólido, gerando menos confusão e tirando o melhor de cada figurinha envolvida.

Os mentores precisam entender a regra do jogo

Além das regras básicas, que deveriam ter sido ensinadas em casa, envolvendo respeito, pontualidade, ausência de interesses e pouco ego, alguns tópicos são úteis para guiar mentores — e o Mentor Manifesto da techstars é um excelente guia. Quando falamos desse Manifesto para algumas pessoas da rede Wylinka, recebemos a sugestão de traduzir os pontos principais para aumentar a acessibilidade dos mesmos, então segue aí um apanhado geral:

  • Seja socrático.
  • Não espere nada em retorno (você ficará encantado com o que receberá de volta)
  • Seja autêntico, pratique o que prega.
  • Seja direto. Fale a verdade, embora seja dura.
  • Escute também.
  • A melhor relação de mentoria eventualmente se torna de via dupla.
  • Seja responsivo.
  • Adote pelo menos uma empresa por ano. Experiência importa.
  • Separe claramente opiniões e fatos.
  • Guarde as informações com confidencialidade.
  • Se comprometa firmemente com o ato de mentorar ou não se comprometa.
  • Saiba o que você não sabe. Diga “eu não sei” quando você não sabe. “Eu não sei” é melhor que contar histórias.
  • Guie, não controle. Nunca fale o que fazer. Os times que devem tomar suas próprias decisões — a empresa é deles, e não sua.
  • Aceite e comunique-se com outros mentores que estão se envolvendo.
  • Seja otimista.
  • Ofereça conselhos específicos e acionáveis, não seja vago.
  • Seja desafiador e provocador, mas nunca destrutivo.
  • Tenha empatia. Lembre-se que empreender não é fácil.

Esse guia é suficiente para boa parte dos mentores, e nós sempre utilizamos nos programas de desenvolvimento de startups que estamos envolvidos. É natural que alguns mentores cometam seus erros, mas é um processo de formação contínua. E uma dica Wylinka (que possivelmente quem nos acompanha no facebook já viu): o Brad Feld, grande nome quando o assunto é ecossistemas/startups, está aprofundando com detalhes específicos para cada tópico do manifesto — confira aqui.

E quais os novos horizontes?

Temos estudado alguns modelos bem legais de programas de mentoria — e nesse tópico vamos apresentar algumas descobertas legais que nós, da Wylinka, encontramos por aí.

(i) O modelo do MIT Venture Mentoring Service (MIT VMS): um braço super interessante do MIT que tem umas práticas super legais para dar mentoria aos empreendedores ligados à Universidade. Alguns destaques são um trabalho com mentoria em grupo em vez de individual (o direcionamento é por consenso e a discussão enriquece o processo), uma estrutura de reuniões bem definida — 90 minutos, com um lead mentor que orienta as atividades e uma obrigatoriedade de definir um “dever de casa” no fim de toda reunião. O mais legal: organizações interessadas podem contratar o serviço de outreach do VMS para receber a capacitação do programa no Brasil! 
(ii) O modelo do autor Mike Pegg (livro: The Art of Mentoring, de 20 anos atŕas!), que defende os 5 C’s do processo de mentoria (challenges, choices,
consequenses, creative solutions and conclusions). Nele, o autor propõe um processo de fases que se dá na seguinte forma: apresentar os desafios, explorar as opções possíveis, refletir sobre as consequências, imaginar soluções criativas, concluir a melhor saída e definir um plano de ação. O modelo já foi tema de alguns artigos acadêmicos e está presente em um excelente guia de mentoria (que mostraremos abaixo). 
(iii) Alguns materiais úteis com boas reflexões são o Mentor Handbook do Startup Direct e o livro Nurturing Innovation: Venture Acceleration Networks. A review of existing models. O handbook traz ótimos caminhos e processos para mentoria e o livro provoca mais questões sobre os programas de desenvolvimento que envolvem mentores, com uma análise bem profunda de cada um (sendo que o MIT VMS é um dos analisados).

Because when you rock…

Nós realmente acreditamos no papel dos mentores, mas consideramos que muitos programas estão prejudicando não só as startups, como também gastando o tempo de mentores de maneira ineficiente. A capacidade de construir programas interessantes que explorem o melhor do potencial de alguém com experiência é chave para o desenvolvimento dos ecossistemas de empreendedorismo no Brasil — e como esse desenvolvimento é a nossa missão central na Wylinka, nada melhor que um post sobre isso. Esperamos que vocês tenham gostado e que o conteúdo seja rico, because when you rock, #wyrock!

p.s.: Quer saber mais os projetos que a Wylinka realiza? Então confere alguns cases bacanas do nosso trabalho desenvolvendo tecnologias pelo Brasil clicando aqui!

Autor: Artur Vilas Boas

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